Edição diária: 16/06/2019
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Project Cars Project Cars #305

Project Cars #305: hora de abrir o boxer e começar a preparação do meu Fusca 1961

Fala, pessoal! tudo bem com vocês? Estou aqui com mais um episódio da novela do meu velho Fusca. Quando me inscrevi no Project Cars, mencionei que as pessoas que gostam de mecânica iriam se interessar pela história do meu carro, mas se passaram dois posts e vocês leram tudo sem ficar nem com uma leve “francesinha de mecânico”… Então vos digo: a hora de sujar até a testa de graxa chegou!

Terminamos o último post com a notícia de que o motor estava mal e apesar de poder continuar usando, preferi enconstar o carro para que o estrago não fosse maior.

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Confesso que ter realizado outros pequenos serviços no carro não me encorajaram muito a encarar esse problema bem mais sério e intrusivo. Por curiosidade, fui pesquisar mais sobre o assunto e comecei por aqui: “como agir quando você precisa retificar seu motor Volkswagen“. Encontrei desde como proceder na hora de fazer uma retífica, até problemas mais inusitados, como o dia que um usuário foi trocar o óleo do fusca e uma bronzina saiu inteirinha junto à peneirinha.

Naquela mesma época um canal do YouTube iniciou uma série de vídeos mostrando a desmontagem, retífica e montagem completa do motor refrigerado a ar da VW. A série de vídeos me encorajou a fazer serviços mais complexos no meu carro da maneira que vinha fazendo desde sempre: sozinho na garagem de casa.

Estava quase decidido a inicar a bagunça quando um usuário do FFB me disse a frase que virou o tema deste período do carro e deu o título ao meu terceiro post do Project Cars: “Pior do que está não fica!”

Então…  let’s do this!

 

Retirando o motor do Fusca

Preferi seguir o passo-a-passo do Tonella, retirando todos os periféricos, pois alem de ser a primeira vez que faria algo assim, estava completamente sozinho e caso algo desse errado, não adiantaria gritar por socorro. Então, só restava fazer tudo com cuidado, capricho e atenção. Não adiantaria agir como um ogro (fuscas são vingativos, nunca aja como um ogro com ele), o jeito era passar WD40 nos parafusos, colocar uma boa música e curtir o momento.

 

Quando o motor saiu foi tanta emoção que esqueci de tirar fotos

 

Desmontagem

A princípio a intenção era reparar o cabeçote defeituoso (no momento que eu escrevi isso, uma voz ecoou na minha cabeça dizendo: Sabe de nada inocente!), mas quanto mais desmontava, mais problemas ia encontrando. Era para ter ficado mais chateado a cada peça que ia sendo removida do motor, so que ia ficando mais impressionado com o conjunto mecânico que equipava meu velho carro: tudo tão simples e tão complexo ao mesmo tempo, os sistemas preparados para funcionar mesmo em condições completamente adversas, soluções extramamente minimalistas que só poderiam ter vindo da mente de um gênio! Realmente, esses carrinhos são valentes! Fiquem com as fotos:

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Velas: modelos errados para o meu motor. As corretas são mais longas e essas ficavam escondidas dentro do buraco do cabeçote

Cabeçotes: Aqui comecei a me assustar

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Aqui percebi que o buraco era mais embaixo

Cilindros e pistões de 1 a 3

Meus amigos, isso é um pistão que retirei de um motor que ainda estava funcionando. Foi neste momento que comecei a sentir ódio do meu Ford Ka

Foram retirados cabeçotes, cilindros, pistões, radiador, bomba de óleo, etc. O próximo passo seria separar as duas metades da carcaça para ter acesso ao restante das peças e acabei encontrando muitas dificuldades para descobrir como fazer aquilo, já que o modo ensinado pelo vídeo não ajudou muita coisa. Para unir as duas metades é usado cola e isso acaba dificultando os menos experientes. Confesso que deu vontade de meter a talhadeira para abrir, então para evitar fazer besteira, saí para esfriar a cabeça e desvendar a charada de como abrir a carcaça sem danificá-la.

