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Project Cars Project Cars #513

Project Cars #513: como usar um Stilo para comprar um Opala

Por Gustavo Rossi de Andrade, Project Cars #513

Olá, caro leitor. Aqui é o Gustavo, detentor de um Opala 1977 seis-cilindros e de uma ausência de inteligência fora do comum. Hoje, vocês vão aprender com o tio aqui como montar um esquema para comprar o carro dos seus sonhos. Prontos? Vamos nessa!

Quatro anos atrás, em 2015,  meu pai quase morreu do coração quando eu disse a ele que iria comprar um Stilo com skywindow! Do jeito que ele detestava a Fiat, eu sabia que ele não iria aprovar. O objetivo não era exatamente esse, mas ele não precisava saber disso.

Em 2015, tudo o que eu tinha eram 19 anos de idade e uma merreca na conta bancária para saciar a minha vontade de ter um carro. Uma tarefa complicada com tantas opções.

Entre o fim do ensino médio e o ingresso na faculdade, vi a escalada de preço dos clássicos; Galaxie, Maverick. Dodge, todos foram carros que dobraram ou mesmo triplicaram de preço em um período muito curto. Porém ainda havia uma opção com preços mundanos (leia-se barato) e que na minha opinião era tão legal quanto aqueles todos: o Opala.

Vocês já sabem, mas não custa recapitular: o Opala foi o primeiro modelo de passeio da Chevrolet vendido no Brasil. Projetado pela Opel, modificado para o Brasil com inspiração no Nova americano e motorização igualmente americano. Ele poderia vir equipado com um quatro-cilindros de 2,5 litros e cerca de 94 cv, ou com o seis-em-linha 4.1, com potência entre 140 e 171 cv (250-s) e torque na casa dos 26 kgfm.

Ou seja: um sonho molhado para um moleque que cresceu vendo “Velozes e Furiosos” e jogando “Need for Speed”.

Mas onde o meu pai e o fiat entram nessa história? Calma que vamos chegar lá! A decisão estava tomada: teria de ser aquele muscle brazuca com seu ronco rouco e carroceria estilo fastback.

Lembra da merreca na minha conta? Então, é óbvio que ela não era suficiente para cobrir meu sonho, eu precisava de alguém para me ajudar nessa total burrice que eu queria cometer. E é claro, dei bandeira para minha mãe me ajudar na empreitada, ela por sua vez arranjou informações privilegiadas com o meu pai e logo a resposta chegou: “É ele vai te ajudar sim, afinal não falta muito dinheiro e você passou em uma ótima faculdade, porém terá de ser um 1.0 baratinho e econômico, um corsinha dos anos 90 seria perfeito”.

É claro que tentei conversar, explicando que esse não era um tipo de carro que eu gostaria de ter, e que eu não seria 100% feliz comprando algo que não era da minha vontade, mas meu pai não aceitou. Um senhor que já viveu muito, e hoje coloca a razão na frente de tudo, eu não poderia ter esperado uma opinião diferente…

Ah não cara! Que balde de água fria! não dava para ser um corsa, eu não poderia gastar todo meu dinheiro e mais um pouco em algo nada haver com o que eu queria. Mas a maldade… a maldade sempre está na mente! Como convencer um senhor na casa de seus 50 anos que adquirir uma geringonça de 40 anos de idade era boa ideia? Simples, só fazer parecer que a outra opção era muito pior que o Opala.

Meu pai já foi um gearhead na sua época, seu primeiro carro foi uma belíssima Alfa Romeo 2300 1974 manual, a qual ele ganhou de seu padrasto nos anos 1980 já em péssimo estado. Ela tinha uma cor azul claro para lilás (a qual ele trocou para preto Cadillac), tinha vários podres e um motor no final de vida, mas cara, ela era uma Alfa! o volante de três raios com aro em madeira e os belíssimos instrumentos Veglia Borletti, os quais o meu pai sempre se lembra todas as vezes que se recorda do carro, denunciavam a origem do bólido.

