A revista semanal dos entusiastas | jorn. resp. MTB 0088750/SP
FlatOut!
Image default
Project Cars Project Cars #251

Project Cars #251: os primeiros passos da restauração do meu Chevrolet Chevette 1977

Salve entusiastas, meu nome é Julian Rodrigo, mais conhecido neste mundo por Monterrey, sou um louco por carros, um Templário do Asfalto,  paraibano com sangue paulista e tenho 30 anos.

Aqui começa a longa e no mínimo emocionante história do Chevette 1977 Marrom Monterrey, um projeto que foi inicialmente pensado para ser uma restauração de resgate da originalidade, repleto de altos e baixos, uma lição de vida para mim e que precisava ser contata em homenagem a todos que a escreveram.

Antes de qualquer coisa, preciso dizer que como 99% dos PCs eu também sempre fui meio fanático por carros,  então em 2006, abandonei o curso de Ciências da Computação, porque não havia me identificado,  logo em seguida comecei os estudos para prestar vestibular em Engenharia Mecânica, aqui entra a pessoa mais importante em todo o projeto, meu Pai, que em uma conversa lá não tão séria, já meio sem paciência de ver ser filho repetitivamente falar de carros antigos, em especial o Chevette Tubarão, inventou de prometer o carro caso passasse na prova.

O filho então não podia ver um Chevette Tubarão no meio da rua, que já apontava e fazia questão de lembrar da promessa e sonhava com seu primeiro carro, foram alguns meses engraçados até que o dia do resultado chegou e graças a Deus foi positivo.

Que comecem as busca, posso afirmar que totalmente despreparados fomos atrás de um carro,  se me permitem, registro agora um importantíssimo ponto para quem vai entrar neste mundo de restaurações ou preparações, fóruns e revistas nem sempre são suficientes na escolha de um bom carro, a experiência de quem já fez algum projeto é de grande valia, para não dizer preciosa,  por isso busquem  amigos do meio e peçam a eles para que lhe ajudem na escolha,  essa atitude vai lhe poupar muito dinheiro e tempo.

Voltando a busca do carro, o dinheiro era limitado e eu não ganhava um tostão furado,  então   conheci um estudante de agronomia via o extinto Orkut que estava querendo se desfazer de seu Chevette 1974 Azul Turquesa, tentei comprar, mas sem sucesso, porém o rapaz findou me ajudando na busca e um belo dia me liga falando que tinha um Tubarão preso no posto da PRF, não hesitei e fui ver o carro, dias antes minha então namorada(esposa nos dias atuais) disse que havia sonhado comigo em um chevette marrom, você já está naquela tensão de achar o carro e vem alguém para falar isso!

Continuando,  ao chegar no posta da polícia me deparo com o Chevette marrom, pronto, ceguei, enlouqueci,  hoje vendo as fotos de como era o carro às vezes me pergunto a onde eu estava com a cabeça, talvez se tivesse um amigo com mais experiência teria repensado, enfim, perturbei muita gente até conseguir o contato do dono, no final descobri que era de um sucateiro da região (Tindô), usava o carro na diária, inicialmente me cobrou R$ 3.000,00 mais R$ 1.000,00 de multas e documento, consegui reduzir para R$ 3.000,00 já com tudo, felicidade era pouco, mas antes de pegar o carro, um fato cômico, tiver que ir um dia antes para dedetizar o carro, acredite, havia um formigueiro e baratas. No dia seguinte, troquei a bateria, dei aquela velha bicada no carburador  e o tubarão ressuscitou,  queria rodar com o carro, mas o destino…. ahh o destino.

01

 

02

O carro recém-chegado

A intenção era ir rodando e arrumando, mas o destino e minha condição financeira me fizeram rodar no máximo uns 6 meses, neste meio tempo acabei ganhando o  primeiro amigo de restauração, eu e o estudante de agronomia (Henrique Sales) nos movimentamos e reunimos os chevetteiros da cidade, assim nasceu o Chevette Club Paraíba e o começo de um trabalho pelo clubismo na região, mas isso é outra história.

08---Chevette-Club-PB 09---Chevette-Club-PB

Primeiro encontro do Chevette Club PB, agosto de 2007

Voltando para o destino, um belo dia estava eu indo para a universidade e a caixa de direção quebrou, quase destruo o carro em um muro, não cheguei a bater, fiquei com muito receio e decidi parar de andar e começar a desmontar para restaurar.

