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Project Cars Project Cars #263

Project Cars #263: um Chevette tubarão, um motor V6 e a história de como eles se uniram

Olá a todos. Meu nome é Alexandre Garcia e você já deve ter lido meu primeiro Project Cars, a Caravan V8. Desta vez, farei um post bem didático, serve bem para desmistificar a ideia de que se faz project car assim correndo, ou com algum planejamento super rígido e organizado. Aqui vai um pouco de historia do meu segundo Project Car: um Chevette V6.

Primeiro vamos voltar no tempo. E bastante! Tinha lá nos anos 80, uma revista legal chamada Motor 3. Isso, aquela do José Luiz Vieira, Mahar, Nasser etc. Nesta revista eu aprendi muito e mais que apenas técnica e mecânica. Aprendi que vale muito a pena não ser um sacana egoísta que não reparte com os companheiros o pouco que sabe. Vale comentar, para quem não sabe, que esses caras — JLV, Mahar, Nasser etc — estavam num patamar muito acima do meu, de mero mortal.

Eram assim como pessoas que sabíamos que existiam, mas eram como um fortissimo farol a nos fornecer luz, conhecimento e sabedoria. Únicas fontes de inspiração e conhecimento numa época em que fora revistas nacionais, quase nada tínhamos. Importadas eram carissimas e dificeis de conseguir, na TV nada, e por fim, internet não existia ainda. Claro que um dia eu tive o prazer de poder levar o Mahar e o JLV para uma voltinha rápida na Caravan V8 from hell, mas isso é historia para o outro PC, o #262.

Lá em 1987, meu pai (que mora no RJ) estava internado lutando contra um câncer e ele me pediu para conversar com um enfermeiro dele, o Lecio, que era doidinho por chevette. Lecio era leitor da Motor 3, queria fazer um Chepala mas tinha, como a maioria das pessoas normais, limitações de espaço, ferramentas e alguma habilidade para fazer a bagunça. Pronto, estava eu incluído nessa história de Chepala.

 

Scans: CronicasAutomotoras.Blogspot.com

Se você leu meu outro texto do Project Cars, o #262, comentei um detalhe legal no texto: em 1988 eu mudei para Sorocaba/SP.

O motor do Chepala do Lecio foi pra lá comigo. Depois de um tempo, ele foi dirigindo o carro para Sorocaba, e lá, numa oficina especializada em caminhonetes, desmontei o carrinho, pus o quatro-cilindros do Opala, fizemos o melhor que pudemos e em coisa de dois ou três dias estava andando. Do jeito que ficou, voltou pro Rio. Depois voltou mais uma vez, quando tiramos o DFV 446 que estava nele e instalamos um Holley 2100 de 255cfm, o mesmo que era usado nos caminhões e picapes Ford nos anos 60. Depois, voltei pro Rio em 1990 a bagunça continuou.

Na verdade fiz alguns projetos para ele. Mais legal que fazer o Chepala em si foi fazer uma adaptação do virabrequim que o Martins fazia e que deixava ele com três litros em vez dos 2,5 normais. Fizemos um monte de experiências no carro, nos divertimos um monte e a vida seguiu seu rumo.

Curti um monte ter feito, mas desde o início eu via pessoas instalando o 4.1 no Chevette. Eu abominava a adaptação porque tinha que cortar o carro todo e ainda que ficassem rápidos, o peso do 4100 corrompia a tocada do carro.

Eu sabia que tinha outro seis-cilindros que era até maior que 4100, mas que não era facil de conseguir ele aqui. Paciência. Um bom tempo depois, nos anos 90, a GM fez o favor de nos mandar a S10 com este outro seis-cilindros. A vida seguiu, V6 começou a ser comum, fácil de ver nas ruas e depois nos ferros velhos.

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Em 2000 eu mudei do RJ pro DF e a vida seguiu. Continuei tocando meu barquinho e boa.

