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Vídeo WTF?

Quando os holandeses fizeram uma corrida em marcha à ré em um autódromo de Fórmula 1

O automobilismo já é um esporte difícil por natureza. Mais até do que habilidade natural, é preciso dedicar boa parte do seu tempo se você quiser ser um bom piloto amador — e praticamente sua vida inteira se quiser ser um piloto profissional. O que nunca impediu o ser humano, esta criatura inquieta, de dificultar ainda mais as coisas só pelo desafio. É da nossa natureza. Mas uma corrida em marcha à ré?

Foi exatamente isto que alguns holandeses malucos fizeram no fim da década de 1970. Duvida? Então saca este vídeo. É uma das coisas mais bizarras e divertidas que você vai ver hoje:

Trata-se do Achteruitrijden, que pode ser traduzido como “dar a marcha à ré”. Aparentemente, era um programa de TV que consistia simplesmente em corridas bizarras realizadas no Circuito de Park Zandvoort, na cidade de Zandvoort, litoral da Holanda. O circuito, projetado com a ajuda de S. C. H. “Sammy” Davis, vencedor das 24 Horas de Le Mans de 1927, aproveitava em seu traçado estradas feitas pelos alemães durante a ocupação da Holanda na Segunda Guerra Mundial.

Zandvoort recebeu o Grande Prêmio da Holanda entre 1952 e 1985, com exceção dos anos de 1954, 1956, 1957 e 1972. Na última vez que a Fórmula 1 foi até lá, Nelson Piquet ficou com a pole, ao volante do Brabham BT54 – que era movido por um quatro-cilindros turbo de 1,5 litro que, nos treinos de classificação, podia chegar aos 900 cv a 10.500 rpm. Foi também a última pole position na história da Brabham, que foi extinta em 1992.

É curioso que um circuito tão importante na história da Fórmula 1 recebesse uma corrida tão bizarra quanto a Achteruitrijden, não? As provas eram televisionadas até o início da década de 1980, e também incluíam corridas de trailers rebocados por carros populares, as chamadas Caravan races. Não precisamos dizer que não era uma competição totalmente séria – bem mais importante que vencer era simplesmente chegar até o fim da corrida.

Se estiver mesmo a fim, você pode assistir a um programa na íntegra abaixo:

Agora, você deve estar se perguntando que carro é este que anda para trás tão rápido. Trata-se do DAF 600, que começou a ser vendido em 1959 e foi o primeiro automóvel produzido em série a contar com uma transmissão de relação continuamente variável, também conhecida como CVT.

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A chamada Variomatic era um projeto rudimentar, que consistia em duas polias cônicas e uma correia. Um sistema a vácuo movimentava os componentes do sistema, mudando a qualquer momento a posição da correia sobre as polias, proporcionando a relação continuamente variável. É mais fácil entender o sistema assistindo ao vídeo abaixo:

Em tese, o sistema é capaz de manter sempre o torque máximo do motor, independentemente da velocidade do carro, apenas adaptando a relação.

Um “efeito colateral” deste sistema é que não havia marcha ré, e sim um “modo reverso”, permitindo que o carro andasse para trás tão rápido quanto andava para a frente. Foi só uma questão de juntar uma coisa a outra para criar a Achteruitrijden – que é realizada anualmente até hoje na Holanda… só não passa mais na TV.

Agora, não foram apenas os DAF 600 que andaram de ré em Zandvoort no fim dos anos 70. No Grande Prêmio da Holanda de 1979, o lendário piloto canadense Gilles Villeneuve, foi forçado a voltar para a pista de ré depois que seu pneu traseiro esquerdo estourou na 51ª volta, pouco depois de passar pelos boxes. Muita gente se surpreendeu ao descobrir que um carro de Fórmula 1 tinha marcha a ré, mas a surpresa foi maior quando Villeneuve decidiu concluir a volta em apenas três rodas, soltando borracha por todos os lados e provocando faíscas que voavam pelo ar.

Alguns reprovaram a atitude, dizendo que era altamente irresponsável e que Villeneuve havia sido movido pela emoção. Outros, porém, interpretaram o acontecido como uma demonstração pura de espírito competitivo. De qualquer forma, no fim da volta a suspensão da Ferrari 312T do piloto estava danificada demais para que ele prosseguisse com a corrida.

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Aliás, dos carros que largaram naquele dia, apenas sete terminaram a prova, que era a 12ª etapa da temporada de 1979. Villeneuve, depois da corrida, ficou na quarta posição na classificação geral, e ainda conseguiu o vice-campeonato atrás do colega de equipe Jody Scheckter – que, até hoje, é o único sul-africano campeão de Fórmula 1 na história.

 

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