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Project Cars Project Cars #508

Project Cars #508: a história do Gol CL 1994 de meu bisavô

Por Vinícius Gouveia, Project Cars #508

Olá! Meu nome é Vinícius Gouveia, e eu, como praticamente todos os leitores do site, sou apaixonado por carros. A paixão veio relativamente cedo, quando meu pai apareceu com um Eclipse GS-T de segunda geração (que ainda comprarei um igual), branco, e que me fez mostrar que os carros do Gran Turismo eram tão legais fora do mundo virtual quanto dentro dele.

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Não sei explicar o que aquele carro me causou para dar esse “click” e acender a chama. Do Eclipse, pulei para ver corridas de rally, endurance e, até ter meu segundo carro (o primeiro, um C3, não me despertou qualquer sensação de apego), eu era o típico piloto-de-teclado-nerd-jogador-de-games-de-corrida. Depois do famigerado C3 citado acima (primeiro carro, “altamente confiável,” que me causou meu primeiro acidente pelo fluído de freio simplesmente começar a vazar quando eu precisei de uma frenagem forte), vieram três carros que viraram xodós meus, principal deles sendo o meu Lancer 2013, com câmbio manual, que me fez realizar o sonho do meu Mitsubishi próprio. E, atualmente, o panzer que é a A4 B8 (mais conhecida como beberrona de óleo).

Algo mais estranho do que a chama que foi criada pelo Eclipse, foi minha capacidade de associar carros a pessoas e momentos queridos. Toda vez que vejo uma Volvo V40 de cerca de 1999, eu lembro do meu aniversário de 10 anos de idade, onde meu pai, com a Volvo V40 T4 que tinha na época, colocou quase todos os meus amigos (cerca de 15 crianças) dentro do carro, a maioria no porta malas, e saiu acelerando de farol em farol, fazendo todos ficarem doidos com o carro. Toda vez que vejo um Lancer, especialmente os warm silver, lembro de quando eu realizei meu sonho de pilotar em Interlagos, em um track day, mesmo que os resultados não tenham sido dos melhores (bem, eu não morri, não bati, então foram bons o suficiente para mim).

Sempre que vejo um Focus de primeira geração, lembro de meu avô e minha avó, que cuidaram de mim enquanto meus pais trabalhavam. E toda vez que eu via um Gol quadrado, eu lembrava de meu bisavô – figura importante para mim e para o meu pai.

Meu bisavô nunca foi alguém com muito dinheiro, porém ralava como nunca vi alguém ralar para ter o seu dinheiro. Sempre uma figura justa, sempre alguém de bem. Demorou muito para conseguir seu primeiro carro – isso vindo depois de seus 40 anos, pelo que me contam. Em 1994 ou 1995, um cliente dele quis ajudá-lo, vendendo a ele um carro seminovo: um Gol CL 1994 verde.

Ele não é um gearhead como nós, mas, mesmo assim, se apegou ao carro. Fez viagens, fez história, e usou como seu daily até não conseguir mais. Falava, inclusive, que o carro dele tinha o melhor motor do mundo: o AP. Não o carro, mas ele. Foi dirigindo cada vez menos, até que por volta de 2015~2016, só manobrava o carro para fora de sua garagem, onde ele tinha seu salão e trabalhava como barbeiro.

Veja, em 2015, ele já tinha seus 90 anos de idade nas costas. E ainda cuidava para que o carro se mantivesse pronto para o uso. Eu, como bom brincalhão e como alguém que sempre gostou de carros antigos, brincava sempre com ele. “É, vô, ainda vou comprar esse carro pra cuidar pra você!” Ele ria, e me retrucava, dizendo que esse carro ia morrer com ele. Eu ria de volta, e continuávamos nosso papo.

Até que em 2018, num almoço em março, a coisa mudou.

“É, vô, ainda vou comprar esse carro pra cuidar pra você!”

Eu já aguardava a resposta de sempre. Aí ele quebrou nossas pernas.

“Dependendo de quanto vale o carro, a gente pode conversar. Prefiro que vocês cuidem.”

