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Project Cars Project Cars #61

Project Cars #61: a despedida do meu Mercedes-Benz 190E 2.3-16 Cosworth

Por Sherman Vito, Project Cars #61

Amadurecimento. Não há palavra que descreva melhor o começo desse ano de 2019 e que provavelmente o fará até o final dele. Tanta coisa foi revista, repensada e reavaliada nos últimos meses que não há outra conclusão possível a não ser aceitar que a hora de virar gente finalmente chegou. E o que isso tem a ver com Sonia Mercedes? Explico.

Quando ainda tinha meu primeiro carro, um Kadett GL 1996, bastou uma volta no GSi conversível de um amigo pra ver que um GL não seria mais o suficiente. A diferença de características entre os dois era imensa, enquanto a diferença de valor era pouca. Vendi o antigo e fui atrás de um GSi. Encontrei, comprei, consertei. Hoje está “pronto”, mas o estrago já estava feito há tempos: o nascimento da vontade de ter as versões esportivas dos carros que sempre gostei.

Sendo um crédulo da teoria da atração, não precisei procurar pela maioria deles: eles simplesmente apareciam. Um link que um amigo mandava, uma publicação em rede social, um anúncio sugerido ou simplesmente uma tarde tediosa. O único pré-requisito era serem baratos (nunca vi sentido em se orgulhar de ter pago caro em qualquer coisa), não importando o estado de conservação ou até mesmo de documentação. Começou com o GSi amarelo. Hoje são dez, e uma moto.

Infelizmente, os melhores textos dentre as centenas de projetos que foram publicados aqui não conseguiriam descrever o tamanho real de um project car. Mesmo nos mais simples projetos, o mundo envolvido nas decisões, buscas de peças, fornecedores e mão de obra é tão grande que muitas vezes fica maior que o “projetista”. E quando tentamos medir o tamanho disso tudo, conseguimos arredondar isso pra duas clássicas variáveis: tempo e dinheiro. Seja você o tipo que prefere pagar pra alguém fazer e curtir o carro pronto ou seja você o tipo que prefere sujar as próprias mãos e se orgulhar de literalmente ter construído aquilo, como eu, você gasta mais um do que outro, mas sempre gasta os dois. Com dez, você multiplica tudo pelo mesmo número.

Multiplica-se também o espaço, tanto pro próprio carro quanto pra peças, ferramentas e pra manutenção de alguma peça. Multiplicam-se as chances de dar merda, seja com o fornecimento de uma peça ou de um serviço, que são rotineiras quando você inventa de mexer com coisas mecânicas e elétricas ao mesmo tempo, ainda mais em Brasília, que é uma roça fantasiada de cidade grande. E quando você divide tudo isso por um – eu –, a conta não fecha. Seu tempo acaba, seu dinheiro nunca sobra e sua saúde (física e mental) fica cada vez mais ferrada. Ou seja: esse número teria que diminuir. Mas a pergunta mais cruel de todas eu ainda não tinha conseguido responder: quem?

Nesse meio tempo, fui acostumando amargamente com a idéia de que o que eu tinha na garagem estava virando algo colecionável. Acaba sendo um futuro inevitável pra versões esportivas de qualquer carro, mas mesmo pra quem já havia pensado em projeto almejando placa preta, como eu, a realidade foi algo mais nauseante que se poderia prever. Carros que outrora eram usados majoritariamente por entusiastas e tinham valores justos de compra/venda e manutenção passam ter status de obra de arte: começam a ir para garagens chiques e só saem de casa para exposições esporádicas. Deixaram de ser carros e passaram a ser ativos financeiros. E com todo o próprio histórico do carro, somado a uma tendência mundial de valorização do modelo, a situação da 190E 2.3-16 não seria diferente.

Quem vê o carro como ativo financeiro naturalmente vê algo positivo nisso. Afinal de contas, os que pretendem vendê-lo saem no lucro real enquanto os que não pretendem podem arrotar que possuem um carro que vale “tanto”. Do outro lado, quem quer ter o carro pelo que ele é, como foi construído e como se comporta, não costuma se interessar muito por isso.

