Project Cars #451: como acabei salvando um Audi 80 V6

Vinicius De Boni 21 agosto, 2017 0
Project Cars #451: como acabei salvando um Audi 80 V6

Olá, pessoal! Eu sou Vinicius De Boni. Alguns já me conhecem pelos comentários sobre importados exóticos, aquisições e experiências de dalily-drivers nada usuais. Trabalho como representante comercial e mecânico amador/consultor nas horas vagas. Sim um representante que usou algumas drogas pesadas no dia-a-dia, sem dó nem piedade, como Alfas, Marea Turbo, BMW V8, Belina 74 e até um Landau placa preta, este, claro, quando o nosso querido governo ainda permitia gasolina abaixo dos R$ 2.50.

Comecei a gostar de carros quando era pequeno ainda, desmontava e remontava meus carros de coleção, depois passei a desmontar os carros do meu pai, sob os protestos dele. Logo em seguida meu coroa me arrumou um trabalho na finada CAUTOL, em Canoas, e ali, a coisa desandou mesmo, peguei gosto pela graxa e nunca mais larguei. Algumas das minhas ricas lasanhas que tive o prazer em guiar, seguem nas fotos abaixo. Tem de Fusca 1200 até Belina 74.

Bom, vamos à parte que importa, minha experiência nada agradável, até o momento, com uma aquisição na melhor modalidade “joselito-confia”, um Audi A80, comprado por fotos, conversa de Whatsapp,  aquele típico caso do “Ah, mas pelo valor do carro tal, compro uma Audi/BMW V8 etc, e sobra dinheiro pra manutenção”. Errado, amiguinho: começou errado.

Era verão de 2017, estava eu na praia, tomando uma gelada, recém havia vendido meu saudoso Escort XR3 1995, lindo, preto, todo revisado por mim, cujas fotos do antes e depois compartilho aqui. Arrumei esse carro no braço, solito, na garagem do prédio, infernizando vizinhos e fazendo  legítima a expressão “do it yourself.”

Esse carro, o Escort, foi uma experiência curiosa, e muito bacana por sinal. Comprei por fotos também, nenhuma indicação, vi o carro anunciado, liguei pro dono, bati um bom papo com o cara, que me disse que precisava vender por ocasião do casamento, que era um carro bem inteiro, porém ruim de pintura. Acabamentos estavam acima da média, e me empolguei com vídeos e fotos do mesmo. Olho clínico que às vezes nos engana, dessa vez não enganou.

Paguei o carro, organizei frete de SP para o RS, e mandei vir a lasanha. Confesso que sempre fiz isso, e nunca tive muito medo, quando se tem um pouco de noção, e não se bota emoção na compra, tudo fica mais fácil, negocia-se facilmente, chora-se desconto, supõe-se que vai dar canseira pra deixar no jeito esperado o carro, e tudo segue normalmente. Então, sete dias depois, chegou em Gravataí na transportadora que sempre faço os fretes, o tal do XR3 preto ébano.

Carro da diretoria da Ford do Brasil, me empolgou a primeira vista, apesar do cheiro desgraçado de naftalina dentro, que minha esposa até hoje tira sarro, que parecia um roupeiro de vó, por causa do budum que habitava aquele carro. Carrinho fantástico, tão rápido chegou, tão rápido vendi. Confesso que me arrependo pra caramba ter vendido, devido ao stress da aquisição duvidosa posterior.

Voltamos a praia. Escort vendido, dinheirinho recebido, contas feitas, vamos pra OLX. O que comprar?  O que vou pegar? Sempre tive uma paixão arrebatadora por Alfa Romeo. Confesso que estive “nos finalmentes” pra comprar mais uma 164. Defeitos já conheço, sei os caminhos pra resolver, consumo não é um susto, manutenção muita coisa conheço, estava lá, eu, olhando OLX atrás de 164 até 12.000. Aí vocês pensam: “Pô, Alfa de 12 mil, vai ser duro. Talvez sim, talvez não.  Observando pelo mercado, não está se vendendo nada, os preços estão caindo. Então, numa conta rápida de padeiro, um carro de 15 ou 16, pode sair por 12. Sendo Alfa, que só uns doentes que nem eu compram, então a chance de um negócio bom é maior.

Olhei, virei, chamei vendedores no chat, pedi fotos, pedi detalhes, quase fechei numa 91/91 muito interessante, que me chamou bastante a atenção, mas infelizmente, e digo infelizmente mesmo, por que estava encantado na macchinna, o dono enrolou e não deu mais notícias. Confesso que fiquei decepcionado. Já estava ouvindo as piadinhas da turma, com a minha doideira de comprar mais uma 164, e que iria viver andando de guincho. Mentira, nunca andei de guincho com as Alfas, ando a pé mais com a Audi, por enquanto. (Até o Google Maps comprova o fato).

A minha esposa que adorou a desistência, e como típica germânica, sugeriu comprar algo racional. Um Gol, um Santana, um carro de gente normal. Falei: então tá, vou comprar algo de manutenção barata.

