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Project Cars Project Cars #331

Project Cars #331: a história do meu Volkswagen Gol G3 preparado para track days

Fala, pessoal! Meu nome é Márcio Murta, sou jornalista,  e já tive a oportunidade de dar as caras por aqui anteriormente. Há alguns anos escrevi uma matéria sobre track day, fiz uma breve avaliação do Gol GLR do Tiago Kfouri e, por pura coincidência, acompanhei o Juliano Barata na viagem de Nürburgring, em 2014. A última vez que topei com esse gearhead foi no curso de pilotagem esportiva do Centro Pilotagem Roberto Manzini, no início desse ano. Como a maioria por aqui, sou alucinado por carros desde quando aprendi a falar, e hoje venho compartilhar a história do projeto que comecei no fim de 2011: meu Gol para Track Day.

Tinha 24 anos quando dei o “start” nesse projeto. Na época, eu pesava 15 kg a menos e havia acabado de me mudar para um “micro-apertamento” de 18 m² (sério, eu fritava um ovo na cozinha e ia dormir com gema no meu travesseiro) ao lado da faculdade que cursava em SP. Foi um dos anos mais legais da minha vida, apesar do aperto financeiro. E parte dessa alegria se devia ao fato de um tio, muito orgulhoso de ver meu esforço para conquistar a independência, me deu um carro que “estava sobrando” na sua empresa. Um Gol G3 2002 branco 1.0 AT duas portas, com 227.000 km rodados. Surtei com o presente. Eram 65 cv e 9,1 kgfm de torque de pura emoção e independência!

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A primeira foto que tirei do Gol, no dia 11/11/11

Naquele período eu já sabia que jamais seria piloto, portanto, observava com entusiasmo para os (cada vez mais comuns) track days. E por motivos óbvios: o custo é mais acessível, era uma oportunidade para eu aprender e treinar sem compromisso – e quando houvesse grana -, e tudo isso sem me privar de usar o mesmo carro nas ruas quando fosse necessário.

Na época, eu ainda estava inspirado por uma frase que Amyr Klink escreveu no livro Paratii – Entre dois Polos. “Porque algum dia é preciso parar de sonhar, tirar os planos da gaveta e, de algum modo, começar”, disse o escritor enquanto explicava o projeto para construir seu veleiro Paratii. E ele estava certo. Eu também tinha que realizar meu sonho. Decidi que faria um Gol para track day (o chamei de “Gol TD”), e também criei uma micro mídia para falar sobre o passo a passo do projeto, o blog Alta RPM.

Estudei, pesquisei, e decidi que construiria um Gol 1.9 turbo legalizado, para andar tanto nas ruas quanto nas pistas. Para mim, uma das maiores graças de um carro de track day é ir rodando até um autódromo, passar o dia o moendo na pista, e voltar rodando para casa. Sou fã e gosto de todos os tipos de preparação, mas no meu projeto optei pela sobrealimentação por turbocompressor pelo custo-benefício. Com o caracol da alegria é possível ultrapassar a barreira dos 200 cv com facilidade, diluindo consideravelmente o “custo/cv”. Sem contar que montar um AP aspirado com 200 cv capaz de andar civilizadamente na rua é uma tarefa impossível. Turbo, portanto, era o caminho para esse projeto.

A meta: ter um carro capaz de virar 2 minutos em interlagos, mas, acima de tudo, que fosse divertido e instigante de guiar, com chão e freios “do além” – sempre levando em conta que estamos falando de um Gol. E que me permitisse aprender na prática sobre mecânica e preparação, é claro. O projeto estava de pé e estruturado, tudo o que eu precisava era executá-lo com boa dose de planejamento – e a substituir bife com arroz e suco por “minojo” e água no jantar. Tudo na vida é uma questão de prioridade, certo?

 

Primeiros passos

O plano era “simples”: usar o Gol quando precisasse, enquanto adquiria peças até chegar ao ponto de montá-lo de uma só vez. O primeiro passo foi passar dois fins de semana lavando e limpado o carro por completo, além de substituir óleo, água do radiador, correia dentada…

 


Enquanto planejava as finanças, cuidei de limpar e conhecer todos os cantos do Gol

Dois meses depois, comprei o primeiro item para o projeto: um motor AP 1.8. Por orientação na época, comprei um AP parcial zero km e passei meses pagando uma nota por ele – o primeiro de muitos erros que cometi nesse trajeto.

Comprar um APzão usado e com nota, conforme aprendi posteriormente, não apenas teria sido mais barato, como me pouparia de ter que procurar peças avulsas que tive que comprar durante o processo de montagem – como distribuidor, suporte de alternador, alternador, motor de arranque, volante do motor… Inclusive, com base na minha experiência, dou um conselho valioso para quem tem um Gol 1.0 e pretende utilizar um motor da linha AP no hatch: se você não vai fazer a substituição e montagem com suas próprias mãos, a melhor alternativa para poupar dinheiro, tempo e evitar dor de cabeça, é buscar um modelo já com a mecânica AP. Pode confiar.

