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Project Cars Project Cars #431

Project Cars #431: a funilaria, pintura e os cuidados com o visual do Del Rey 2.0

Saudações, galera! Como relatei no primeiro post, minha rotina está uma correria danada. Peço desculpas pela demora pra mandar essa segunda parte, mas agora vamos lá!

Da última vez que escrevi aqui, o Hell Rey estava na oficina, pra fazer um “banho caprichado” segundo a definição do Márcio. Esse serviço consiste em pintura externa e dos vãos de portas, porta malas e capô, além de pequenas correções de funilaria. Os acabamentos e interior do carro foram desmontados (frisos, maçanetas, retrovisores, faróis, lanternas, emblemas) mas a mecânica permaneceu no lugar. Pra variar, ele pediu dois meses pra fazer o carro, mas acabou ficando lá quase um ano. Nesse caso eu estava tranquilo, pois nem tinha garagem pra guardá-lo. O carro ficou até com capa enquanto o Márcio tomava coragem pra mexer nele, então não iria se estragar. Também desmontei o interior todo, pra evitar problemas e facilitar o trabalho dele.

Nesse meio tempo, como sempre faço, fui “colecionando” as peças necessárias para o remonte dele. A ideia é fazer o carro bem feito. Sempre que possível, comprei peças originais Ford ou quando não deu, réplicas de primeira linha. Garimpando por aí, no MercadoLivre, grupos do Facebook e Whatsapp, achei bastante coisas interessantes! Incrível como hoje é mais fácil achar e comprar peças no Brasil e no mundo todo hoje em dia. Na época que tivemos Del Rey em casa, o carro era muito mais recente (o Del Rey 88 meu pai comprou em 93 e o Ghia 90 foi comprado em 95, ou seja, eram carros de cinco anos de uso) mas mesmo assim era bem mais difícil conseguir as coisas. Tinha que ligar nas lojas, contar com a boa vontade do vendedor procurar no estoque, pegar ônibus, ir até a loja. Bem diferente!

Comprei o jogo de emblemas do “Del Rey 1.8 Ghia”, que já vinha com um par de emblemas Ford, um pra grade dianteira e outro pra tampa do porta malas. Comprei também os brasões “Ghia” pras laterais do carro. Pra evitar colar no lugar errado, aproveitei que o paralama direito ainda ostentava a pintura e brasão originais (de aço cromado, ao invés das réplicas de plástico) tirei as medidas de distância do borrachão lateral e até a porta. Assim não teria erro na remontagem.

 

Por falar em detalhes, ainda tinha guardados dois itens muito interessantes do Del Rey vermelho do meu pai (no qual infelizmente dei perda total): O brake light original do carro, item super raro e “novidade” na época, pois o Del Rey foi o primeiro carro nacional a sair de fábrica com esse item. Foi um carro pioneiro em algumas coisas, como também o primeiro carro brasileiro a sair de fábrica com vidros de acionamento elétrico, mas isso lá em 1981.

Também guardei o Rádio Toca Fitas “ETR”, com display digital, outra novidade na época e raridade nos Del Rey.

Esse rádio só existia como opcional nos modelos GLX e Ghia, ainda assim bem raro (lembrem-se que procurei em 1995 um Ghia 90 pra comprar e a maioria deles tinha um toca fitas comum). Já me disseram algumas vezes e acredito que, em razão do valor, os Ford completos, com todos os opcionais, eram sempre de diretoria. Faz sentido por que o vermelho era e esse dourado também é completo e ambos foram da Autolatina do Brasil S.A. nos primeiros 2 anos. De qualquer forma, sorte minha porque quando o vermelho foi acidentado, a Pampa (que era zero na época) herdou o botão do farol de neblina e a antena elétrica dele(não original de fábrica), que estão em perfeito funcionamento na minha Pampa até hoje.

