A revista semanal dos entusiastas | jorn. resp. MTB 0088750/SP
FlatOut!
Image default
Project Cars Project Cars #400

Project Cars #400: hora de salvar um Tempra Turbo na Garagem Alfa

Aí tá tudo muito bom, tá tudo muito bem, mas realmente, mas realmente eu preferia que não aparecesse mais nada. Mas nunca é assim não é mesmo? Um elemento da mais alta periculosidade, um verdadeiro mal feitor das garagens alheias já devidamente super habitadas me ligou. O elemento, sabendo bem que eu tenho uma certa queda por carros duas-portas me ofereceu um Tempra Turbo original, duas portas, funcionando direitinho. O carro tinha que ser transferido de propriedade com alguma urgência e o amigo se lembrou mim. Isso mesmo: o ogro fanfarrão. Logo pensei: me lasquei todo. De novo.

Este elemento por acaso tem um outro certo Brava, um dos três com motor 2.4. Acho que vocês já leram sobre ele aqui no FlatOut. Cuidado com este elemento. Ele nem se importou em fazer um bom carnezinho para fecharmos a conta da venda. Assim deste jeito, nem tive como ter nenhuma desculpa por mais esfarrapada que fosse para evitar a aquisição desta jabuticaba, coisa que só existe no Brasil mesmo, Tempra duas-portas — e ainda por cima um Tempra que não é Tempra mas um Regata disfarçado. É meio como uma Coca-Cola que é Pepsi — com um motor turbo mas com apenas oito válvulas e não as 16 que deveríamos ter se fosse idêntico ao dos Lancia e Alfa Q4.

Mas tá valendo, é exclusivo, é só do Brasil e isso por sí só já justifica a ação de salvar o carrinho de futuro incerto e duvidoso. Tenta explicar lá fora, pros gringos, que aqui no Brasil, logo aqui temos algo que a Fiat fez pro nosso mercado, que é exótico e que eles não tem lá.

100_5666m

Catei a marmota. Transferi a marmota. Levei a marmota pra oficina e começou mais uma guerra, pelo menos simples e fácil. Ao menos era o que parecia no começo.

100_5667

De cara precisava fazer funcionar direito. Tarefa das mais ingratas. O debímetro estava errado para o  carro e estava estranho. As rodas eram de ferro, porque as de liga leve originais tinham sumido. Nas fotos as rodas que estão nele já foram trocadas. Essas que aparecem são as que vieram no 155 Super rosso, que muito rapidamente foram trocadas pelas Speedline originais. Os bancos até estavam ok, muito bons e sem rasgos ou desbotados, mas forros de portas ruins, faltavam vedações superiores, pneus errados ainda que bem usáveis ainda e vamos nessa.

Pintura queimada, alguns pequenos amassados e uma vez funcionando precariamente, foi pro meu amigo Baiano. Que o acolheu de braços abertos e deu-lhe um banho rápido e competente de tinta, deixando a aparência feiosa dele para trás. O spoiler traseiro estava bem ruim e os laterais inexistentes, assim, do mesmo modo que no 155 cinza, faltam essas peças para serem adquiridas dentro do possível e quando aparecerem também com preço pagável. A tampa do porta-malas foi repintada e ficou correta de cor, mas tem um ligeiro empeno que não foi possível acertar e por isso em breve será substituída por outra em melhor estado. Como ainda tem a pendência de outro aerofólio, vamos administrando isso parcimoniosamente. E se aparecer uma lisa, sem os furos do aerofólio está valendo, já que como não tem um aerofólio decente, vamos ficando sem ele pelo menos por enquanto.

Neste meio tempo a vontade de ter um 155 V6 estava forte e eu sabia que sem uma mecânica boa nunca iria fazer um que prestasse.  Mesmo que isso fosse um plano remoto para um futuro longínquo e distante, tipo não sei quando, mas apenas que algum dia, qualquer dia vou fazer.

Aí, de novo alguém me falou que tinha um 155 em Taguatinga (era mentira, não era 155 droga nenhuma, era um 164) mas eu fui ver assim mesmo. Sabia que tinha um Tempra Turbo Stile quatro-portas em um leilão do Detran/DF e aproveitei e fui procurar por tudo no setor H norte. Motivos mais que necessários e suficientes para justificar uma ida ao setor H norte: tinha o 155 preto precisando de vários pequenos detalhes e o Tempra idem, então vamos nessa! Claro que perdi a viagem por estes dois motivos, mas… mas nunca se perde tempo indo ao H norte.

Primeiro fui conversar com um amigo que vende peças de picapes que servem nos V8, um cara bem legal que atende por Zé do Norte e ele me disse ter um Alfa baixado, completo que queria vender por qualquer grana. Baratinho mesmo. Opa, me lasquei de novo. Num rola nem um cineminha antes, eu chego, vagabundo já vem logo com pé nos peitos dando uma voadora: “Ô, maluco pega aí, ó, baratinho, na boa vai, quebra o galho pô…”. Estou ferrado mesmo. Mas era um 164 3.0 12V, lindo, perfeito, completo, fácil de manter com correias simples, sem precisar de muita guerra para por no ponto.

