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Project Cars Project Cars #258

Project Cars #258: a história de Tobias, meu Fusca 1300L que será restaurado e preparado

Olá a todos. Meu nome é Bruno Pelegrine, tenho 18 anos, sou estudante de planejamento territorial e hoje estou aqui pra apresentar para vocês o meu Project Car: o Tobias, um Fusca 1981 Azul Porrada… digo, Azul Pepsi — meu primeiro carro, que por sinal eu nem planejava ter.

Mas vamos começar do começo, eu sempre gostei muito de carros desde que eu era pequeno, enquanto os outros moleques curtiam futebol, eu gostava mesmo é de ler revistas de tuning e comparativos, desenhar carros em folha sufite e de ficar importunando meu pai perguntando o nome de todo carro diferente que eu via na rua. O culpado de tudo isso foi ele mesmo; meu velho gosta muito de carros também e, pelas minhas contas, ele já teve trinta carros. Além disso, minha casa sempre foi repleta de miniaturas 1:18 da Burago. Infelizmente só algumas delas resistiram a mim e ao meu irmão — um Jaguar XJ220, um Ford GT90 e um Mercedes SSKL.

Meu gosto por carros sempre foi muito peculiar, pois na garagem da família só entraram carros da Fiat, Citroën e Renault, então eu gostava mesmo era das “bombas”. Em casa já passaram Oggi, Palio, Siena, Xsara Picasso, C4 Pallas, Twingo, Marea, Tempra, Uno, Logan, Clio, entre outros carros que moldaram meu gosto gearhead. Os Volkswagen, para mim, eram meros meios de transporte, eles não tinham aquela alma exótica que eu tanto gostava.

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Uma das muitas miniaturas da minha coleção, um hobby que cultivo desde a infância

E assim fui crescendo, aprendendo cada vez mais sobre essas máquinas maravilhosas, desenhando algum modelo que inventava na minha cabeça, colecionando miniaturas (quase 700 carrinhos e contando), jogando Gran Turismo, Destruction Derby, Driver, Forza ou Need For Speed e pirando toda vez que ia numa concessionária, entrando nas Bimmers usadas me questionando: “Poxa, é tão barata, vamos levar ela pra casa?!”. Mais tarde aprendi a dirigir em um Logan, só firmando ainda mais minha ligação com carros que quase ninguém gostava. Até que finalmente eu completei 17 anos, o ano mais demorado da vida de um entusiasta. Eu já tinha entrado na UFABC (faculdade pública era o requisito pra ganhar um brinquedo motorizado) e ficava sonhando acordado sobre qual modelo eu escolheria. Claro, como todo moleque sem noção eu sonhava com Alfa Romeo, Opala, Calibra, Accord e vários outros carros beberrões e de manutenção complicada.

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Outro hobby: desenhar os carros

Um belo dia meu pai passa no meu quarto e diz “Filho, eu vi um Fusca no estacionamento lá da academia. O cara ta vendendo, o que você acha?”. Bom, desde que me conheço por gente meu velho sempre falava “Um dia vamos reformar um carro juntos”, então nem dei bola, achei que era só lombriga do momento ou ideia fraca que logo passaria.

Mal sabia o que me aguardava.

Semanas depois ele me levou no tal estacionamento e mostrou o carro: velho, empoeirado, cabisbaixo, pintura queimada… nem dava pra ver o outro lado do carro pois ele estava grudado numa parede e trancado. Eu já não gostava de Volkswagen, ainda mais um pau velho daqueles. Só de olhar eu já ficava cansado, pensando em todo trabalho que ia dar. Fomos para casa e o assunto morreu. Pelo menos eu achei que tinha morrido…

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“Os franceses ainda não perceberam que invadi seu território”

Sábado de manhã, voltando da faculdade de carona com o meu irmão, ele parou seu Clio na frente de casa e o que eu vejo lá dentro? O bendito Fusca! Eu comecei a dar muita risada e não conseguia segurar meu sorriso de ponta a ponta. Não: eu não gostava de Volkswagen. Não: eu não gostava do Fusca. Mas aquele besourinho sujo e maltratado estava lá dentro de casa. Um carro velho que precisava do nosso carinho. Meu pai estava animado demais com a nova aquisição, e minha mãe incrédula, mas achando muita graça daquilo tudo. A ideia do meu pai era fazer um projeto familiar, um carro para todo mundo andar, e para todo mundo contribuir também, então logo pegamos a mangueira (desculpa, Sabesp, mas não tinha crise na época!) e demos um belo banho nele, revelando o diamante bruto que tinha por baixo daquela poeira toda. Aliás, diamante é modo de dizer, ele parecia mais um pedregulho de obra. Mas até que era um pedregulho íntegro e sólido.

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Agora sim… Isso é azul?

