Puma Al Fassi: a história desconhecida do Puma árabe de Muhammad Ali

Dalmo Hernandes 11 outubro, 2014 74
Puma Al Fassi: a história desconhecida do Puma árabe de Muhammad Ali

Em 1990 o último carro com a marca Puma foi fabricado no Brasil. Em 2014, mais de 20 anos depois, a Puma completaria 50 anos em atividade caso não tivesse sido extinta. Seu fim ainda é motivo de tristeza para muitos entusiastas mesmo depois de tanto tempo, visto que a Puma foi a mais bem sucedida fabricante de veículos fora de série no Brasil.

Quem se arrisca a imaginar como seria um Puma fabricado em 2014? Com a obrigatoriedade de sistemas de segurança como freios ABS e airbags frontais, dificilmente eles estariam usando como base o chassi dos VW refrigerados a ar. Talvez um chassi tubular, motores turbinados com arrefecimento líquido, como nos Lobini, mas com desenho clássico de Puma? Bem, não custa imaginar — mas dificilmente vai acontecer.

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Estamos falando disto porque na semana passada foi o aniversário de 50 anos da fundação da Puma —  no dia 2 de outubro de 1964 por Luiz Roberto Alves da Costa, Milton Masteguin, Mario César de Camargo Filho e Rino Malzoni. As sílabas iniciais de seus nomes foram usadas para formar a palavra Lumimari, que batizou a empresa que ficaria responsável por fabricar o esportivo GT Malzoni na cidade de Matão/SP. Dois anos depois, ao mudar-se para a capital do estado, a Lumimari virou Puma Indústria de Veículos S.A.

A história da Puma é bem conhecida e já foi recontada várias vezes. Para celebrar os 50 anos da nossa maior fabricante de automóveis fora de série, decidimos contar uma história sobre um Puma que nem todos sabem que existe, ou imaginam se tratar de uma lenda: o Puma Al Fassi, carinhosamente apelidado de “Alface” pelos entusiastas da marca.

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Nos anos 80 os tempos áureos da Puma já estavam relativamente distantes — dívidas com fornecedores e impostos em aberto levaram a marca a enfrentar alguns problemas financeiros e, em 1986 a Puma foi comprada pela empresa paranaense Araucária Veículos, sediada em Curitiba, no Paraná. Todos os recursos da antiga fábrica em São Paulo foram transferidos para a nova casa, mas a Araucária Veículos precisava de clientela se quisesse se manter no mercado — o ideal seria vender a maior quantidade de carros no menor tempo possível. Mas como?

Apesar da fase ruim em que se encontrava, a Puma ainda tinha suas representantes no exterior. O responsável pela sede da Puma nos EUA, que ficava em Houston, Texas, se chamava Kevin Haines. Por acaso, Haines era amigo do advogado de Muhammad Ali, admirador do esportivo brasileiro de fibra de vidro, e conseguiu convencê-lo a conversar com o boxeador sobre um projeto de investimento.

Muhammad Ali tinha se aposentado em 1980 e definitivamente não era um cara pobre — pelo contrário, era um dos esportistas mais bem sucedidos do mundo e detentor de uma enorme fortuna. O ex-boxeador achou que era uma boa ideia investir no Puma e, já em abril de 1987, desembarcou no Brasil com seu advogado, Richard Hirschfeld, um consultor e um engenheiro.

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Muhammad Ali nas ruas de Curitiba. Foto: Gazeta do Povo

A equipe veio com um objetivo bem definido: encomendar um lote de 1.440 carros para um xeque da Arábia Saudita que era amigo pessoal de Muhammad Ali — um investimento de US$ 36 milhões, ou US$ 25 mil por carro. Diz-se que estes modelos seriam enviados sem mecânica para os EUA, onde receberiam motor e câmbio de Porsche 911, e depois enviados para o Oriente Médio.

O xeque também adorava o Puma, mas pediu algumas alterações no projeto — a carroceria ficou mais larga e foram realizadas modificações nos faróis, para-brisa e tampa do porta-malas. Além disso, o interior ganhava um novo painel, com desenho mais sofisticado e acabamento em madeira para aproximá-lo dos esportivos europeus. O modelo se chamaria “Puma Al Fassi by Muhammad Ali” — Al Fassi por exigência do xeque, em homenagem a seu filho, e Muhammad Ali porque associar o nome do ex-pugilista ao carro certamente ajudaria nas vendas.

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Foram feitos três protótipos com a supervisão do próprio Ali, que ficou em Curitiba por três semanas: um cupê, um conversível e um terceiro carro, de carroceria desconhecida. O conversível vermelho das fotos é o único do qual se conhece o paradeiro — ele está sob os cuidados de Felipe Nicoliello, que mantém o site Puma Classic e é um dos maiores conhecedores do Puma do País.

O carro está muito bem conservado e, sem dúvida, é uma das maiores preciosidades para os amantes do Puma de todo o País (talvez até do planeta). Ele também está à venda — e naturalmente, por seu valor histórico, o preço não é exatamente baixo: são R$ 78 mil pelo privilégio de ter na garagem uma lenda da indústria automotiva nacional.

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Mas que fim levou a história do Puma Al Fassi? Aparentemente o projeto foi aprovado por Ali e pelo xeque e a produção dos primeiros exemplares para exportação teve início. Porém, ainda em 1987, o monarca árabe cancelou a encomenda por problemas burocráticos na Arábia que o impediam de importar carros formalmente. Foi um baque e tanto para a Araucária Veículos, que precisou transferir a produção do Puma para outra empresa, também em Curitiba: a Alfa Metais, que foi a última a fabricar o Puma no Brasil.

[ Fotos: Felipe Nicoliello. Com informações de Puma Classic e Gazeta do Povo ]