Voltando ao Hell Rey, aproveitei nesse meio tempo também pra dar um trato em algumas peças de acabamento dele. Pude verificar que a maioria delas estava em muito bom estado, apenas encardidas.

Aqui aproveito pra chamar a atenção para a beleza do tecido “navalhado” do teto e para sóis do Del Rey Ghia. A partir de 1989, ele passou a vir com esse belo tecido no teto, que agora era pré moldado, uma espécie de molde de isopor, onde o tecido ia colado e esse fixado por presilhas no teto do carro, como nos veículos mais modernos. Nos carros mais antigos, o tecido era suspenso por um sistema de varetas e preso nas pontas.

Achei no facebook um par de polainas (aquelas ponteiras do parachoque) originais Ford, de estoque antigo. Comprei por um bom preço, já que faltavam as presilhas dos frisos de inox, coisa que eu também tinha guardado em casa. Quem guarda, tem….

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Mandei fazer um jogo de tapetes personalizado, com a inscrição “Del Rey 2.0i Ghia”. Talvez eu tenha me empolgado demais, mas curti bastante o resultado!

O tempo passou e finalmente em outubro de 2016 (deixei o carro em fevereiro) o Marcio pegou firme no Del Rey e disse que me entregaria até o fim do ano.

Em dezembro o carro estava praticamente pronto para a pintura. Descobri a cor original dele, o Dourado Escócia Metálico. Na hora até parecia ser a cor errada, de tanto que a pintura original estava queimada e escurecida. Mas no final, analisando algumas partes que foram poupadas do sol nos últimos 27 anos, concluí que era essa a cor mesmo.

Comecei a ficar ansioso, estava chegando a parte da pintura, que revelaria como estava a lataria do carro. Qualquer imperfeição iria aparecer nesse momento e definiria a qualidade final da restauração. Afinal, quem já restaurou ou observou um carro ser restaurado, sabe que não adianta de nada uma pintura espetacular num carro todo torto. Então, em 22/12 quase Natal, às 10 noite, o Marcio me mandou as imagens abaixo.

Fiquei muito feliz e empolgado com o projeto. Pela primeira vez, tive certeza de ter feito a coisa certa ao comprar o Hell Rey. Afinal não estava jogando dinheiro fora, o carro tinha grandes chances de ficar muito bom! Até melhor que as minhas expectativas!

Na última semana de dezembro, fui lá com meu irmão/sócio e tiramos carpete e bancos dianteiros que ainda estavam no carro. Levamos pro apartamento do meu pai e limpamos os bancos. O carpete um amigo lavou com uma Wap. Deixou de molho no sabão em pó e no dia seguinte bateu a Wap de novo…saiu um caldo escuro e ele refez o processo até sair limpo. Os bancos não estavam diferentes. Porém, tenho medo de usar água neles, de desmontar as capas e elas encolherem, esse tipo de coisa. Então comprei espuma de limpeza a seco, a famosa Tuff Stuff da STP e eu e meu irmão limpamos com ela mesmo. Os panos inicialmente brancos, iam saindo pretos…Mas os bancos ficaram impecáveis! Aí se vê a qualidade dos itens empregados nesse carro. A forração estava em ótimo estado, somente encardida mesmo.

Então, no final de Janeiro de 2017, fui buscar o carro na funilaria. Levei o básico pra ele poder rodar, banco do motorista, lanternas traseiras, piscas, faróis e os dois retrovisores. Acabei descobrindo, atrás do farol direito, essa plaqueta com as especificações originais de fábrica do carro…Muito legal, mais uma informação que eu não sabia da existência!

Montei tudo no lugar e vim embora rodando. A mecânica está tão bem acertada que foi só colocar bateria e ele pegou, mesmo com álcool no tanque de quase 1 ano atrás…E vim embora! No caminho a seta esquerda quase caiu e os faróis que eu apertei com a mão também! Chegando em casa, não pude deixar de lembrar daquele filme HellRaiser – Renascido do Inferno, sobre um cara que morre, vai pro inferno e volta….Como aconteceu com o Hell Rey, que também praticamente morreu e agora estava ressuscitando. A aparência dele também era assustadora.. Coincidências.