Vamos ver aqui um detalhe técnico interessante: do mesmo modo que o ponto decisivo para pôr o V8 na Caravan foi o fato dele pesar o mesmo que o 250 mas com 100 polegadas cúbicas a mais, o V6 pesa pouco mais que o 151, que pesa pouco mais que o original do Chevette. Só que já tem 111 polegadas cúbicas a mais. Sendo que, caso peso fosse realmente um fator decisivo, poderíamos ainda optar por trocar cabeçotes, coletores e bomba d’água por outros de alumínio. E de quebra tinha outro detalhe legal: ao contrário de muitos outros fabricantes, que fazem cada motor com uma interface de câmbio diferente para diferentes motores (o chamado bolt pattern), a GM fazia seus motores antigos, de quatro, seis e oito cilindros todos comunizados.

Chevrolets eram iguais, e Buick, Olds, Pontiac e Cadillac usavam outro. Logo, os motores de quatro e seis cilindros do Opala, o V6 de 90 graus, small block e big block Chevy, têm todos o mesmo padrão, usam sempre a mesma transmissão. O câmbio que serve em um, serve no outro. Ou seja: por uma questão de tamanho do carro, um motor menor, mas a linha geral de raciocínio que gerou a Caravan V8 foi absolutamente a mesma que gerou o Chevette V6.

Há muito, muito tempo, um amigo daqui de Brasília, o Italo, tinha um Camaro 69. Carro bacana, legal, íntegro, mas que estava com um pequeno problema de bomba d’água que foi resolvido “errado” e ficou meio feio embaixo do capô. Comentei isso com ele, e disse que tinha um jeito de melhorar muito a situação.

Eu comentei com o Italo que tinha uma solução legal e bem higiênica para montar outra bomba d’água, bomba da direção hidráulica e até mesmo ar-condicionado no Camaro dele. Ele ficou muito interessado e começamos a aquisição de peças. Fomos na Vila Canaã em Goiânia/GO e compramos um motor completo de Blazer V6 com todos os acessórios para fazer o transplante. O motor estava quase morto, mas os acessórios bem legais. Na conclusão do negócio, ficou claro que estávamos pagando pelos acessórios. O motor servia só para manter tudo junto.

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Bom, no fim ao retornar com tudo, acabou rolando um engine swap no Camaro: o 307 V8 meio manco que estava no carro acabou saindo porque o Italo viu um 350 moderninho que eu tinha refeito completamente e zerado num canto da garagem e não se conteve, acabamos fazendo um bom negócio e o V6, mais o 307 V8 e mais uns detalhes e alguns trocados ficaram na garagem e o Camaro saiu forte e poderoso, com todos os acessórios modernos, correia poly V única e todos ficamos bem felizes.

Aí o V6 ficou num canto da oficina, bem quietinho mesmo, por alguns anos.

Um outro amigo meu, Jason, sabendo que eu tinha o V6, perguntou se seria possível instalar o V6 num Lada Laika. Meio sacana ele disse que ia ser o romance da cadelinha russa com o ogro do cerrado. Nem tentei resistir, caí na gargalhada e começamos a bagunça. Primeiro, refiz o V6. Depois começamos a catar um Lada. Aí deu uma dificuldade momentânea com o Jason e ele acabou vendendo o V6 para outro amigo comum, o Felipe. O Felipe tinha muita vontade de por o V6 num Chevette da primeira serie, o famoso “tubarão”.

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V6 adquirido, retificado comecei a catar um tuba. Na verdade nem catei muito porque um outro amigo tinha um a venda, zoado de motor e de lata, mas que servia bem ao papel de mula de testes. Este tuba tinha uma história meio triste, projeto frustrado, inacabado, parado por falta de recursos do dono de concluir ele. Isso lá por 2006.

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Primeira providência foi pegar o Chevette e tirar o motor original fora e “meter” o V6 lá pra ver se cabia. No caso para facilitar era só o motor pelado, bloco e cabeçotes, sem volante e sem cárter, mas já tendo um câmbio no carro para faclitar a fixação e a referência do motor no carro. Coube. Muito bem, aliás. O cárter era difícil, mas não impossível, e os calços e demais itens normais da adaptação pareciam tão ridiculamente fáceis que eu me beliscava para ver se era realidade ou um apenas um sonho bom.

Continua no próximo post…

Por Alexandre Garcia, Project Cars #263

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