Alfa Romeo 2300 1974, com uma cor muito próxima do Alfa do meu pai

 

Interior idêntico ao do nosso, com detalhe no volante, console e painel com acabamento em madeira

 

Ná época, meu pai mal tinha dinheiro para alimentar aquela velha fera italiana na garagem, sempre me conta que uma vez que foi colocar “que nem uns 20 reais no tanque”  e descobriu que o mesmo estava cheio, só faltou  pular de alegria e foi para a faculdade com o carro, fazendo aquele maravilhoso quatro cilindros com câmaras hemisféricas, comando duplo no cabeçote (já nos anos 1970) e uma Webber dupla berrar. “Que carro!” ele sempre me dizia, corria contra os Opala da época de igual para igual, mesmo os seis-cilindros, depois dos 170 km/h os retrovisores da Alfa “fechavam” pois suas molas não resistiam contra o vento. Características que só poderiam existir nos carros dos anos 1970.

Mesmo com esse passado, ele não apoiava a minha idéia. Eu sabia que esses tempos haviam passado para ele, e que agora ele era só um pai de família na meia-idade, se concentrando em cuidar de seus próximos e de seu emprego.

Porém, apesar disso tudo, sou brasileiro e não desisto nunca! A idéia já estava na cabeça, e o  plano já estava criado!

Certo dia fui falar com ele na maior seriedade, ele já sabia que eu era contra a idéia do 1.0, porém eu tinha uma arma secreta que iria me ajudar a convencê-lo a ceder: eu sabia que ele detestava a Fiat, principalmente os modelos “que parecem carro de boy”. Isso se devia a uma série de experiências passadas que ele teve com problemas elétricos com automóveis da marca.

Então só um carro poderia me ajudar a atingir o meu objetivo, que era  convencer uma pessoa 100% racional a fazer uma burrice. Nesse dia, sentei ao seu lado, e disse a ele, em tom de apaziguamento,  que não compraria um 1.0 de forma alguma mas que “adoraria” comprar um Stilo Sporting,  aquele amarelo, com o skywindow que tem fama de travar. A resposta foi imediata! Ele quase infartou, coitado, e o melhor foi o efeito colateral: minha mãe adorou o carro, e ficou do meu lado! Ela não sabia de nada, pobrezinha!

Com a minha mãe do meu lado, e após muitas conversas com ele, meu acabou cedendo e preferiu me ajudar a pegar um Opala, pois segundo ele “a elétrica era bem mais simples pois não tinha nenhum opcional e daria menos problemas porque não era Fiat”.

Nessa hora toca o “tema da vitória” na minha cabeça.

Já dizia o dito popular “ignorância é uma benção” e  naquele momento eu era a pessoa mais abençoada da Terra!

Algumas semanas e carros a venda visitados depois, o escolhido foi um Opala de Luxo cupê, ano 1977. Cor ouro imperial, equipado com um seis-cilindros 4.1. Compramos de despachante que dizia ser o segundo dono do carro. O primeiro havia sito um tio seu.

No dia que fomos buscar a minha mais nova dor-de-cabeça, quem dirigiu foi meu pai. Coitado, quase chorou. Lembrou da época que teve uma Caravan 1979 standard monocromática, de quatro-cilindros. Amou ouvir o ronco dos seis-cilindros… De fato , foi muito bom, depois de tudo,  poder ouvir a sinfonia daquele  strait six  chevrolet rebatendo na mureta da Dutra enquanto ultrapassávamos todos os outros carros em uma velocidade que um auto de quase 40 anos de idade não deveria poder alcançar, sabe,  me senti um pouco nos anos 1980 como nas histórias da Alfa de meu pai. O sentimento de liberdade é incrível.

Meu pai acabou pegando gosto também, devido ao Opalão agora ele às vezes abdica da parte racional e da lugar um pouco ao emocional, o que eu acho ótimo, afinal somos todos humanos e a felicidade também faz parte da vida. Acabamos nos reaproximando muito graças ao carro (já faziam alguns anos que estávamos um pouco distantes), afinal sempre trabalhamos juntos nele e todo fim de semana estamos sempre procurando novas peças velhas para o mesmo haha.

Primeira foto que tirei do carro,  primeiro abastecimento de muitos (cavalo que anda, bebe!)

Mas nem toda história tem um final feliz  para sempre. O carro era um sonho realizado, porém não se engane pelas fotos, ele era um sonho cheio de podres, pneus um de cada tamanho em péssimo estado, motor falhando e detalhes de gosto bem duvidoso, como pedaleiras de alumínio em formato de “pezinhos”, adesivos com kanjis japoneses colados  por dentro do velocímetro, tapetes “chão de ônibus” e a lista segue.

Usei o carro o tanto quanto deu, porém ele pedia reparos, os seus quase 40 anos já pesavam demais nas costas…  e uma hora ele cedeu.  Mas isso fica para o próximo post!

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