E aí começou a montagem. Já no primeiro dia com ele, coloquei os borrachões laterais com frisos, brasões Ghia na posição correta, aros de farol e friso do porta malas, além dos emblemas da tampa traseira. Queria já ter um “preview” de aparência de “Del Rey Ghia” dele e acabar com aquela aparência de Corcelzão 4 portas desmontado.

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Como eu disse, não queria nada meia boca. Montar esse carro é um sonho de 20 anos atrás. Comprei uma bateria de 60Ah marca Heliar. Os pneus estavam em petição de miséria, sendo que um deles era na medida 165/70 R14 (os originais são 195/60)!!! Essa medida original, 195/60 14, está fora de produção nos carros nacionais atuais, então anda meio difícil de achar. Até encontrei de marcas asiáticas, mas por uma questão estética e de “preconceito” mesmo, pois sei que existem muitos pneus coreanos e chineses bons, não acho que combina com um Del Rey ostentar pneus LingLong, ou Kumho. Não orna, entendem? Então achei no Mercado Livre um jogo de borrachudos novos importados, de um lote apreendido pela Receita Federal, marca Pirelli, modelo P5000. Nunca tinha visto esse modelo, mas gostei bastante, principalmente por ser um pneu de primeira linha. O único problema é que eles estavam em Pernambuco…Mas após uma negociação com o vendedor, consegui trazê-los por um preço superior aos chineses, mas nada absurdo. E realmente mudaram a cara do carro! Gostei do desenho, que lembra os Goodyear Eagle NCT60 originais de fábrica.

E assim fui montando com peças novas e/ou originais sempre que possível, consegui um par de lanternas traseiras Arteb, comprei maçanetas das portas novas, pois as antigas estavam com aparência meio desgastada, suportes das polainas e parafusos de inox em tudo que ficaria sujeito a intempéries. Assim evitaria a ferrugem e daria uma aparência melhor pra tudo. Mesmo onde eles não aparecem, é bom saber que estão ali e não vão enferrujar.

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No dia 21/03/2017, teve a “Noite dos Anos 80” no Sambódromo de SP e consegui a honra e felicidade de participar com ele, que, mesmo meio desmontado, não fez feio perto dos outros Del Rey impecáveis que estavam no evento, muito menos frente aos outros carros presentes. Ele ganhou um banho de última hora e foi!

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Fui até filmado pela organização do encontro entrando na pista e postaram no Instagram e Facebook dos organizadores. Descobri porque um amigo me mandou o link. É super gratificante ver seu trabalho e dedicação serem reconhecidos assim.

E a luta continua! Os forros de porta estão com o amigo Mauricio Santoro, que se revelou um restaurador de mão cheia, depois que fez a grade dianteira do meu Maverick. Agora chegou a vez de atacar a elétrica e estética do cofre do motor, que ainda estão precisando de um banho de loja. Tudo funciona, mas cheio de emendas e gambiarras.

Mas isso é assunto pro próximo post, onde vou falar sobre isso e a mecânica e elétrica dele. O que foi feito no motor e na injeção eletrônica, que tornam esse carro não só um Del Rey Ghia quatro portas, completo com ar condicionado, top de linha da Ford para 1990, que renasceu do inferno. Não só um carro raro e de quase 30 anos, mas aperfeiçoado, para ter o desempenho bem atual, que não faz feio frente a nenhum carro moderno de quatro cilindros. Espero também conseguir documentar ele em ação pro próximo post, pois um amigo que trabalha com filmagens, apaixonado por carros, se ofereceu pra fazer uns vídeos e fotos dele. Até a próxima, FlatOuters!

Por Leo di Salvio, Project Cars #431

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