Sou da geração que viu programas como o Overhaulin nascerem, contagiado por eles decidi fazer por conta própria, isso foi muito bom por diversos pontos;  você faz tudo a sua maneira, adquiri muito conhecimento sobre o assunto e faz grandes amizades , mas por outro lado; a carga de trabalho não é pequena, os sete dias do Overhaulin se tornam bem mais longos do que você pode imaginar, então antes de começar a contar sobre a restauração, aconselho aos amigos entusiastas que pensem bem antes de encarar essa brincadeira, tenham em mente que só vontade não será suficiente, você vai precisar de muita paixão por este hobby e principalmente, incontáveis amigos, eles farão toda a diferença.

Que comece a restauração, o ano era 2007, o primeiro passo da restauração foi levar o carro para um lanterneiro, retirar todos os pontos de ferrugem e instalar as novas peças de lataria, eu ainda era um iniciante neste mundo, não havia me atentado para o tipo de solda, para mim tudo era igual, mas são bem diferentes, recomendo que não utilizem a solda tipo oxiacetileno (fogo), ela destempera uma grande região da chapa e deixa resíduos, isso faz com que o ferrugem volte com mais facilidade, mais a frente tive que fazer novos serviço de lanternagem,  abandonei a solda “fogo” e comecei a utilizar a solda tipo MIG, ela deixa o cordão da solda bem mais uniforme, não deixa resíduos e não destempera tanto a chapa soldada.

Peças trocadas neste ponto: Paralamas e Papo

Após a lanternagem, levamos o carro para uma fábrica que tinha um galpão ocioso e uma grande estrutura para a realização dos trabalhos, começamos desmontando todo o interior e peças de lataria para fazer a limpeza, neste ponto finalmente descobri qual era a cor original do carro, sendo o raro Marrom Monterrey, cor exclusiva da GM de 1977, a intenção antes desta descoberta era pintar o carro de preto Formal, também da linha GM, porém ao saber da cor original abortamos a idéia de pronto.

16-folder 16-folder (2)

Fotos do folder de lançamento do Chevette, 1973 – Preto Formal

Foi realizada a remoção de todos os pontos de ferrugem, lixando até chegar na lata somente em pontos comprometidos,  para depois aplicar o antiferrugen, recomendo o F76 , deixe agir por uns 10 min, depois limpe com um desengraxante.

Para finalizar essa etapa sempre apliquei o WashPrimer, muitos dizem que não é necessário e até alguns fabricantes afirmam o mesmo, falam que o primer e a massa Plástica/PU possuem fosfatizantes, de fato é verdade, mas a quantidade é muito pequena, insuficiente para proteger a chapa com segurança, principalmente em cidades litorâneas, por isso recomendo fortemente que caso a chapa fique nua, apliquem o Wasprimer.

Nesta altura, o perfeccionismo começa a me dominar, então encontrei um painel traseiro de ótima qualidade e findei por trocar também.

A princípio não desmontamos o conjunto mecânico, era necessário mover o carro pela fábrica, depois improvisamos um elevacar com andaimes, isso facilitou e muito os trabalhos.

Somente depois de limpa e tratada toda a chapa foi aplicado o primer, optamos pelo primer PU, pois ele possibilita um melhor acabamento, sendo mais fácil na hora de lixar.

Também foi aplicado vedante em grande parte das junções, sempre isolando a área da aplicação com fita crepe, melhorando o acabamento.

Após o primer e da aplicação do vedante, foi aplicado batida de pedra embaixo de todo o carro, mas eu não queria aquela aparência rugosa, por isso aumentei a diluição e realizei duas demãos, esperando um intervalo de 48h entre cada demão, o resultado final foi muito bom,  não aparenta de forma alguma que tem batida de pedra.

58

Em paralelo à restauração do monobloco, comecei a comprar as peças da suspensão. O projeto era substituir tudo por peças novas e de preferências originais ou de boas marcas, as que não podiam ser trocadas como o diferencial, caixa de marcha e etc, foram encaminhadas para revisão para depois serem pintadas.

Um fato importante que pesou sobre as minhas costas, em um dia de trabalho junto com os amigos na fábrica, fui pressionado para dizer um prazo e uma pergunta foi feita:

“- Quando esse carro vai ficar pronto?

A minha resposta foi: “- Muito em breve, porque carro parado não faz história”

Mal sabia eu o que o destino me reservava. Ah destino…

Já  estamos no ano de 2009, começamos a preparar a parte externa do carro,  no meio do caminho descobri que um rapaz fazia jateamento na carroceria, juntei as economias e levei o carro, acreditava que além de qualidade no projeto iria ganhar também tempo, mas demorou cerca de 6 meses, não há explicação, simplesmente o cara demorou muito para realizar o serviço, coisas de restauração.

