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Project Cars Project Cars #513

Project Cars #513: faça a funilaria do seu carro em casa, nada pode dar errado!

Por Gustavo Rossi de Andrade, Project Cars #513

Era isso. Vitória! O jovem Gustavo tinha feito seu plano mirabolante envolvendo o medo de seu pai acerca dos carros da Fiat funcionar e o tão sonhado Opalão havia chegado em seu devido lugar na garagem de casa (ficou curioso? Contei isso no primeiro post do PC#513). O carro seria mais uma história dessa garagem que possui uma coleção de histórias de, pelo menos, três gerações de gearheads.

Desde os anos 1950, esse quintal já entrou em várias enrascadas conosco envolvendo carros, motos e até barcos, afinal, todos aqui são meios desajustados quando se trata de queimadores de petróleo. Dessas, as duas histórias mais legais de serem contadas são a da vez que meu pai tirou o motor de sua Alfa Romeo 2300 (a mesma do post anterior) usando uma corda amarrada na treliça do telhado para levantar o bloco, de forma que pudesse empurrar a carcaça do carro com o pé enquanto segurava a corda, para que a carroceria rolasse e saísse debaixo do mesmo, e assim descer o motor em cima de um skate Nakano que já estava posicionado, o qual foi usado como macaco jacaré!

A outra história é mais mirabolante ainda, foi quando meu avô e meu pai resolveram fazer um veleiro transatlântico de 40 pés do zero na garagem de casa com o intuito de usá-lo para dar a volta ao mundo, tudo isso no final dos anos 1980. A epopéia durou 11 anos, o barco ficou pronto em 1999, e se tornou uma história famosa na época, que foi parar até na Globo e em capa de jornais. Um conto quase que folclórico, para não se dizer “história de pescador” dentro da minha família.

Infelizmente não temos as filmagens, mas temos esse registro do Bellatrix (nome do veleiro) na capa da Folha Metropolitana, datada de 14 de Julho de 1999. A loucura aqui em casa é de família! De todas essas odisséias que esse quintal já protagonizou, mal sabia eu que quando o Opala havia chegado na minha vida, eu também teria a minha cota de histórias com aquele chão (e que histórias!).

Sabe o coqueiro que aparece na foto do Bellatrix? É exatamente esse aí na frente do Opalão! Era começo de 2017, minha vida tinha mudado muito, eu estava na faculdade, havia deixado de lado minha vaga como guitarrista em uma banda de thrash metal para focar nos estudos e, somado a isso, agora eu tinha um filho de 40 anos de idade para cuidar.

Eu já estava com ele havia algum tempo, e já tinha aprendido muitas coisas sobre ter um antigo na garagem. Quem tem sabe: todo antigo tem suas peculiaridades, aquelas pequenas “características” que só o dono conhece; a maçaneta que só abre se apertar o botão de certa forma, o carburador que engasopa se acelerar o carro do jeito errado ou a bateria que sempre arria por alguma fuga de corrente que nunca ninguém descobre.

E é claro que o Opalão não seria diferente. Logo na primeira vez que sai com ele, em uma noite chuvosa de inverno, voltando de um restaurante com minha namorada, o câmbio encavalou na segunda marcha no momento em que tentei engatar a ré, fazendo com que fosse impossível manobrar para sair da vaga.

O que fazer numa situação dessas? Óbvio! Colocar a namorada de salto-alto para ajudar a empurrar o carro velho embaixo de chuva enquanto eu o embreava para poder rodar razoavelmente livre. Se esse não é o sonho de toda mulher ao sair com um cara, eu não sei qual é!

E durante todo esse tempo que tive com o carro sempre foi dessa forma, todas as vezes que eu saia era a mesma história: ligar o carro — depois de 47 tentativas e acabar com aproximadamente 13 latas de óleo spray utilizadas no carburador —, ir para o posto, afinal é um Opala seis-cilindros e o meme se torna real quando você tem um, e logo depois ficar na estrada por algum motivo. Dê cabos de vela que se soltam a panes improváveis como uma bomba d’água que para de funcionar porque a polia rodou em falso no eixo, o qual entra por interferência!