Depois de um tempo, observei alguns detalhes na construção dela que foram feitos exatamente para momentos como aqueles. Com duas chaves de fenda consegui separa-las facilmente! A cada etapa vencida estava ficando mais apaixonado pela mecânica refrigerada a ar. Seguem algumas fotos:

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Finalmente, consegui separá-las

Marcas de uma antiga desbielada. É incrível que este motor ainda estava funcionando

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Esse pedaço de junta de cortiça eu encontrei dentro do cárter

Uma das bronzinas retiradas do motor.

Pronto, desmontagem finalizada! Mas e agora? Mando para algum mecânico ou me arrisco a fazer tudo em casa? Ouvi várias vezes que a mecânica dos VW a ar é apaixonante e após a semana em que tirei o motor do carro e desmontei tudo, ficou aquela enorme “sensação de quero mais”. Decidi destinar o dinheiro que seria gasto com mão de obra para a compra das ferramentas que ainda não tinha. Tudo seria feito na garagem de casa com o máximo de capricho e sem gambiarras, pois estava cansado de ouvir: Fusca é assim mesmo, não precisa dessas “frescuras”! Torquímetro em Fusca? Isso não iria acontecer! Meu amigo ja havia sofrido nas mãos de pessoas assim por mais de 50 anos e dessa vez as coisas seriam diferentes.

A necessidade de aprender mais sobre a mecânica refrigerada a ar tornou-se enorme. Passeando pelo FFB, percebi que existiam muitas opiniões divergentes sobre o que pesquisava, como acontece em qualquer fórum de discussão. O ideal naquele momento era estudar mais para conseguir formar a minha própria opinião sobre o que seria feito no meu carro.

Comecei lendo os principais tópicos da área de mecânica e preparação de motores do FFB. Lá acabei conhecendo pessoas que realmente entendem muito do assunto (e chegam a nos impressionar com tamanha humildade) como Zotti, Chico Biela, Carretera, Noca_Leleu, Ricardo AP etc (saibam que vocês me ajudaram muito!). Acabei conhecendo fóruns gringos, me indicaram vários livros, manuais, apostilas, etc. Fiquei cerca de um ano mergulhado em muito material sério que envolvia preparação de refrigerados a ar. Sabe qual foi o resultado?

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Expectativa

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Realidade

Descobri que quanto mais aprendo, mais descobro que ainda tem muita coisa para aprender.

Pessoas modificam os velhos VW a muito tempo e sempre tem algum maluco inventando algo novo. Acabei conhecendo kits de preparação específicos para aircooleds (seriam os ancestrais dos “Stages”?). Um dos mais antigos que me vem a mente seriam os Kits fornecidos pela Okrasa:

Fusca com kit Okrasa

Existiam também coisas mais extremas (leia-se bem mais extremas). Entre todas, para mim se destacou o trabalho da JPM (Johannes Persson Motorsport). Vou deixar as imagens falarem por si:

Sim meus amigos, isso é um Fusca, 4 cilindros, refrigerado a ar girando 10.700 rpm. Não, a fumaça no fim não é o VTEC abrindo, é alguma coisa do sistema de refrigeração que não aguentou.

Não teria a menor possibilidade de fazer um motor completamente original. Ja gostava de carros preparados a muito tempo e essa seria a oportunidade perfeita para o meu “ritual de batismo”. Também não teria a menor possibilidade de construir um motor muito radical, pois alem de ser um marinheiro de primeira viagem, os meus recursos são escassos, como a maioria das pessoas.

Fiquei interessado em alguns trabalhos apresentados no FFB onde os aprimoramentos eram aplicados utlizando peças originais retrabalhadas. Sempre ouvi que precisaria de um investimento alto para extrair mais potência da mecânica original do fusca, mas acabei ficando curioso com o que me foi apresentado. Alem de ser uma saída para alguém que não possui uma grande quantia de dinheiro disponível, acaba resgatando um pouco da personalidade dos antigos preparadores de Brasília. Em uma entrevista, Alex Dias Ribeiro disse que o automobilismo é um esporte para endinheirados ou abusados e com o Fusca era a vez dos abusados. Então vamos lá, vamos montar um motor apimentado com o famoso “kit sucata”.

 

A retífica

Meus amigos, esse momento pode ajudar a adiantar o processo natural da calvice. O sujeito da retifica podia se chamar retifiqueiro para se juntar com funileiro, pedreiro e todos os outros “eiros” que tanto gostamos. Escolhi a retífica através de indicações de mecânicos de confiança que são habituados a trabalhar com esse tipo de carro em particular. Caso a retífica atenda ao que você espera, agarre-se a ela, devido a dificuldade de se encontrar bons profissionais com boa vontade de fazer serviços malucos como os nossos.

