Project Cars #479: a história do meu Fusca 1200 1965 “Barnfind”

Victor Nissen 6 abril, 2018 0
Project Cars #479: a história do meu Fusca 1200 1965 “Barnfind”

Fala, galera! Tudo bem? Gostaria de dedicar essas primeiras linhas do meu texto para agradecer todo mundo que me colocou aqui! Grandes amigos do nosso grupo Motorvatin, a minha família que que incentivou, os editores do Flatout, e claro, vocês que estão lendo, valeu! É muito gratificante ter a oportunidade de poder contar a minha história com o Fusca e compartilhar informações que eu aprendi nessa longa caminhada, que dura até hoje.

O post de hoje, será um pouco da história de como eu cheguei no Fusca, das pessoas que eu conheci no meio do caminho e um pouco de aprendizado, desde a descoberta dele em um rancho, até o guincho para casa, e sem poder faltar, a primeira “volta” com ele.

Essa história curiosa começa em 2010, em Jaraguá do Sul, SC, quando eu tinha apenas 16 anos. Nesse ano meu pai adquiriu um Ford model A Phaeton 1929, famoso fordinho 29, de um conhecido nosso que havia comprado o carro alguns anos antes e não tinha mais aquela vontade de restaurar, ele preferia os muscles americanos — ótimo gosto na minha opinião. Era um carro bem integro por ser tão antigo, sem muito podres, e até que com bastantes peças originais.

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Logo que compramos ele, não sabíamos nada sobre o carro, tínhamos noção de mecânica, uma coisa ali outra aqui, porém nunca lidamos com um carro que estava parado havia 20 anos. Dito isso, o antigo dono do Ford nos indicou uma pessoa que tinha bastante experiencia em Fordinhos, Seo Oscar.

Marcamos um dia, e ele veio nos ajudar a ligar o carro. Limpamos carburador, demos um trato no distribuidor (troca de platinado, condensador e rotor), destravamos o motor com óleo de transmissão automática e óleo diesel, tivemos que trocar o óleo pois ele estava com água e colocamos o motor para rugir, literalmente, pois não tinha escapamento. Foi até que rápido, parte por usar um sistema 12v num arranque de 6v, deixando o motor de arranque mais “esperto”.  E depois de uns quatro minutos girando o motor, ele começa a tossir dando sinais de vida e, de repente, pega de vez, cuspindo a fumaça da queima do óleo que estava nos cilindros! Aquilo era lindo!

Meu pai e o Seo Oscar mexendo no ponto e na lenta do carro para fazer ele funcionar, tudo no meio de um nevoeiro com cheiro de óleo. Foi lá que o bicho da ferrugem me picou. Aqui vai de brinde um vídeo do meu pai andando nele:

Vocês devem estar perguntando: “Mas que diabos esse Ford tem a ver com um Fusca?”

Bem, deixa eu te explicar! Seo Oscar além de mexer em Fordinho 29, mexia em Galaxie, Chevrolet antigos, e vários outros, inclusive os boxers da VW. E em um belo dia, um sábado à tarde, eu e meu pai fomos na casa do Seo Oscar para pegar umas peças para o fordinho. Então eu descobri da onde ele tirava todo seu conhecimento e experiência.

Pilhas de peças, peças em estantes, penduradas no teto, Chevrolet boca de sapo, furgões antigos, um Simca Esplanada, quatro Fordinhos 29 sendo um de corrida! E tinha muito mais!

Admirado com isso decidi passear pela propriedade enquanto meu pai conversava com o Seo Oscar. Como o terreno era grande tinha algumas construções nele, porém uma me chamou atenção. Andei um pouco até chegar em um rancho… e foi lá que meus olhos correram pela velha estrutura de madeira, indo direto em carro pequeno, branco e miúdo perto das camionetes e furgões. Estava lá um Fusquinha.

Tratava-se de um Fusca 1965 1200, que estava parado lá por muito tempo, desde 1994 segundo o dono (ano do meu nascimento), e pertenceu ao seu filho falecido. Empoeirado, com pneus murchos, não se conseguia olhar dentro de tão espessa a camada de pó. Na época eu não tinha conhecimento dos tais barnfinds, mas posso dizer que a sensação de encontrar aquele Fusca foi inesquecível. Me lembro de ir direto a ele, sem ao menos dar bola aos outros carros, andando depressa. A primeira coisa que eu fiz quando cheguei nele foi abrir a porta. Posso dizer que abriu quase sem nenhum esforço, e em seguida veio aquele cheiro de… Fusca. Aquilo me encheu os pulmões de uma tal forma que tossi, pois junto do cheiro veio a poeira que estava em cima dele.