Esta foi a vez em que a polia rodou em falso no eixo. Era um dia muito quente, eu estava voltando de uma muscle tour em que havia participado.

 

E como eu disse no post anterior, os 40 anos de idade do carro iam pesando cada vez mais e mais, tanto nele, quanto na minha paciência. Meu Opala nunca foi um carro imaculado ou de museu, comprei ele já sabendo que algum dia eu teria de desmontá-lo por completo para fazê-lo da forma correta. Ao contrário do que aparece nas fotos, o carro não era nada alinhado, tinha retoques de tinta de cores diferentes e era completamente ondulado, cheio de pés de galinha e de podres.

Detalhe dos diferentes tons de marrom que o carro possuía

Em certo momento fui obrigado a parar o carro, devido (além dos problemas supracitados) aos pneus terem chegado em seu limite, todos de marcas duvidosas e extremamente gastos (eu sei o que você está pensando! Eu não fiz borrachão não!).

Depois de algumas semanas com o carro parado, como qualquer gearhead, eu comecei a entrar em abstinência. Vê lo naquela situação era péssimo, mas como era impossível comprar um jogo de pneus naquele momento, tudo o que eu podia fazer era esperar. E eu te pergunto, eu esperei? claro que não!

Certo dia, eu estava lá, olhando para o Opalão como cachorro olha para frango assado na vitrine da padoca. Eis que de repente meu telefone toca, era meu pai pedindo para buscar uma lata de tinta que ele havia comprado na loja de um amigo, a qual ele usaria para dar um retoque em uma das paredes de casa. Com três opções de carros com a finalidade serem escolhidos para ir buscar a mercadoria, claro que fui na correta: O Opalão parado a meses, com um dos pneus traseiros com bolha e os outros três fazendo cosplay de pneu de stock car (leia-se slicks de baixa renda).

Um pouco de esforço para ligá-lo e quatro quarteirões depois, ao passar em uma valeta a incrível velocidade de 7km/h, o pneu bolhudo explodiu. Fiquei atravessado no meio da avenida com o meu aro traseiro no chão. Somado a isso, o macaco que eu tinha não levantava o carro o suficiente para o pneu ser trocado – resultado completamente imprevisível diante da atitude brilhante que tive.

Tudo o que eu pude fazer na hora foi arrastar o carro o mais devagar possível até uma farmácia, tudo para tirar o carro da rua e não destruir o jogo de Scorro cruz de malta porosas originais de época que eu tinha no carro.

O dono da farmácia ficou felicíssimo por meu carro ter ocupado duas vagas
Quando eu falei “explodiu” eu estava falando sério!

Após trancar o carro e esperar a minha mãe chegar para eu poder usar o macaco do Uno dela — e rezar muito para o assoalho todo enferrujado do Opala não varar com o peso do carro e ao mesmo tempo em que o macaco estalava enquanto sofria com o peso —, o pneu foi trocado e eu levei o carro para casa sem maiores problemas. Contudo, o estrago havia sido feito, não apenas no carro, mas em mim.

De novo em casa, carro parado e eu sentado, olhando para ele, extremamente nervoso com o que havia acontecido. Eu estava muito frustrado por querer resolver todos os problemas do carrro e não conseguir, ainda mais pois a situação envolvia algo que eu desejei tanto, e agora que eu o tinha, não conseguia usar. É o que o ditado popular cita “É como entrar no McDonalds e comer salada”.

“Ninguém quer comer salada!”, sentado naquela banqueta na garagem eu pensava. E, pela segunda vez no dia, eu tive outra brilhante ideia: se eu estava insatisfeito com a pintura, com os podres, ondulações e todo o resto, somado a isso o carro iria voltar a ficar parado, porque não o desmontar e fazer a funilaria em casa mesmo? Ótima idéia! É claro que eu sozinho, com zero experiência em funilaria, em casa e sem equipamento saberia deixar o carro 100% alinhado, óbvio!