Foto 9 - namorada dirigindo

Mas o projeto caminhava para frente e eu estava feliz! Usei o Gol para fazer meu TCC, ir do ponto A para o ponto B sem gastar muito dinheiro… Na sequência do motor, também adquiri um kit turbo completo e turbina da SPA turbo, importei as pinças de freio da Wilwood que queria utilizar, consegui um jogo de rodas S-215 da Scorro e as equipei com os (sensacionais) Toyo Proxes R888 195/55 R15… Tudo caminhava extremamente bem no projeto.

Foto 4 - bloco

Bloco do motor AP 1.8, ainda original

Foto 5 - cabeçote

Cabeçote do motor Ap 1.8, também 0 km

Foto 6 - Kit turbo SPA

Kit turbo da SPA Turbo, com coletor de escape pulsativo

Foto 7 - turbina SPA

Turbina pulsativa e com refluxo SPA Turbo 500 C Evolution com AR .48 na carcaça fria e .50 na carcaça quente

Foto 8 - Pinças de freio Wilwood

Para mim, um dos maiores destaques do Gol, além da suspensão e pneus, tinha que ser o sistema de freio. Para tanto, importei as pinças de freio Wilwood Forged Dynalite, que casam perfeitamente com os discos de Chevrolet Vectra – ventilados, com 24mm de espessura, 280 mm de diâmetro e furação 4×100 

Foto 9 - Detalhe dos pistoes das pinças

Detalhe dos pistões da pinça Wilwood. São quatro pistões por pinça

Apesar dos gastos exorbitantes, que nunca foram condizentes com meu salário, além de todo o aprendizado, esse projeto começou a me trazer um benefício que eu não havia contabilizado no início: os amigos do mundo automotivo. São pessoas que, assim como eu, abrem um inconsciente sorriso ao sentirem cheiro de combustível, pneu queimado, freios quentes. Amigos que se sentem em paz ao se reunirem com seus carros nos mais simples dos eventos, mesmo que seja na garagem de casa. Pessoas que sabem que seus automóveis têm alma e também são pontes para fazer laços que duram a vida. Que se ajudam, se mobilizam e tem identificação ímpar. E não tem dinheiro no mundo que pague por isso.

Conheci,  por exemplo, o Hot Lap Limeira, por exemplo, organizado pelo Fábio Machado. Foi a primeira oportunidade que tive de começar a colocar o pé na pista, desenvolver noções minimamente aprofundadas e a alimentar a paixão por custo acessível. Totalmente “cru” de noções de direção na pista, participei algumas vezes com o Golzinho do evento, sempre brigando pela liderança na categoria 1.0. No HLL, meu “mílsero” Golzinho começava a me ensinar e dar sobre noções de direção em baixa velocidade que só aprende na prática.  E ele também mostrou que ele precisava urgentemente de uma suspensão, especialmente com os grudentos R888….

Foto 10 - Gol no Hot Lap Limeira

De dentro do carro a situação não era tão dramática…

Foto 11 - vitória

Comemorando com o Golzinho uma vitória na categoria 1.0 do Hot Lap Limeira. Interior depenado e equipado com os Toyo R888 195/50 R15 nas rodas Scorro S-215

 

Tudo que vai…

Infelizmente, parece o ditado popular de que “tudo que vem fácil, vai fácil” é verdadeira, e a empresa da qual meu tio era sócio – e na qual o Gol ainda estava registrado -, quebrou. Todos os bens que estavam em seu nome ficaram com embargo judicial e da noite para o dia eu tinha um carro ilegal em mãos.

Guardei o Gol na garagem enquanto esperava pela resolução da situação que me era prometida. Mas, quando me toquei, “meu” Gol branco já estava há 11 meses parado na garagem de casa. Por visão de mundo, acredito que só há um jeito de fazer as coisas: o jeito certo. E eu não ficaria, não trafegaria, muito menos investiria, em um veículo que estava em situação ilegal.

Com o coração na mão, me sentindo um verdadeiro chorume – o lixo que é resultado da decomposição do lixo -, no dia 7 de julho de 2013, devolvi “meu” Gol branco. Ele foi para uma garagem aberta, e lá ele se encontra degradando com o tempo, até hoje.  Fiquei mal de verdade, estava numa situação péssima de grana, e amarguei a certeza de que teria que batalhar o triplo para conseguir retomar o projeto. Mas a vida seguia para frente, e o “mee mee mee” não ajudaria em nada.

No dia 25 de julho de 2014 saí de casa de manhã cedo e retornei no fim do dia com R$ 10.000 a menos na minha conta. Mas voltei dirigindo um Gol G3 2 portas 1.0 AT a álcool (incrííííveis 61 cv e 9,7 kgfm), com o DUT em meu nome. Só que dessa vez, ele era preto. O “Gol TD II” havia chegado para dar continuidade ao meu maior sonho. E a retomada dessa história, continuo no meu próximo post!

Foto 12- Gol TD II

Por trás da cara de pato, um cérebro com a legítima “tela azul do Windows”. Meu projeto estava voltando

Por Márcio Murta, Project Cars #331

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