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Project Cars Project Cars #61

Project Cars #61 – salvando um Mercedes-Benz 190E 2.3-16 Cosworth do abandono

E aí, meu povo! Meu nome é Sherman, tenho 27 anos e depois de fazer do PokeMonza, meu primeiro Project Cars aqui no FlatOut, chegou a hora de contar a história de meu projeto mais recente (pelo menos até hoje): Sônia Mercedes!

Uma vez formado e tendo começado a fazer um bico ali e outro aqui, já começava a ter um dinheirinho pra finalmente tocar alguns projetos pessoais acumulados em tanto tempo de vida de estudante quebrado. Começar a praticar Krav Maga foi um deles. E assim, por mais um motivo inicialmente aleatório, mais um carro velho entrou na minha vida.

Acontece que alguns amigos que estudavam na mesma faculdade ainda demorariam um pouco para sair de lá. Nisso, apesar de já ter formado, alguns hábitos adquiridos lá permaneciam, como a atualização da conversa da semana em um bar próximo a ela. E convenientemente, o dia do bar também era dia de treino na academia, próximos um do outro. E no caminho entre eles havia um carro.

É engraçado como depois de um tempo respirando carro, seus sentidos ficam mais aguçados pra certas coisas. Muitas coisas valiosas que às vezes passam despercebidas aos olhos de gente normal, chamam nossa atenção de uma maneira instantânea e arrebatadora. Um friso diferente, um jogo de rodas… às vezes pouca coisa já é o suficiente pra te fazer descobrir um modelo exclusivo no meio do mar de carros iguais. Nesse caso, o carro em si já era o chamariz necessário: um Mercedes Benz 190E.

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Ele ficava estacionado embaixo de uma árvore num estacionamento comercial no caminho entre a academia e o bar. Com os pneus vazios, a pintura queimada e com dois dedos de poeira por cima, além de alguns pequenos sinais de vandalismo, como a estrela do capô e os limpadores dos faróis que estavam ausentes, deu pra perceber que já havia um bom tempo que ela estava parada ali.

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Ainda que não tivesse parado pra ver melhor o carro, me pareceu ser bem íntegro e, mesmo naquele estado abandonado, me atraía com seu charme toda vez que eu passava na frente dele. E assim foi indo, até que num dia, passando pelo tal caminho, notei um papel colado no vidro pelo lado de dentro.

Apesar de não ter perspectiva alguma de arrematar aquela coisa imunda, tirei algumas fotos do carro e anotei o telefone do papel. “Vai que…”, pensei. Afinal de contas, pouco tempo atrás quase tinha fechado negócio em outra Mercedes, uma W126, por um preço bem convidativo. No entanto, quando descobri que ela era mais Chevrolet do que Mercedes, desisti da empreitada.

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Alguns dias depois, encontrei um amigo que estava restaurando um C280 Sport 1995 e conhecia mais de Mercedes do que eu e contei da 190E pra ele.

— Daniel, achei um 190E abandonado outro dia à venda. Cinza e tal… me pareceu bem bacana o carro. Fiquei pensando nele.

— Pô, velho… a 190E é muito show! Teve muito dela lá fora, capaz que você não apanhar muito pra restaurar uma se souber usar a internet. Já pensou se fosse uma 16V? Aí sim!

— 16v? E que diferença isso faz?”

— A 16v é uma versão esportiva da 190E com cabeçote desenvolvido pela Cosworth. É um esportivo respeitado no mundo inteiro. E aqui no Brasil, é mosca branca de olho azul!”

— Uau… espera, tem umas fotos dela aqui no telefone. Vê aí se é.

— Cara, é uma 16v! Dá um jeito de pegar esse carro!

Na verdade, dada minha situação profissional ainda instável e com o caixa bem minguado, sequer tive ânimo de ligar pra perguntar o preço. A reunião semanal no boteco, no entanto, continuava firme e forte, fazendo com que eu a visse pelo menos uma vez por semana. Até que um dia, depois de alguma procura, finalmente fui contratado com carteira assinada. Não chegava a ser nem o piso que um engenheiro deve ganhar, mas já era o suficiente pra me encorajar a ligar pra perguntar o preço do carro.