A idéia que me surgiu naquela manhã de como o carro se pareceria quando pronto era algo mais ou menos igual a isso:

Manipulação que fiz no photoshop na época, corrigindo todos os podres e ondulados do carro e acrescentado um belo jogo de Hankook Ra03

Empolgado com a abstração que tive, no mesmo dia desmontei o carro!

Tirei tudo, menos os vidros e os frisos por medo de destruí-los. Meu pai pediu para tirar uma foto minha naquele momento, repare que estou sentado no banco do motorista do carro, o qual eu havia acabado de tirar.

Mesmo não tendo nenhuma experiência, eu sabia que poderia aprender e, além do mais, idéia era fazer algo simples e funcional e não uma restauração: rebater os vários amassados do carro, massear onde fosse necessário, lixar, e repetir o processo até que o carro ficasse melhor do que era. Mesmo eu não gostando, a cor que resolvi para ser pintada no final do processo seria a mesma, por ser mais simples e fácil de harmonizar com a antiga já presente no carro. Bom então mãos a massa!

Ainda neste mesmo dia, dei um pulo no armazém de materiais de construção do seu Orlando – amigo de longa data de minha avó -, e pedi uma dúzia de lixas de variadas granulações, uma lata de massa rápida Maxi Light, e em menos de 40 minutos eu já estava de volta começando a lixar o carro.

E dessa forma começou minha história com aquela garagem com mais de meio século de existência! Da mesma forma que meu pai tirou o motor da Alfa Romeo dele cerca de 30 anos antes quando havia fundido, usando apenas um Skate Nakano, uma corda e muita força de vontade, eu iria embarcar em algo, que eu ainda não sabia do tamanho que iria se tornar.

Comecei pelo lado do motorista, o qual era o pior, não havia um reflexo que não ficasse deformado devido a ser uma das poucas coisas mais onduladas que uma batata Ruffles. Nesse momento eu entendi o porquê de um funileiro ser tão caro, o serviço era difícil e extenuante.

Por eu escolher não trabalhar com decapante, devido ao receio de não saber acertar o carro a partir da lata e deixar o que era ruim ainda pior, tive de lixar aquela tinta toda à mão, o que se provou um calvário imenso.

Cerca de uma semana de trabalho, muitas lixas gastas, mas agora com tacos melhores, o que facilitou o trabalho

A partir daí, o serviço continuou, todos os dias que eu tinha livre, acordava cedo e ia lá lixar a minha dor de cabeça pessoal. Acordava entre 6h e 6h30, tomava um café começava a trabalhar, seguia até a hora do almoço, depois voltava e ficava até as 18h30. Depois eu parava para tomar um banho e jantar, e em seguida rodar cerca 80 km ida e volta até minha faculdade, para assim chegar em casa por volta das 23h. Não era uma rotina leve, mas para realizar um sonho tudo vale se você está disposto (ou se é completamente louco e tem tempo livre).

Frente do carro antes de começar a lixar, repare na ferrugem e na pintura toda descascada ao redor dos faróis

Como não iria substituir peças, lixei com o flap toda a ferrugem que tinha no carro, para tratar com um protetor que retardasse o máximo que pudesse a oxidação após que eu pintasse.

O progresso era lento, pois eu era muito perfeccionista. Conversei com vários funileiros, fui aprendendo, e sempre lixava até achar que estava liso e alinhado o bastante. Passava a mão, umedecia a lata para ver os reflexos, e se não estivesse bom o suficiente, retirava toda a massa aplicada no local e recomeçava.

A lateral direita era melhor que a esquerda, mas também tinha muito trabalho a ser feito
O véinho também colocou a mão na massa! esse foi um final de domingo o qual meu pai me ajudou com a lateral direita do Opalão

Fiz isso incontáveis vezes, e os poucos lugares que eu ia terminando iam me dando mais ânimo para continuar. Dessa forma, o ciclo de trabalho se repetia diariamente, frio ou calor, chuva ou sol; em uma garagem aberta com telhado de amianto não importa o clima, todos são péssimos.

