Quando uma perua Fiat derrubou o presidente do Brasil

Leonardo Contesini 19 maio, 2017 0
Quando uma perua Fiat derrubou o presidente do Brasil

Em 1989 o Brasil elegia um presidente pela primeira vez em três décadas. O escolhido era Fernando Affonso Collor de Mello, um carioca de Alagoas que prometeu acabar com a velha política brasileira, acabando com as regalias de servidores públicos com supersalários, caçando corruptos, vestindo os descamisados e calçando os pés descalços.

Collor também prometeu expandir a economia brasileira, abrir nosso mercado para as importações e reduzir a interferência do Estado na economia, iniciando um plano de privatizações. Era um personagem perfeito para o espírito da época, que acabara de presenciar a ruína da União Soviética e dos ideais socialistas.

Sua imagem jovem e atlética também colaborou com essa ideia de renovação. Eleito aos 40 anos, Collor foi o presidente mais jovem da história do Brasil, e fazia questão de ser filmado e fotografado praticando exercícios físicos e artes marciais, voando de carona em caças da FAB, pilotando lanchas, jet skis ou ainda a única Ferrari F40 da América Latina na época.

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Além disso, o presidente dispensou a mudança para o Palácio da Alvorada, preferindo viver em sua própria mansão em Brasília, a Casa da Dinda, e também era visto com alguma frequência dirigindo seus carros, dispensando seu motorista particular. O Chevrolet Diplomata oficial da presidência também foi dispensado por Collor, que chamou os carros brasileiros de “carroças” e preferiu adotar um Mercedes-Benz Classe S, um Lincoln Town Car e um Alfa Romeo 164 para uso presidencial.

Logo ao chegar ao poder, contudo, Collor mostrou que por baixo da embalagem moderna havia um produto igual a todos os demais. Já nos primeiros três meses de mandato, o jovem presidente se viu envolvido em suspeitas de corrupção que culminaram com seu impeachment.

As denúncias de corrupção envolviam Paulo César “PC” Farias, tesoureiro da campanha presidencial de Collor e um dos braços-direitos do presidente durante sua gestão. As denúncias se referiam a um grande esquema de tráfico de influência que acabou conhecido como Esquema PC Farias. Não havia nenhuma novidade no sistema: com trânsito livre entre o empresariado e acesso aos bastidores do poder, PC Farias cobrava propinas de empresas para favorecer nomeações de cargos e decisões governamentais favoráveis aos empresários corruptores.

O dinheiro das propinas era depositado em contas de empresas-fantasma, controladas por testas-de-ferro de PC Farias em todo o Brasil e até no exterior.

As suspeitas deste esquema começaram ainda em 1990, quando o presidente da Petrobras renunciou após sofrer pressão de PC Farias para financiar um empréstimo de US$ 40 milhões à Vasp. Mesmo com a proposta rejeitada pelo conselho da Petrobras, PC Farias continuou a pressionar o empréstimo, o que culminou na renúncia do presidente da estatal.

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A acusação mais grave, contudo, veio em 1992: o próprio irmão do presidente Collor, Pedro Collor, disse à revista Veja que PC Farias era um testa-de-ferro do presidente e que influenciava fortemente as decisões do governo. Pedro deu detalhes à revista, chegando a afirmar que o jornal “Tribuna de Alagoas”, que PC Farias planejava lançar em Maceió era, na verdade, propriedade de Fernando Collor, e que um apartamento que PC Farias havia comprado em Paris também pertencia ao presidente.

Com as declarações o Congresso iniciou em maio de 1992 uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a responsabilidade do presidente em relação aos fatos revelados por seu irmão Pedro. Durante a CPI, o motorista da secretária de Collor, Eriberto França, revelou que uma das empresas de PC Farias era responsável pelo pagamento das despesas regulares da Casa da Dinda e até mesmo pelo “abastecimento” da conta corrente da primeira-dama, Rosane Collor, o que reforçou as acusações de Pedro Collor.

O presidente negou as acusações, chegando a dizer que não tinha nenhum tipo de vínculo com PC Farias, mas naquele mesmo mês o ex-tesoureiro foi chamado para depor na CPI e apontou que depósitos de suas empresas foram feitos na conta da secretária particular do presidente. Até aí não havia nenhuma comprovação do envolvimento direto de Collor com o Esquema PC Farias.

A evidência que ligou o presidente ao esquema foi descoberta por Jorge Bastos Moreno, jornalista do jornal O Globo: ele conseguiu a cópia de um dos cheques usados para comprar o carro particular da primeira-dama Rosane Collor, uma perua Fiat Elba Weekend prata, ano 1991. O carro havia sido comprado pelo motorista Eriberto França com cheques que estavam em nome de um correntista fantasma de PC Farias.

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Foto: Gustavo Miranda/O Globo

Ironicamente, o presidente que gostava de adrenalina, andava de jet ski, pilotava Ferraris e dirigia seus carros acabou vinculado ao esquema de corrupção e derrubado do poder por uma de suas queridas máquinas. Pior: o carro não era um modelo de luxo ou um superesportivo, mas uma das “carroças” brasileiras às quais ele se referiu ao reabrir as importações.

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Com a evidência do envolvimento do presidente Collor no Esquema PC Farias, foi aberto o processo de impeachment que resultou em sua renúncia em 29 de dezembro de 1992, horas antes de ser impedido de prosseguir no cargo pelo Congresso Nacional.

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Com o afastamento de Collor seu vice-presidente, Itamar Franco, assumiu o cargo, e seu governo também acabou marcado pelo envolvimento com um carro, mas desta vez tudo aconteceu dentro da lei: ao criar uma série de incentivos para os chamados carros populares, Itamar abriu uma brecha que favorecia a volta da produção do Fusca — e é por isso que os Fuscas produzidos entre 1993 e 1995 são popularmente conhecidos como “Itamar”. Mas isso você já sabia.

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Foto: Correio Braziliense

Quanto à Elba de Collor, ela ainda existe: em 2005 o jornal Correio Braziliense descobriu que o carro estava abandonado, porém ainda registrado em nome de Fernando Affonso Collor de Mello.