Voltei pra OLX. E minhas férias correndo, eu sem carro, e com visitas de clientes agendadas para dali a 15 dias. Eis que encontro, no OLX da vida, um exemplar que até então não havia me despertado uma atração, um Audi 80. Fui tomado por uma bestial atração por aquele exemplar com postura bandida, aparentemente pequeno, de acabamento tipicamente alemão, e com uma suposta facilidade de peças, já que os Audi-Lovers acham que tudo pode ser compatível com a linha VAG. Óbvio que pode, mas não os “gambitech” que ele tinha tão bem maquiados por trás daquela carinha sensual, que viraram gambiarras devido a dificuldade em arrumar essas porcarias aqui, o que claro, somente saberia depois de abrir a melancia.

Como achei que ela estivesse (2)

Fui eu, ler fóruns, baixar programas de decodificação de peças, pesquisar peças em Mercado Livre (pacote básico de manutenção – filtros, correias, bieletas, etc – coisas “simples” que poderiam estragar, já que aparentava ser um puta negócio. Pesquisa dali, pesquisa daqui, faz conta, conversa com esposa, desconfiada que não poderia ser a barbada que eu achava, mas aquele Q alemão seduziu uma típica germânica, e lá fui eu, negociar o tal Audi, avô do Passat, cujas buchas de suspensão eram as mesmas do Santana e que sensores eram compatíveis com a maioria dos veículos VW. Tudo belezinha né? Errado mais uma vez, jovem.

Como achei que ela estivesse (3)

Confesso que me chamou muito a atenção a quantidade de Audi 80 no ferro-velho, mas quando o maldito mosquito da cegueira gearhead pica, tudo vira uma lambança generalizada no cérebro.  Vamos lá, chamei o dono dele no whats, pedi fotos. Fotos do carro impecavelmente cuidado, histórico de donos, kit relíquia completo (chaves cópia, manuais, documentos de licenciamento desde zero, blá blá bla), tudo original, exceto um jogo horrível de orbitais no carro. Eu realmente deveria ter desconfiado, mas, mais uma vez, não dei a devida importância no contexto, recebi um vídeo do chucrute acelerando, e esqueci-me de todos detalhes que haviam me chamado a atenção.

Fiquei conversando com o vendedor por dias, perguntando detalhes, e realmente, na conversa dele, o carro era absurdamente fantástico, e estava sendo liquidado por um valor muito abaixo do mercado, pois o rapaz queria comprar um BMW V8. Dei toda força do mundo pra compra, até dei dicas do que ver, analisar e coisas do gênero. Conversamos sobre uma pequena falha na caixa de câmbio, que não era tão pequena assim, e que as rodas originais iriam junto do carro. O carro era turn-key, pegar a chave e andar, e o dono me transpareceu uma paixonite aguda pelo carro,o que me deixou mais tranqüilo ao fazer um negócio arriscado, num importado literalmente exótico.

Achei que havia feito um amigo. Errado mais uma vez.

Depois de quase duas semanas negociando o sauerkraut, bati o martelo, por um preço justo caso fosse um casamento com a Claudia Schiffer e não com a Angela Merkel. Paguei o carro, integralmente, organizei com a minha transportadora de confiança e o carro iria embarcar via baldeação em Juiz de Fora/MG rumo a Porto Alegre/RS. No escuro, três dias para carregar, e mais sete dias para chegar até o RS.

Como achei que ela estivesse (1)

Confesso que fiquei mais apreensivo que o normal, já que o frete foi mais complicado que o normal, não existiam formas de coletar em MG sem elevar o custo a preços absurdos. A minha dica, aqui,é simplesmente o mais trivial do mundo. Evite comprar carro muito fora da rota de sua transportadora. Sério pessoal, o transtorno é absurdo, o custo do frete sobre muito mais do que o normal e a chance do seu carro ficar aguardando coleta no pátio, por dias a fio, é enorme. Em valores, se eu fizesse a coleta do carro em Duque de Caxias, algo como 200km da cidade de origem do carro, pagaria aproximadamente R$ 1.000 até o RS. Por R$ 1.900, fechei o frete com coleta em Juiz de Fora, ou seja, quase o dobro por 200km. Dica do dia: consultem seu freteiro de confiança antes de comprar um carro nos confins do Judas. E desistam quando o dono do carro se negar a rodar 200km com o carro, por uma desculpa de logística. Algo de muito errado não está certo.

Seguem fotos do dia que ela embarcou. Tá, é bonita a merenda mesmo, mas essas rodas, por favor!

Aguardei ansiosamente por longos 10 dias. Acabei dando um jeito com carro emprestado, e fui trabalhar como deu, estava estourando minhas visitas e não podia deixar de cumprir a agenda. Dia sim, dia não, ligava para o Fernando, meu contato na transportadora. E ai, chegou? Não cara, ta em SP, aguardando carga. Passa mais dois dias: E ai, chegou? Não cara, ta a caminho, sai hoje de madrugada de lá. Numa quinta-feira perto das 11 horas, recebo a ligação:

– De Boni, tudo bem? Aqui é o Fernando, chegou teu carro, ok?

-Bah cara, afudeeee! Show de bola, tudo certo, o carro chegou certinho?