Mas espera aí. Que raios de cor é essa? Cinza? Azul… bom, o documento dizia azul por mais que aquilo para mim fosse cinza (mais tarde conto o nome dessa cor, mas o fusqueiro que acertar o nome nos comentários vai ganhar… um parabéns, porque não sou o Sílvio Santos). O carro estava sem rádio, mas tinha vidros elétricos, os bancos dianteiros eram estilo Recaro de Escort, mas o padrão de tecido nos bancos dianteiros não batia com o dos traseiros, volante Lotse, mas faltava tampão traseiro e, pasmem, não tinha cintos de segurança!

Mais tarde fiquei sabendo que o carro era utilizado diariamente pelo dono anterior, e uns bandidos tentaram roubar o carro. Eles até conseguiram entrar, mas graças à trava de volante-pedal, eles não levaram o Fusquinha. Só que eles resolveram fazer uma retaliação: os malditos cortaram os cintos de segurança.

Apresentado ao carro me coloquei a pensar em um apelido, pois para mim carros com personalidade precisam de nomes (influência do filme “60 Segundos”) e o nome que me veio à cabeça foi “Tobias”. Por quê? Bom, acho que é um nome daqueles velhinhos simpáticos, tipo um zelador ou porteiro gente fina, pois para mim o Fusca era isso: um senhor de idade cheio de carisma. E como todo Fusca, o Tobias também tinha muita história pra contar: meu pai e meu irmão encontraram um pacote de camisinhas vazio dentro do compartimento do motor. Se eu já não gostava dos bancos antes disso…

Resolvi mergulhar de vez nessa história de ter um Fusca. A primeira coisa que eu fiz foi pesquisar tudo que podia sobre os besouros, pois como eu nunca tinha demonstrado interesse por eles, não sabia praticamente nada sobre. Descobri a diferença entre Olho de Boi, Tremendão, Fuscão, Fafá e Itamar por exemplo. Descobri que existem vários motores de Fusca (para vocês verem como eu era leigo): 1200, 1300, 1500 e 1600. Então, qual era o modelo do meu besouro e suas especificações? Era um Fusca “Fafá” 1981 1300L (Luxo), o apelido Fafá era devido às lanternas traseiras fartas, como certos atributos da cantora. O motor era o mais fraco da linha na época, um 1300 com ferozes 39 cv de potência e cerca de 9 mkgf de torque (algo surpreendente se comparado com a potência), carburação simples. Ao menos veio com alternador.

Essa versão específica era denominada “Luxo” pois tinha parachoques e frisos cromados que a versão Standard não possuía, além disso, a partir de 1980 os 1300 Luxo vinham com o opcional de freio a disco dianteiro (infelizmente, não presente no meu). Outra diferença dos Fusca 1300 é que sua suspensão dianteira é integrada por seis feixes, e não 10 como nos 1500 e 1600.

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1300L, mas faltando parachoques cromados e os frisos laterais

Agora eu sabia com o que estava lidando, e era hora de por a mão na massa. Fui até a maior loja de auto peças que pude encontrar e comprei alguns itens e caprichos: um rádio baratinho, mas que não destoasse muito do painel, cintos de segurança de três pontos (amém!), antena para o rádio, ponteiras cromadas, novos limpadores de para-brisa, capas de seta (as originais de ferro estavam completamente corroídas), novas molduras de farol (adivinha? Enferrujadas também), borrachão traseiro novo (o do carro estava corroído e faltando pedaços), capas de parafuso de roda cromadas, tampão traseiro e capas de lanternas traseiras clássicas, novos alto-falantes, cabos de chupeta (que se mostraram muito úteis no decorrer dos meses), ou seja: um belo banho de loja para deixá-lo minimamente utilizável. Aliás, a maioria destes equipamentos é extremamente fácil de trocar/instalar, bastando uma chave de fenda, um martelo, uma chave de boca e um bocado de paciência.

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Algumas compras e no detalhe os bancos que vieram no carro

Mas a ideia não era só trocar umas pecinhas aqui e ali. O interior e o exterior do carro precisavam de uma reforma urgente para se tornar um Fusca admirável. Por isso compareci a alguns eventos de carros antigos, onde fiz alguns amigos e peguei referências de boas oficinas e de ideias de customização para o Tobias.

O plano era deixá-lo com um estilo bem clássico com pintura impecável: a cor teria de ser azul de verdade, não só no documento, mas um azul de ver as pessoas se batendo na rua. Os pneus ganhariam faixas brancas, as calotas cromadas que vieram numa caixa dentro do carro seriam instaladas nas rodas de Brasilia (14 polegadas), a suspensão seria levemente rebaixada, o motor tinha de rodar liso e com alguns upgrades. Também compraria um bagageiro de teto e obviamente, um interior completamente reformado. Quem dera fosse tudo tão simples (e barato) quanto eu pensava…

Por Bruno Pelegrine, Project Cars #258

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