Por uma meia hora fiquei admirando o achado. Entrei nele, fiquei trocando de marcha, acelerando pisando no freio e descobrindo coisas dentro do carro. Uma bisnaga de óleo Bardahl no porta luvas, alguns papéis que eu não me recordo junto com um platinado, palitos de fósforo no cinzeiro com algumas bitucas. Um fato engraçado, era que a manopla da marcha era um siri, muito coisa dos anos 80. Nesse meio tempo meu pai veio me chamar para irmos embora, e não é que o carro fisgou ele também?

Fiquei deslumbrado por aquele carro, voltando de lá entrei na internet para aprender sobre o Fusca, que motor tinha, como funcionavam os motores refrigerados a ar, e várias outras coisas sobre a história do Fusca. Ali minha cabeça já tinha começado a borbulhar por aquele carro.

Nos próximos dois anos fiz várias visitas ao Seo Oscar e ao Fusca, aprendi muito mais de mecânica com ele, percebendo o quão pouco eu sabia antes, terminei o ensino médio e passei no vestibular de engenharia mecânica (não me vejo fazendo outra coisa). Em uma das visitas que eu fazia, Seo Oscar meu deu uma notícia que me deixou muito triste, ele tinha vendido o Fusca. Era o fim! Não tive a oportunidade de andar com ele, dar a primeira partida. Me senti traído.

Peguei a minha bicicleta e fui para casa, bravíssimo, puto. Chagando em lá, fui direto na oficina, inventar alguma coisa para tirar da cabeça o ocorrido. Logo em seguida o meu pai chegou em casa, e disse que tinha uma lista de coisas que eu precisava fazer, e que ela estava em cima da mesa da cozinha, coisas como arrumar o jardim e engraxar os sapatos. Quando eu cheguei na cozinha, meu pai e minha mãe tinham uma coisa para falar: eles tinham comprado o Fusca! PQP, eu tinha um carro! Era um Fusca!

No próximo dia ficou marcado para buscar o fusca, (não preciso dizer o como eu fiquei ansioso, né?). Eis a primeira foto que eu tirei dele:

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Enchemos os pneus, puxamos ele para fora com um Monza do Seo Oscar (para ele o melhor carro produzido), por sorte somente uma roda estava com o freio travado, então foi fácil de puxar! Logo em seguida, dei um banho de mangueira nele, mesmo que eu já tivesse dado alguns banhos nele enquanto parado na garagem, queria deixar ele “limpinho”. Infelizmente o guincho não compareceu no dia, e para minha angústia tive que esperar até o outro dia. No primeiro dia com o Fusca os problemas já começavam a aparecer.

No outro dia levei uma câmera um pouco melhor, e pude tirar algumas fotos melhores dele:

Esse dia foi incrível! Pedi para o motorista do guincho para ir dentro do Fusca até em casa, minha primeira “volta” nele. Já em casa, quando a minha mãe vê o Fusca pela primeira vez, fica meio espantada, mas já acostumada com um Ford e um Jeep pingando óleo na garagem, aceitou bem (aqui deixo os meus agradecimentos para ela, que aturou todas as nossas aventuras com os carros na garagem, sujando de graxa as maçanetas e portas brancas da casa).

No primeiro dia já tirei o carburador. Assisti um dos vídeos do Tonella sobre como limpar um carburador, e aquilo me deu uma base do que cada componente fazia, e para que ele servia. Abri o carburador, e adivinha? Tudo sujo de um pó branco incrustado, já peguei a chave de fenda e raspei o que pude. depois disso coloquei todo o carburador de molho no thinner, e fui em uma loja de autopeças comprar um kit de reparo. Como o carburador instalado no fusca era do o 1300, 30 PIC, as peças foram fáceis de achar (nessa época eu não sabia da dificuldade que ir ser achar peças para o tal “miliduque”).

Com o carburador de molho, segui para a bomba de gasolina (antes de tudo isso, o Seo Oscar me disse o que fazer para dar a primeira partida). Tirei ela do motor, duas porcas M13, duas juntas e uma “baquelite”. Diferentemente do motor dos Fuscas mais novos, a bomba de gasolina fica do lado do motor, e não em cima:

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Com um livro que eu achei na internet “ Conheça o seu VW a Ar” já tinha uma base boa para o que eu estava fazendo. Quando eu retirei eu bomba, já percebi uma coisa: cadê a haste que dá o impulso do diafragma? Pelo visto encontrei o motivo dele estar parado por tanto tempo.