Martelo, taco, lixas e mais lixas: a lateral direita começava a ficar cada vez mais lisa

Com cerca de seis meses nessa rotina, eu já havia terminado em torno de 40% do total do carro. Certo dia eu estava a terminar a porta do passageiro direita, essa que encontrava-se se provando a pior parte do carro para se acertar até então – devido ao seu estado -, mas apesar disso, já estava tomando forma. No entanto, a lei de Murphy nunca falha, e é claro que a folha da porta abriu de cima a baixo, trincando parte da massa rápida e jogando todo o meu trabalho de dias na lata do lixo.

Algumas semanas depois do episódio da porta, o inverno chegara, e com ele muitas vezes as manhãs, agora bem mais frias, garoavam com periodicidade, fazendo com que eu frequentemente trabalhasse com as mãos úmidas, o que foi deteriorando a minha saúde.

Desde que eu havia começado com isso, minhas mãos estavam regularmente com bolhas, principalmente nos dedos, o que não me incomodava tanto, porém nesse inverno elas se tornaram cada vez mais severas, o que dificultava minhas anotações na faculdade. Somado a isso, mesmo eu utilizando máscaras para o lixamento, minha asma começou a apertar com a imensa quantidade de pó que eu estava sempre em contato diariamente.

Certo dia, uma terça-feira, quando eu havia chegado na faculdade após mais um dia de trabalho no Opalão eu me senti mal. Meus olhos perderam a capacidade de focar, meu corpo e minha cabeça doíam muito, o que me dava certa tontura. Foi uma noite bem estranha, deitei na cama do jeito cheguei em casa, pisquei e era dia de novo.

Ao acordar, me sentia como se estivesse de ressaca muito forte; Meu corpo havia padecido devido ao esforço colocado no Opala. Minha mãe praguejou aos ventos sobre o carro, queria me levar ao pronto-socorro, mas falei que não era nada grave, e que aquilo não tinha nada haver com o Opala, pois não queria preocupá-la. E assim se passaram longos dois dias, na base de analgésicos, cama e quarto fechado para não entrar luz.

Já era sexta-feira, eu estava 80% melhor, mas minha força de vontade em mexer no carro havia se esvaído, eu não tinha mais tenacidade e nem saúde para continuar com aquilo. Mais uma vez meu sonho dava um passo a mais longe de mim.

Após o acontecido não trabalhei mais no carro, o coloquei embaixo da capa para fingir que não existia. Passei os dias indo na faculdade e resolvendo as coisas da vida, ignorando que o meu sonho estava lá empoeirado, só me esperando para voltar às ruas.

Porém as vezes a vida nos prega uma peça, e essa havia durado cerca de seis meses. Como havia citado anteriormente, até alguns anos antes eu ainda participava de uma banda de Thrash Metal como guitarrista. Devido a isso, eu ainda possuía alguns equipamentos musicais, dentre eles um cabeçote Peavey 6505+ (quem conhece e já tocou com um sabe do que estou falando, puro poder de destruição nuclear!). Ele estava a venda a cerca de dois anos, sem nem sequer sinal de interesse por ninguém…

Até a sexta-feira seguinte, exatamente uma semana depois de eu ter desistido de terminar a funilaria, quando o arremataram pelo Mercadolivre, sem nem sequer uma pergunta. Certamente um presente dos deuses do metal a mim, pela minha contribuição de cerca de sete anos a eles com a banda! É isso aí, o tema da vitória toca pela segunda vez!

O valor que eu recebi foi mais que o suficiente para a funilaria, a qual eu faria com um amigo da família, que cobrou um preço irrisório pela mão-de-obra pelo fato de eu já ter adiantado uma boa parte e já entregar o carro desmontado. Se até sexta-feira era um projeto em hiato, no sábado ele já estava indo para as mãos do funileiro, que terminaria o que eu havia começado seis meses antes! E a melhor parte é que eu poderia sair do marrom, para uma cor que eu mais gostasse!

SPOILER!

Quer saber como ele foi de um Opala marrom 1977 almofadinha para um projeto SS6 1979 no melhor estilo bandido? Então fique ligado no próximo episódio, nesse mesmo Flat-canal e nessa mesma Flat-hora!

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