Na real, eu não lembro direito qual foi a frase. Eu lembro que eu e meu pai ficamos bestas, e tentamos resolver o mais rápido possível se dava ou não para arcar com o carro. Como eu disse antes, ele foi uma figura importante para ambos. E, especialmente para mim, seria um jeito de lembrar do meu bisavô sempre. Não só quando eu visse qualquer Gol quadrado na rua, mas porque eu veria sempre o Gol quadrado dele na minha garagem.

Deixamos meu bisavô ditar a cifra – qualquer valor acima do que o carro vale, pra gente, serviria como alguma grana pra ele se manter e facilitar qualquer custo que ele tenha – e, visto que não era algo extremamente acima do valor que o carro realmente valia, dissemos a ele que nós fecharíamos o negócio se ele realmente quisesse.

E ele quis.

Nós nos acertamos como faríamos, e o que faríamos com o carro. Ele não seria vendido, ele seria mantido dentro de nossa família. Ele seria reformado e, no máximo, feito alguma modificação sem que perdesse a real essência dele. Eu botei na minha cabeça que, mesmo se eu modificasse o carro, ele se manteria um carro com a aparência o mais próxima da original possível, e se manteria carburado e aspirado. Agora era só buscar o carro, trazê-lo para casa, e transferir.

Olha… Meu carro mais antigo foi um carro de 2008 (o famigerado C3). Eu dirigi um Escort 1988, e um Apollo 1991 algumas vezes… É, eu não tinha a menor experiência (e nem segurança, para ser sincero), para trazer o carro sozinho para a casa. Teria que atravessar parte de SP (ele mora na Zona Norte, e eu na Zona Oeste, quase fora da cidade), com um carro que só era manobrado, e que eu não tinha a menor habilidade para fazer reparos rápidos se acontecesse algo no caminho. Chamei um dos meus fiéis escudeiros – o Leon – que é mecânico, lasanheiro e que está muito acostumado a andar com carros antigos. Na pior das hipóteses, eu meteria o rabo no meio das pernas e o deixaria levar o carro para a casa.

Num sábado de manhã, pegamos um Uber até a casa do meu bisavô. O Leon ficou assustado de saber que ele não era meu avô, e sim meu bisavô, com seus quase 95 anos, cortando cabelo num sábado de manhã. Estava feliz em mostrar que o carro pegava na primeira virada da chave. A gente deu uma olhada rápida na mecânica, e tudo parecia em ordem. O sobrinho do meu bisavô dizia que a embreagem era nova, e que os fluídos estavam OK. A pintura estava queimada, mas eu e meu pai já tínhamos cotado para repintar o carro. Os pneus eram bem antigos, mas dava para encarar a Marginal.

Era só pegar o documento, colocar gasolina e ir embora. Ainda que nós nos enrolamos com a chave que abre a tampa do tanque, e tivemos que voltar para a casa do meu bisavô, mas… Estávamos dirigindo o Gol quadrado dele, nas ruas que eu cresci e que eu o via dirigir aquele carro. Eu pedi para o Leon ir levando o carro até o MercadoCar, onde trocaríamos os filtros e o óleo. E nos assustamos que o carro… Não tinha nenhum problema, ao contrário do que eu pensava que poderia ter. Estava funcionando de maneira bem redonda, apesar de alguns probleminhas menores. Rolamentos roncavam, a lenta não estava bem regulada, parecia ter um excesso de gasolina, o trambulador não estava dos melhores… mas funcionava!

Chegando no MercadoCar, quando – obviamente – avisei o grupo de amigos que eu estava, sim, com um Gol quadrado (veja, o pessoal estava mais incrédulo que eu), e um de nossos amigos pediu para que eu passasse lá com o Gol para ele ver. Só tinha um problema: o Leon queria que eu dirigisse. Porque, na cabeça dele, seria uma piada linda eu tentar dirigir um carro antigo, carburado, e com história. Que eu ficaria com receio/cagaço/medo e faria alguma coisa ou desesperaria.

E não foi bem o que aconteceu. Demorei – obviamente – para acostumar com a direção, com os retrovisores horríveis que o Gol tem (parece que está com um super zoom). Mas consegui me acostumar, consegui mostrar o carro para o meu amigo e… Fui direto encarar a Marginal com o Gol.