64

Apesar da demora, o serviço no monobloco ficou muito bom, foi jateada somente a parte externa e em seguida aplicado o washprimer (fundo fosfatizante), a parte ruim da história foi que o jateamento acabou estragando uma porta e a tampa da mala, isso aconteceu devido a força do jato, um erro do jateador no processo, fiquei um pouco chateado, mas o projeto não podia parar, acabei encontrando uma porta nova GM e a tampa de mala em perfeito estado em uma sucata.

66 65

A ansiedade crescia, busquei maneiras de tentar encurtar o tempo, então encontrei um preparador (Adilson), muito gente boa, que topou me ajudar a finalizar o serviço, conseguimos dar uma adiantada, limpamos toda a parte interna do carro, lixamos, reaplicamos o primer e aplicamos o batida de  pedra da mesma maneira que foi feita a parte debaixo do carro.

Já a parte de fora, aplicamos uma mão de primer PU sobre todo o monobloco, começamos a fazer o alinhamento com a massa PU, deixando a parte de fora do carro praticamente pronta.

Nesta altura da restauração já estamos no final de 2009, eu trabalhava e estudava, não tinha tempo durante a semana, então todos os sábados e domingos trabalhava no carro junto com o Adilson, mas eu não podia exigir na questão do tempo e a ansiedade me devorava, então resolvi levar o carro para uma oficina na esperança de ter o carro mais rápido.

Para entrar no ano de 2010 tive que fazer ajustes na vida, a primeira foi o curso de engenharia mecânica, havia iniciado um empresa junto com meu irmão, por isso meu tempo já não era tão livre quanto eu gostaria, logo tive que trancar o curso e na seqüência acabei abandonado. A vida também pedia um carro para o uso diário que fosse barato, qualquer pessoa normal pensaria em um Celta, Palio, Corsa etc, mas um entusiasta brilha os olhos por outros, então apareceu um Chevette 1988 com 58.000km por um preço muito justo. Não hesitei e comprei o carro em sociedade com meu irmão. Aqui matei um pouco daquela vontade de ter o meu tubarão rodando, fiz mais inúmeras amizades e fiquei com muitas histórias para contar, isso foi muito bom para aliviar a pressão e ansiedade de ter o tubarão

75

76 77

Entramos em 2010 com o carro na oficina, o serviço era para durar apenas seis meses, mas durou quase 2 anos,  isso aconteceu porque eu não escolhi uma oficina especializada em restaurações, sendo que o foco dela é serviços rápidos, então a todo instante serviços “mais lucrativos e rápidos” colocavam meu carro no estado das mais baixas prioridades, foi deveras estressante, se soubesse disso jamais teria levado o carro, minha ansiedade era um tortura psicologia e carro parado não faz história.

Por outro lado, a qualidade do serviço que estava sendo realizado era inquestionável, a preparação da parte externa continuou, sendo realizada a aplicação da massa para acabamento e o controle de lixas, começando pela aplicação do primer, depois lixa-se com lixas grossas, 320/340 e vai afinado até 600, onde é aplicado um mascaramento bem leve preto, para depois afinar as lixar até 1200. Esse procedimento é feito para tirar todas as morsas e também evitar riscos de lixas na pintura.

Somente após esse controle foi aplicada a primeira mão de tinta, onde são visualizados os pequenos defeitos e corrigidos, depois o carro todo foi lixado novamente com lixas finas, 1200.

Em paralelo, fomos finalizando a parte interna, embaixo e cofre do motor, também recebendo um controle de lixa, quase tão rigoroso quanto a parte externa, a intenção era deixar o carro todo vernizado, sendo a repetido o mesmo padrão de pintura em todo o carro.

Chegado o dia da pintura, a vontade de ver o resultado final é uma mistura de prazer com tortura, mas para nós entusiastas e o final de uma grande etapa e o começo de outra.

105

Que comece a montagem, mas essa nova etapa vou deixar para o próximo post, sei que quem leu até aqui teve uma grande determinação, foram mais de 100 imagens e muitas palavras, espero que estejam gostando da história, estou cortando muitas informações para não alongar ainda mais esse odisséia, se  houver qualquer dúvida terei uma grande satisfação em responder.

Um grande abraço a todos, do chevetteiro Templário Monterrey, Julian Rodrigo

Por Julian Rodrigo, Project Cars #251

0pcdisclaimer2

Matérias relacionadas

Project Cars (ou Cycles?): Marcelo Druck e sua Vespa 150 Super – a história

Juliano Barata

Focus Colin McRae: os novos rumos do Project Cars #43

Leonardo Contesini

Cris, a Serial Killer: o início da funilaria e uma nova cor para meu Plymouth Suburban 1957, o Project Cars #73

Leonardo Contesini