Enquanto a minha família estava assistindo algum jogo do Brasil na copa do mundo, eu estava realizando as medições do motor e comparando com o livro técnico da VW. Lembro de um momento que o jogo não estava indo bem e entrei na sala de TV super feliz dizendo: é STD de altura! Só meu pai entendeu, mas pra mim essa notícia foi melhor do que qualquer gol daquele jogo.

Medidas feitas, recomendações anotadas, chegou a hora de levar tudo para a retífica:

Botei tudo dentro do porta-malas do carro e no meu horário de almoço levei tudo para a retífica. Cometi a gafe de ir bem arrumado. Aqui vale uma dica: se você quer pechinchar, coloque uma roupa velha, vá em baixo do carro, pegue um pouco daquela graxa e passe nas mãos, nos braços e na testa, suje bem as unhas, pegue um pano velho sujo de óleo para tirar o excesso e o que não sair no pano, tente tirar na camiseta velha.

Tirei o motor do porta malas do carro, botei no balcão e comecei a falar o que era pra ser feito: Na carcaça quero que você tire as medidas e compare com as minhas, quero que você faça o teste de trincas e caso esteja ok, coloque jaqueta de aço nos mancais. O virabrequim está bom, sem marcas e a medidas que encontrei estão boas, então preciso que você confirme com o micrômetro e faça o polimento. Nos cabeçotes preciso de uma limpeza completa para ver se eles tem salvação. Caso tenha, troque o que for preciso neles, depois rebaixe eles em 3mm cada, beleza? Quando terminei, o rosto dele me lembrou essa foto:

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Essa expressão do sujeito diz que ele não tem a menor ideia do que está fazendo e que o serviço não vai ficar da maneira que foi combinada. Com aperto no coração, acabei concordando em fazer a retífica com eles.

Depois de algum tempo voltei à retífica para ver o resultado. Eles não faziam mais o serviço de jaqueta de aço, então os mancais acabaram passando somente por uma retífica comum. O virabrequim foi polido como havia pedido. Todas as medidas foram conferidas e aprovadas.

Pense na dificuldade em se encontrar a tal “Pulia de comando 0,50!”

Os cabeçotes acabaram virando dois grandes pesos de papel:

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Eles foram limpos, completamente revisados e rebaixados em 3mm, mas a retífica deixou passar um pequeno detalhe:

Fizeram o serviço em um cabeçote que não servia mais para nada. Ja o outro cabeçote ainda poderia ser utilizado, caso eles não tivessem rebaixado do jeito errado.

Como meus cabeçotes haviam sido perdidos, entrei em contato com um grande conhecido no meio dos vw refrigerados a ar e que sempre tem umas moscas brancas perdidas em sua garagem, o Carlos Zotti (dizem que caso você esteja precisando até de plutônio enriquecido, ele tem para fazer rolo). Encomendei um par de cabeçotes originais VW em ótimo estado e com um importante detalhe: todo o serviço de usinagem feito por ele. Seguem algumas fotos do que chegou em minha residência:

Nem parece que tinham sido usados. Rebaixados e usinados para receber molas duplas.

Após a retífica, estava pronto para dar início as modificações do motor. Apesar de ter pesquisado bastante e ja ter o rumo para onde iria caminhar, percebi que precisaria da supervisão de alguém com mais experiência para me ajudar a aparar as arestas do meu projeto. Esse é um ponto muito importante, pois poucos mecanicos e preparadores tem a maturidade de agir desta maneira:

Separei então todas as minhas dúvidas e fui conversar com o Zotti. Fiquei impressionado com a humildade, simplicidade e maturidade dele. Está sempre disposto a ajudar e tem toneladas de conhecimento prático e teórico. Poderia ficar despreocupado porque qualquer problema inusitado que acontecesse durante as modificações e montagem, ele estaria poderia me ajudar a tomar a decisão certa.

Com os principais componentes do motor a mão, ja estava preparado para dar início as modificações. Então, se este post teve graxa pra sujar até a testa, o próximo vai ter cavaco de alumínio pra todo lado!

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Por Gustavo Oliveira, Project Cars #305

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