Mesmo com o rolamento roncando bastante, o carro mal passando de 60km/h, eu não tenho como descrever o quão legal foi dirigir um carro antigo, com tanta história, com tanta história para mim, daquele jeito. Sem pressa, sem objetivo, sem (muita) preocupação. Eu ficava meio receoso de ser “só” um Gol quadrado (e nem era um GTS, nem era uma versão especial), mas esse receio todo foi por terra quando eu finalmente peguei o carro para dirigir (e algo que se repete sempre que dirijo o carro).

Conseguimos chegar em casa, onde lavaríamos o carro e deixaríamos ele na garagem. Quando fomos ligar novamente, percebemos que o carro já não estava mais tão liso, falhando um pouco (provavelmente algum desajuste do carburador), mas conseguimos manobrar ele pela garagem. Era óbvio que o carro precisaria de um mecânico, e já me organizaria para levá-lo para ter o cuidado que merece.

Eu, na minha cabeça, já desenhava mil projetos para o carro, já tinha mil ideias de viagens pra fazer, já tentava bolar tudo que eu queria pro carro, mas sempre tentava me guiar com o que eu queria: que esse Gol não perdesse a característica e identidade de que é um Gol CL 1.6. De que é o Gol que meu bisavô teve por cerca de 24 anos de vida. Que é o carro que eu vi por tanto tempo, e que estava me sentindo honrado por ter o privilégio de ser não um dono, mas sim o cuidador atual desse carro.

E fechei o acordo comigo mesmo. O exterior não seria mudado em nada – no máximo, adicionado faróis de milha para melhorar na iluminação. No interior, eu trocaria o volante, painel e manopla pelos do GTS. São mais esportivos, eu sei, mas eu não acho que atrapalharia a ideia do carro. Trocaria o rádio por um mais novo, porém ainda o manteria com toca-fitas. A mecânica ficaria toda original até eu bater o martelo e falar que a reforma estava concluída. Após isso, no máximo, um carburador melhor, um comando 49g, talvez coletor e escape. E talvez uma suspensão retrabalhada, um pouco mais baixa, sem perder conforto. Esse era o plano que eu tracei na cabeça e que eu gostaria de seguir.

Após a lavagem, guardamos o carro. Ainda é estranho até hoje eu perceber que tenho esse carro na garagem. Já fiquei me organizando para levar o carro para o mecânico, para dar o primeiro passo para iniciar a reforma. Estava bem ansioso para isso, para já começar a iniciar os rolês com esse carro e mantê-lo vivo, criando histórias por aí.

Meu primeiro rolê com o carro foi para fazer a vistoria de transferência, onde acabei tirando fotos para ver direito o estado que o carro se encontrava. Apesar de a mecânica estar relativamente OK, a aparência estava bem gasta, pelo meu bisavô deixar o carro no sol todos os dias. Seria a primeira coisa a atacar, ainda mais por me encherem o saco na família (sim, preferem um carro bonito do que um carro que anda).

Então, com o documento em mãos e com um plano, eu só tinha mesmo que cotar com quem faria a funilaria e a mecânica, e fazer um catálogo das peças que eu deveria comprar pra que o carro começasse a ficar pronto. Mas, obviamente, eu não ia deixar o carro na garagem só esperando eu ter a grana pra deixá-lo no mecânico, não é mesmo? Eu, com toda a minha falta de experiência com carros velhos… Decidi dar um rolê sozinho com ele.

É engraçado, pois nunca tive um carro carburado, sem direção hidráulica, sem ABS… Um carro antigo sem frescuras, sabe? E, por mais que muita gente ache que é “só” um Gol quadrado (e nem é um Gol daqueles mais “legais,” é um CL!), eu acho que foi um dos melhores rolês de carro que eu havia dado. Não tinha pressa, não tinha nada me atrapalhando… Obviamente, não foi algo emocionante por eu estar a bilhões de quilômetros por hora, mas foi algo calmo, algo que trouxe paz, algo que deu pra aproveitar o carro e aprender com o carro. Algo que vi que vai dar pra ter prazer, pra curtir, que eu vou me apegar e querer cuidar. E que vou cuidar, do jeito que meu bisavô havia pedido.

Pode não ser um GTS, pode não ter assistência alguma, pode ser “só” um Gol quadrado… Mas é O Gol quadrado, que foi de meu bisavô, e hoje está sob meus cuidados. E eu vou cuidar bem dele.`

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