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Com isso em mente, terminei de desmontar a bomba de gasolina, e para minha felicidade, ela estava limpa por dentro! Uma coisa leva a outra, concluí que antes do Fusca ficar parado, alguém limpou a bomba e trocou o diafragma, mas esqueceu do pino. O diafragma estava inteiro, mole e sem rachaduras, então decidi remontar a bomba e, por uma diarreia mental, pintar ela.

Na outra semana, fui novamente ao Seo Oscar, dessa vez achar a bendita haste. Cheguei lá, e ele me disse para procurar em uma pilha de peças só de Volks. Aquilo era como minerar ouro (até hoje encontro coisas naquela pilha). No fim, acabei voltando para casa com a haste e um carburador 28 PCI (o correto para o 1200).

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Novamente na oficina, com tudo quase pronto, só faltava revisar o distribuidor, as velas, e os cabos de vela. Tirei as velas antigas, e…. uma diferente da outra, uma vela de álcool, e três de graus térmicos diferentes. E os cabos de vela não estavam melhores, todos rachados e um sem terminal, somente apoiado na cabeça da vela. Mais uma visita à auto-peças.

Partindo para o distribuidor, ao meu ver não parecia ruim, somente sujo, então limpei com querosene e limpei o platinado com uma lixa fina. Com tudo pronto, coloquei a bomba de gasolina de volta, dessa vez com a haste, instalei as velas e cabo de velas, gasolina em uma garrafa pet (não tinha o tanque dele, ainda), coloquei no lugar o carburador do 1300 pois estava bom, conectei todos os cabos, acelerador, fios da bobina, do platinado e tudo pronto! Agora era dar a partida.

Bom, quase…

Precisava de uma bateria. Em princípio ia usar a bateria do carro da minha mãe, mas logo lembrei de uma coisa importante. O carro era 6V. Onde em Jaraguá eu arranjaria uma bateria 6V? Tão logo feita a pergunta, veio a resposta: Seo Oscar.

Peguei minha Monareta, uma bicicleta miúda que tinha bagageiro, junto com algumas amarras, e fui buscar a tal da bateria. Voltei de lá com uma bateria 8V e um platinado. Toda vez que eu ia lá, eu ajudava ele em alguma coisa, arrumar peças ou mover coisas pesadas, pois o Seo Oscar já era de idade, e em forma de pagamento recebia alguma peça velha. A bateria era emprestada, porém o platinado era meu.

Corri o máximo que eu pude com aquela bicicleta desengonçada, na época meu único meio de transporte, então pedalar de lá para casa era questão de minutos. Chegando em casa mais uma vez, fui direto colocar a bateria no lugar, apertei os cabos e tudo ok. Fui até o meu quarto pegar a chave que finalmente iria ser usada, coloquei a chave na ignição, e como em um milagre automotivo, as luzes do painel ligam! Não acreditava que nada tinha pegado fogo. Uma verde e uma vermelha, era o que eu precisava ver para continuar. Giro a chave, e o motor da uma girada lenta, faço mais uma tentativa e o motor já virava melhor, continuei testando e 10 segundos do motor virando, a primeira tossida, dou uma parada e jogo gasolina direto no carburador, novamente outra tentativa. De repente: braaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaap!

O motorzinho esquecido por 20 anos, dá a sua primeira acelerada! Não deram 5 segundos e as luzes se apagaram, indicando que tinha pressão de óleo e o dínamo estava funcionando. Como no Fordinho, o Fusca fez bastante fumaça pois colocamos óleo no motor para destravar os pistões! Era um “first start parte 2”.

Depois da primeira partida, ajustei a lenta dele, junto com a mistura. O motor parecia um reloginho, pifava pouco (mais para frente parou, assumi que eram as válvulas travadas), não fumava, e não batia então esperei mais 10 minutos e desliguei ele. Como tinha alguns litros de óleo do Jeep, aproveitei para trocar o óleo do Fusca. Aquele óleo de 20 anos, meio morno parecia uma cobertura de bolo de chocolate, nojento.

Para mim esse dia me mostrou o quão legal é pegar um carro, e fazer tudo com as próprias mãos, mesmo que seja simples. Aquilo era demais. Infelizmente, perdi o vídeo da primeira partida, junto com um bando de fotos do carro. Mas da segunda partida eu tenho vídeo:

Enfim, acho que por hoje é só! Pois o post que vem, contarei sobre os freios, o começo da restauração, incluindo as dificuldades de encontrar um funileiro bom, mais informações técnicas sobre o fusca, e algumas dicas relacionadas ao processo de reforma!

Mais uma vez, muito obrigado pelo voto de vocês e até a próxima!

Por Victor Nissen, Project Cars #479

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