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Project Cars Project Cars #269

Project Cars #269: a história do meu Volkswagen TL 1972

Bem vindos ao PC #269, senhores! Um projeto simples mas bem divertido, onde vou lhes contar um pouco do que fiz em minha VW TL 1972! Meu nome é José Guilherme Stefanelli, 27 anos, natural de Campinas SP e convido todos a ler, em detalhes, tudo o que fiz desde o dia em que essa TL caiu no meu colo.

Na minha opinião, todo mundo, por pelo menos um curto período de tempo da vida, deveria poder ser dono de um VW refrigerado a ar. Mas por que? Simples, pra aprender os conceitos básicos de mecânica! Não que eu soubesse disso quando comprei meu primeiro brinquedo, uma Variant II, transformada em pickup, que comprei com o único propósito de transportar minha bike pras pistas no final de semana. O problema é que logo que comprei, carreguei a bike uma só vez e nunca mais andei numa bicicleta. Não tinha mais graça, a bike não tinha motor e não fazia vrum vrum hahahaha. Naquele momento, eu arrumava um novo hobby, motores boxer.

Só que havia um problema, eu não tinha onde guardar o carro! Ela ficava estacionada debaixo de um viaduto. Todo os dias eu rezava pra ela amanhecer lá (é serio), viaduto esse que também era minha oficina! Eu montava e desmontava tudo ali mesmo, na rua.

Foto 2

Só que minha Variant, coitada, tava um lixo: motor perdendo compressão, ferrugem pra todo lado, óleo até no teto do carro. Coitado de mim, comprei achando que tava fazendo um bom negócio, fiquei três ou quatro meses com o carro, até que o anjo da guarda graxeiro me falou “anuncia esse abacaxi”. Assim o fiz, vendi em quatro dias. Um cara do RJ (600 km daqui) fechou a compra por telefone e veio buscar.

O carro fez o percurso de 600 km incrivelmente bem, com um consumo de 14 km/l.  Nem eu acreditava que tinha chegado. Antes que me perguntem, sim, eu falei de todos os defeitos do carro, não escondi nada, o cara quis assim mesmo. Quem sou eu pra não vender, não é? Perdi dinheiro, mas ainda tenho saudades do ronco dela, não dava nem pra conversar dentro da cabine! Era lindo! Minha namorada, finérrima, almoçava comigo de vez em quando — eu buscava a doutora no escritório e a levava pra comer de Variant, os caras da rua não sabiam se olhavam pro carro cortado ou se ficavam indignados de eu ter conseguido colocar uma moça arrumada dentro dele. Ela se divertia.

Durante esses quatro meses que tive a Variant, tomei gosto pelos air cooleds. Amigos, isso é caminho sem volta. Nessa época, enquanto eu aprendia sobre a mecânica desses carros, eu trombei com um modelo completamente novo para mim, nunca havia visto antes, algo lindo, me apaixonei na hora! Que curvas, que sensualidade! Uma prima pobre dos Porsche, pobre mas bem arrumada! Me lembro até hoje, ela era vermelha, lustrosa, só vi por fotos, parecia que estava vendo uma foto-novela daquelas que eu sei que vocês sabem, foi a mesma emoção. Eu precisava de uma! Mas espera um segundo.. qual é o nome desse carro, meu deus? Volkswagen TL!

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Virou um objetivo ter uma, um objetivo distante porque esses carros são difíceis de achar por um valor justo. Poucos dias depois, a três quadras da minha casa, eu vejo estacionado um belíssimo exemplar vermelho em frente a uma pizzaria, linda. Nunca havia visto uma pessoalmente! Minha namorada do lado, acho que ela pouco deve se lembrar desse dia, se é que lembra algo.

Mostrei pra ela, disse que era o carro que eu sonhava recentemente em ter (recente porque o sonho antigo sempre foi e sempre será um Porsche 911 Classic), passei devagar quase parando, querendo, literalmente aproveitar cada segundo que eu olhava, cada detalhe, não queria perder nada. Suspirei o suspiro da tristeza, fui embora ainda pensando no carro, ouvindo da namorada que eu devia guardar o dinheiro da Variant pra fazer uma viagem. Falei que não, não usaria esse dinheiro pra outra coisa além de comprar outro carro. Aposto até hoje que ela pensou “quase, essa foi perto”. Já que ela tem mais ciúmes de eu ficar gastando meu tempo e dinheiro nos carros, do que ciúmes de qualquer outra coisa.

Despretensiosamente vagando pelo OLX, com um budget definido, encontrei uma senhora menina, linda, selvagem.

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A princípio, o preço estava no limite do limite do budget, não me chamou tanta atenção, mas o carro estava na minha cidade! Era um sinal..

Como estava no limite da minha grana, eu já mandei uma proposta bem real pro antigo dono (Allan, um abraço e obrigado pelas fotos!), um pouco abaixo do que ele pedia.

Mas isso era o que dava pra pagar sem sofrer muito. Depois de alguns dias eu já nem esperava mais resposta quando chegou um email, domingo à noite. Ele em princípio aceitou a proposta. Pensem numa criança feliz! Liguei para o Gabriel Dib, amigo meu que teve um Fusca e até hoje opina nas mudanças que eu invento. Fomos ver o carro no dia seguinte a noite.

Chegando lá, ela estava num canto da casa, tristonha, até arriada. O ex dono se envolvera em um trabalho que não lhe dava mais tanto tempo pra curtir o carro, ele achou por bem repassá-la. Enquanto não tentávamos dar partida, fui observando os detalhes, que de forma geral me mostravam que ela tinha potencial, nada muito sério pra resolver, volante precisando de reforma, bancos descosturados mas não rasgados. Gostava do que eu via! Pegamos os cabos pra dar uma carga na bateria, mas eram curtos, o Allan foi no vizinho buscar mais um par de cabos pra gente fazer uma gambiarrinha e conseguir ligar, ok deu certo.