Pelo contrário: um carro que já costumava ter peças caras e difíceis de serem encontradas passa a ter essa característica cada vez mais ampliada, tendendo a inviabilizar que um reles mortal possa ter e usar um carro desses como se deve. Ou seja: pra quem gosta de usar o carro, muitas vezes a visão colecionista não só não é interessante como acaba atrapalhando esse objetivo de se realizar.

De um tempo pra cá, vimos isso acontecer com vários carros: nacionais como Charger, Mavericks, Opala, Kombi, Gol e importados como M3 E30 e os RS2, que muitas vezes ganham preço de maneira artificial e manipulada, coisa fácil de acontecer quando há poucos exemplares disponíveis no país e os donos se conhecem. Carros que algumas vezes não custavam o que atualmente se pede nem quando eram 0km agora caíram nas mãos de especuladores insuportáveis, que os anunciam com textos poéticos de 58 linhas, com palavras impactantes como RELÍQUIA, RARIDADE e NEO-COLECIONÁVEL geralmente em caixa alta e fazem toda a população acreditar que agora valem o que se pede. Quase toda, aliás. Pelo menos eu já tomei minha vacina.

Uma vez vi nosso estimado Barata comentando algo na mesma linha em uma live do ApC. Dentre vários assuntos, surgiu o papo sobre essa valorização súbita de determinados carros e nosso brasileiro-oriental foi categórico: se lamentar por um preço alto de um carro que você gosta não vai fazer o preço baixar. Ou seja, como os preços continuarão altos ou aumentando, lhe sobram basicamente duas escolhas: ou você fica rico e abraça a causa de uma vez, tendo que conviver com um pessoal que tem como objetivo principal da vida se preocupar se o emblema do seu carro está na posição correta, ou você “let it go”. Como ainda não cheguei no estágio de não me preocupar com as verdinhas e escolher a primeira opção, por hora ficarei com a segunda.

Por fim, uma simples definição de prioridades sentenciou de vez quem seria sacrificado: desde que tive a sorte de adquirir uma M3 há cerca de cinco anos, me apaixono mais pelo carro a cada quilômetro que ando com ele. E tecnicamente, a comparação chega a ser injusta, mas ela é superior à 190E em absolutamente todos os aspectos: da diversão à facilidade de encontrar peças e informações, não há qualquer comparação cabível entre as duas. Ou seja: se é para pensar racionalmente e se desfazer de alguém que faça diferença no fim das contas, esse alguém será dona Sonia.

No começo de maio ela foi encaminhada para uma oficina decente, que eu passei anos procurando e finalmente encontrei. Partindo da recomendação de um amigo (valeu, PH!), encontrei a Asa Diesel, onde testei a qualidade do serviço com o pior carro que eu tinha pra pintar. E fui convencido de maneira exemplar (sim, é um Kadett sedan).

Lá será dado um banho de tinta à sua altura, com o melhor que há no mercado no que diz respeito a produtos, profissionais e infraestrutura, para depois seguir caminho a uma outra garagem, onde torço para que seja tratada com o carinho que merece.

Portanto, ao fim do último capítulo de sua história de sete anos, enxergo o copo meio cheio: sua passagem pela minha vida, apesar de não ter seguido nem a metade do script que havia planejado, foi extremamente positiva. Passei por muita coisa que provavelmente não teria passado sem ela, onde aprendi a ir atrás de informação em outros idiomas e peças em outros países, me fazendo perder de vez o medo de ter um carro antigo importado.


E lá no fundo, alguém que vocês talvez possam se lembrar, ainda em hibernação esperando sua vez chegar

No mais, assim que essa etapa estiver concluída, espero finalmente poder dar andamento nos outros e curti-los antes que a vida passe demais. Mas apesar desta história ter acabado, continuamos no meio, trocando idéias e se ajudando sempre que possível. Afinal de contas, todo mundo sabe que gasolina e ferrugem, uma vez que entram no sangue, nunca mais saem. 

Um abraço!

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