Como o 164 usa debímetro também e em hot rod com injeção aftermarket se põe o velho MAP que é muito mais simples e fácil de manter e acertar, e eu no ato me lembrei do Tempra com debímetro (MAF) ruim. Aí, como num passe de magica o nem desmontado ainda e recém chegado 164 já me resolveu este problema numa boa. E então sem nem pestanejar chamei meu amigo Cicero com seu poderoso guincho e levei ele pra oficina. Desmontamos toda a mecânica, reboquei (dá-lhe Cicero!) a carroceria montada e completa pro meu cafofo e deixei ele lá quieto. Vai que… né? Ou seja, você atira (ou atiram por você) no que se vê e se acerta no que nem se sabe que existe. Assim, com essa resolvi um problema caro e difícil do tempra e ainda sobrou o V6 pro futuro 155 Busso! Que vai existir em algum ponto no meu futuro automotivo, tenho certeza disso, mas não sei quando, nem quanto e muito menos ainda como.

E na verdade se for procurar nos Mercados Livres da vida, o que pedem num debímetro de Tempra Turbo é apenas a metade do que eu paguei no 164. E então fica cada vez mais óbvio que essa de ficar reclamando que é difícil mexer em certos carros é balela, e mais ainda que as coisas estão difíceis a ponto de impossibilitar qualquer brincadeira. Quando se quer mesmo, sempre existe um jeito. O pior que pode acontecer com essa forma de adquirir peças em ferro-velho comprando carros inteiros devidamente baixados é que a gente acaba com alguns carros meio inúteis parados na garagem, mas fazer o que né? Depois de depenar tudo a gente pode vender de volta no ferro-velho pelo menos como sucata, metal para reciclagem.

100_5767

 

100_5780

Mas vamos voltar ao Tempra. Claro que tinham muitas outras pendências. Conversando na internet com outros amigos num bom grupo de discussão, me informaram de um pessoal do interior de são Paulo que reformavam e vendiam rodas obsoletas. Bingo, eles tinham quatro rodas originais de Tempra Turbo duas-portas e ainda conseguiram um quinto aro para fazer o estepe.

IMG_20160303_141521_HDR

Assim, meio que do nada e sem muita dificuldade, o Tempra estava funcionando, com as rodas originais, pneus bons que comprei logo depois das rodas, com uma pintura bem bacana em cima, com as borrachas de porta que catei de um Tipo duas-portas (que servem direitinho), com o debímetro do Alfa 164 baixado, com as portas consertadas que um pessoal que tem uma loja de vidros me ajudou a arrumar e boa! N

a ordem do dia temos um jogo de bicos, lanternas traseiras eram problemas mas arranjei algumas por aqui e o plano é mais ali na frente restaurar elas todas e deixar tudo correto. Para por tudo numa perspectiva financeira correta, primeiro R$ 5.000 da aquisição, depois foram mais R$ 2.500 na pintura, mais R$ 2.000 em uma revisão de mecânica bem completa, com buchas, homocinéticas, alinhamento, batentes dos amortecedores e mais uma penca de coisinhas que deixaram ele um carro muito mais legal de dirigir e bem mais confiável. R$ 800 nas rodas, mais R$ 1.200 em cinco pneus novos, e boa, já passamos de 10 pilas.

Como estava sem bicos corretos e não arranjei ainda os definitivos, que são os mesmos dos marea turbo, ele fica meio parado para não estragar o motor que está até muito bom, e tudo é feito a seu tempo e sem forçar muito a barra. O carro no fim se mostrou uma boa compra, uma surpresa, algo inesperado. A tarefa de catar o que falta, sem pressa, sem atropelo é que traz graça, diversão e ainda salva uns bons trocados na conta final. Aqui sou forçado também a agradecer ao meu amigo Gustavo que me ligou para enfiar este tempra na minha garagem!

Claro, analisando friamente, como uma pessoa normal faria é apenas mais uma roubada, mais um poço sem fundo para gastar grana, mas legal pacas! Mas como eu não sou uma pessoa normal etc e tal, curti um monte , e deixo um entusiasmado valeu meu camarada, muito obrigado! Esta foi mais uma aquisição e tanto, que me alegrou e tem me divertido. Vamos nessa. Se pintar mais um bagulho doido desses, estou dentro!

As fotos abaixo mostram um pouco dos resultados obtidos até agora. E mesmo com a falta de alguns frisos e assinaturas na carroceria, e sem os soilers laterais, me parece bem legal, fico contente de ter encarado o desafio e ter chegado neste ponto. O serviço de pintura, as rodas e os pneus novos deixaram o carro com uma aparência muito mais legal que a apresentada no dia da compra.

DSC_0008 DSC_0012 DSC_0013

Mas para ninguém ficar achando que é moleza, no interior o painel de instrumentos (ou os restos mortais dele) ainda precisam de muita atenção.

DSC_0015

Mas não pense que acabou ou paramos por aqui. Nada disso! Em breve, muito em breve teremos o refazimento do motor do 155 Elegance grigio titânio, e mais bagunça nos recém adquiridos 145 1.8, ainda mais coisas no 155 preto do colega do banco, os detalhes que faltam de acabamento e rodas originais e mais marmotas do Tempra Turbo. E dos demais também, na medida em que Alfa é assim mesmo, quando você menos espera, algo acontece e muda o jogo todo! E que bom, se fosse diferente seria só mais um carro velho, rabugento e sem graça. Até a próxima fase.

Por Alexandre Garcia, Project Cars #400

0pcdisclaimer2

Matérias relacionadas

Ladrão de corações: o Peugeot 206 “GTi/RC” de Wellington Lemes

Juliano Barata

Project Cars #502: os primeiros testes e acertos do novo Puma P052

Leonardo Contesini

Project Cars #348: começando a restaurar a Kombi “Food Truck”

Leonardo Contesini
error: Direitos autorais reservados