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Demos partida, pegou sem muito esforço. Acho que erramos feio nessa hora.. tinha que ter girado o motor antes, circular o óleo um pouco até dar pressão. Enfim, o carro ligou com um barulho horrível que parou após dois ou três segundos.. Eu já sabia que algo tinha ocorrido, mas enfim, motor ligado, marcha lenta ok.

O problema inicial era motor rajando, a polia do alternador dançava pra cima e para baixo, e toda acelerada a polia do vira vinha pra frente e para trás, sinais clássicos de folga no primeiro mancal. Nada de super preocupante, mas a retífica estava nitidamente próxima. Saímos para uma volta no quarteirão, pude notar algumas características de uns probleminhas pontuais, problemas na direção, carburação totalmente zuada, velocímetro não funcionava, luzes do painel não acendiam, chave dos faróis ficava meio folgada no painel, a seta não voltava sozinha depois de fazer curva.

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Agradeci o Allan pelo tempo cedido para me mostrar o carro e fomos embora prometendo dar-lhe uma resposta de sim ou não. No caminho, conversando com meu amigo Gabriel, ele me perguntou se eu fiquei animado com o carro, confesso que mesmo os detalhes me mostrando que o carro estava legal, eu disse “não sei, acho que não fiquei”. Já estava escaldado com a ultima bucha que peguei quando comprei a Variant e dessa vez não queria errar afinal de contas eu não teria a grana pra fazer o motor tão cedo, o que seria necessário sem demora. Ele me respondeu rindo: “que bom, por que eu fiquei bem animado pra você comprar”. Demos risada e fomos debatendo os prós e contras.

No dia seguinte, o dono me mandou uma mensagem na hora do almoço, “cara, como você veio primeiro e suas propostas são iguais, estou te dando preferência na compra. Apareceu um comprador que já queria levá-la, preciso saber se você vai ficar com ela ou não”. Gente, eu não sabia se acreditava ou não, mas ele não estava me pressionando a pagar mais, ele só queria saber “sim ou não”, matutei uns minutos, conversei com meus conselheiros e ajudantes, Bruno Pires e Gabriel, todo mundo achou que era um bom negócio.

Enfim, fechei a compra! Ela seria minha. Enfim realizando o sonho de ter um TL.

Nos próximos capítulos vocês ficarão sabendo como foram as primeiras voltas com o carro e as primeiras impressões!

Primeira foto dela, abastecendo pra levar pra casa.

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Brincadeira, não deixarei essa parte para depois. No próximo post eu quero começar a falar do motor. Motor que me deu certos sustos no começo, logo quando comecei a rodar com o carro.

Primeira coisa que foi necessária, limpeza dos carburadores, estavam extremamente sujos e mal regulados, fiz o possível para deixá-los em condições. Quando peguei o carro, ele estava terrível, mal andava direito, bastou limpar e regular, o carro ficou novo.

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Nos primeiros dias, percebi que em altas velocidades, as rodas balançavam tanto que eu era obrigado a abrir a mão no volante pra não soltar as obturações do dente. Era intenso. Dirigir na estrada era um perigo sem tamanho, olhando de fora literalmente parecia que as rodas iam sair voando, não duvido de que quase saíram de fato, por sorte nada ocorreu.

Diagnóstico já sabido, troca dos quatro pivôs da suspensão que seguram a manga de eixo. Coisa simples de fazer, porém demandava certo tempo e algumas ferramentas que eu não tinha, sem falar que iria custar algum dinheiro, coisa que também não estava fácil na época. Enfim, rodei com o carro assim por um tempo até dar uma aliviada nas contas. Lembro do dia que coloquei dois amigo dentro do carro e fui pra estrada ver a que velocidade que o carro chegava, aqui vale o comentário de que tinha mais óleo fora do motor do que dentro dele, vazava por todo lado, retentor do volante, tampa do cárter, tampa de válvulas, respiro. Não tinha erro, era olhar pra qualquer parte e haveria óleo. Enfim, como o motor batendo, vazando óleo, pivôs ruins, fomos para a estrada checar as condições reais.

Para a surpresa de todos, quase chegamos no VDO! Isso custou um pouco caro, alguma coisa entrou na ventoinha do motor (que é plano) e ficou batendo como se fosse uma pedra acertando as aletas do ventilador. Assustado, achei que o motor estivesse desmontando! Pedi para meu amigo Pedro abrir a tampa do motor (que fica dentro do carro) e ver o que se passava. Segundos depois do motor aberto, começa uma fumaceira dentro do carro. “Fogo! Tá pegando fogo!”

Não estava não… assustado com a fumaça, foi minha primeira conclusão, mas depois percebemos pelo cheiro que era mais um pouco de óleo vazando e caindo no escapamento.

Eu já sabia que o dia de encostar o carro estava próximo, os barulhos de batida, o óleo vazando, carro esquentando, tudo isso ia me dizendo pra parar com as pequenas voltas semanais que eu gostava, sempre com amigos. A gota d’água foi no dia em que, após uma chuva, fui aproveitar o asfalto molhado para curtir um pouco o carro, chamei dois amigos pra ir junto. Após poucos quilômetros, a luz do óleo começou a acender e apagar, até que resolvi parar e checar o nível. Zero óleo no cárter, consegui fazer o motor cuspir todo o óleo que tinha. A partir desse dia encostei o TL até desenhar meu pequeno projeto pro motor, juntar dinheiro e levar tudo pra retífica.

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Agora sim, essa parte da diversão deixo para o próximo post! Abraço a todos!

José Guilherme, Project Cars #269

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