— R$ 14 mil.

— Mas como ela tá de mecânica? Tá funcionando e tal?

— Olha amigo, eu parei ela rodando há uns dois anos. Na época eu tinha feito o motor dela e precisava regular as válvulas (?), mas a vida mudou o rumo e eu acabei encostando ela.

—Ah sim… tranqüilo então. Vou dar uma pensada aqui e lhe retorno em breve.

E realmente pensei. Na época, havia dois exemplares aparentemente perfeitos à venda na internet sendo vendidos por valores de três a quatro vezes maiores. Procurando uma peça ou outra nos eBays da vida, supus que, independentemente o que o carro tivesse de errado, ainda valeria a pena arrematar, financeiramente falando. Quanto mais pela diversão de restaurar um carro, mal que eu já havia adquirido quando restaurei o Kadett. No entanto, com o salário que eu ganhava naquela empresa privada, eu nunca conseguiria juntar o dinheiro antes que aparecesse alguém com algum conhecimento da coisa e arrematasse o carro. Novamente, tive que me conformar e fui tocando a vida. Volta e meia ainda passava por ela, descia, e alimentava mais um pouco aquele amor platônico.

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Até que um dia, durante uma tarde no novo emprego, chegou um e-mail meio estranho: era um aviso de convocação pra um concurso que eu tinha feito havia dois anos, incentivado pelos amigos da faculdade, e que eu já tinha praticamente esquecido de ter feito. Depois da ficha cair, obviamente planos começaram a ser feitos. Pessoas normais pensariam em financiar um apartamento em Águas Claras, um HB20 novo, e uma viagem pra Miami. Eu fui comprar a Mercedes.

Entrei em contato com o dono, que já havia recebido algumas ofertas, e perguntei mais detalhes sobre o carro, já combinando uma primeira visita “íntima” à moça, coincidentemente no mesmo dia da posse. E o que eu vi me agradou.

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Me agradou por ter visto um motor Mercedes no cofre dela, com aparentemente tudo no lugar, me aliviando do trauma da última candidata à vaga na garagem. Também por ter visto um exterior praticamente completo, com todas as rodas e o bodykit original. Também por ter visto um interior com tudo no lugar — até mesmo o toca-fitas.

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O carro era dos mais completos possíveis e a parte ruim disso era vir com um broxante câmbio automático. Mas logicamente nada que desabonasse um carro daquela estirpe. Com o aval do mecânico, o negócio seria fechado.

Combinei de levar um conhecido antigo da família, que depois de muitos anos de oficina, se especializara em carros importados e era minha referência para os mesmos. Ele olhou o carro e, pelo que viu, não o condenou, dizendo que, se a história de o carro ter parado rodando fosse realmente verdade, o maior trabalho que eu teria seria com a injeção. Então, duas mãos se apertaram e o negócio foi fechado.

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Depois de acertar uma óbvia documentação atrasada, encontrei com o vendedor no cartório e preenchi o DUT no meu nome. Na ocasião, fiz mais uma visita a ela e já voltei pra casa com a chave e um belo souvenir: o manual do proprietário original!

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Já vinha pensando em como a chamaria. Aqui em casa, os carros além de nomes, têm codinomes. E ela, agora que seria minha, teria de ter o seu. Vários nomes femininos já tinham vindo à cabeça até então. Mas quando abri o manual, encontrei duas multas antigas e dois estranhos cartões personalizados. Depois do easter egg, definitivamente, não haveria mais dúvidas quando ao “nome” do carro.

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Na manhã do outro dia, eu embarcaria dentro do guincho pra levá-la pra casa. Depois de todo esse drama, aquele carro, já famoso por estar ali há tanto tempo, se despediria daquele estacionamento e eu finalmente realizava o sonho de ter uma Mercedes-Benz em casa.

No meio daquela euforia, mal sabia eu o que me aguardava. No próximo post, continuarei a contar a história de Sônia Mercedes, desde seu resgate até sua chegada na oficina, onde eu finalmente descobriria a dimensão do que estava por vir. Até lá!

Por José Sherman, Project Cars #61

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