-Bah De Boni, vem aí que a gente conversa. Ela quase não subiu a cegonha em SP, e a chave não ta saindo do contato.

Silêncio na linha. Segundos de pavor.

– Tá, meu, mas as peças vieram junto?

– Bah tchê, não veio nada do que tu falaste, rodas não vieram nela, e tem uma pasta cheia de papel atrás do banco.

– Tá, to indo pra aí. Chego às 13 h.

Peguei meu fiel escudeiro, e amigo de infância, Rafael Inácio, e fomos direto a Gravataí. Conversa vai, conversa vem, meu amigo, nada arriado, solta “Porra, meu! E essa merda não é ferrada de manter?” Ignorei, achava ainda, que era tudo tranqüilo de fazer. Cheguei na Flex Transportes, meu amigo Fernando vem e pergunta:

– Cara, o que tu quer fazer com esse carro? Tentamos manobrar ela deu um trabalhão, não tem força, o ar não gela, capô não segura aberto e tá uma imundície por dentro! O cara andava na roça com ela?

Olhei pra Audi, atirada num canto do pátio, vidros abertos, e senti que havia sentado na graxa mesmo. Veio a triste constatação daquilo que eu começava a perceber:  Fui Iludido, Agora é Tarde. E não me refiro a fabricante italiana.

Eu, quando comprei a A80

Meu amigo se mijava rindo, e eu, ainda com uma empolgação de que não soubessem usar/manusear ao carro, fui em direção ao panzer. Liguei, lenta oscilando, muito pra ser sincero. Pensei” muito tempo parada, pouca gasolina”. Não era. Acelerei docilmente ela, aquele ronco estralado do V6 ecoando em escapes feitos sob medida era um alento. O troço berrava feito esportivo de gente grande. Pensei”que se dane”, ta fácil ajeitar. Fui procurar o manual, achei ele no pacote atrás do banco. Primeira decepção, chave cópia não veio, apenas uma chave de manobrista.  Ok, vamos manobrar a lasanha. Engatei R, tudo certo. Engatei D. Minutos de pavor, nada aconteceu. Mexi na alavanca. Nada. Apertei SPORT, nada. Desliguei ela. Liguei de novo. Nada. Deixei na lenta, quem sabe um milagre da Madre Gearhead me tirasse da giromba que estava se aprumando de minha retaguarda.

Paguei a conta do frete, e segui rumo a minha casa, no Vale dos Sinos, em 3ª marcha apenas. Agora entendi por que ela não tinha força, engatavam o D somente, ela nem sinal dava de engatar marchas. Em 3ª, a caixa se comporta engatando da 1ª até a 3ª, fazendo reduções e trafegando normalmente, até os 80 km horários, depois disso, vira uma tortura rodar com um V6 estrangulado nos 4 mil giros a 80 km/h. Pronto, a lambança tava feita. Havia comprado um Audi, velho, com caixa automática ferrada, que supostamente uma limpeza do corpo de válvulas resolveria. Como meu amigo disse, o ronco dela é espetacular. Mas e o resto? Vamos às primeiras impressões de ser dono de Audi.

Você chega nas oficinas, é um misto de pavor e espanto. Espanto, que esse carro aqui no RS é praticamente extinto. Pavor, pois sabem que irei pedir pra arrumar algo, e dada a complexidade do assunto, é pavoroso para qualquer ser dotado de polegares opositores. Você vai na internet, no caminho do be-a-bá básico, e não encontra respostas sobre o veículo. O fórum da marca, é tomado por outros modelos, 80, é figura rara.

E como o sauerkraut realmente veio (2)

Meu chucrute na cor prata poderia ser apelidado de Kinderovo, uma surpresa por dentro. Além da péssima constatação que a caixa não seria apenas uma mera limpeza de corpo de válvulas, meu ar condicionado não funcionava, não acionava o compressor, meu rádio tocava som somente nos auto-falantes dianteiros, a lenta dela oscilava de uma forma ridícula e a sonda havia sido isolada, a porta do motorista tinha férias nas dobradiças, uma passada de scanner deixou o scanner louco, meus coxins do motor eram lixo, e aquelas rodas aro 20 simplesmente impossibilitavam qualquer vida civilizada no carro.

Elenquei prioridades, descobri novas gambiarras (mais? Sim!) e comecei a saga de recuperar a Audi aos seus dias de glória, já que não me restava outra saída. Aí que o bagulho ficou doido mesmo.

E como o sauerkraut realmente veio (1)

Mas isso é conversa para o segundo texto, que engloba contatos na Alemanha, assuntos técnicos e concessões de gambiarras menos bizarras, amizades antigas re-visitadas e novas amizades de ”Audeiros”, gentilezas da sogra, piadas envolvendo até o Google Maps e muita, mas muita paciência, além de doses generosas de vinho nas madrugadas vagando internet adentro atrás de soluções.

Senhores, até o próximo post.  E lembrem-se, nada é mais caro, que um Audi/BMW/MB, qualquer importado barato. Mas se for para a felicidade da classe, azar. No final, todo esforço e falência compensa.

Por Vinicius de Boni, Project Cars #451

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