“Race Developed”: a história da mítica Yamaha RD350, a “Viúva Negra”

Dalmo Hernandes 12 junho, 2018 0
“Race Developed”: a história da mítica Yamaha RD350, a “Viúva Negra”

Há alguns dias falamos aqui sobre algumas motos da Honda – primeiro foi a CB750, famosa “Sete Galo”; e depois sobre a Honda Monkey, mini-moto de 50 cm³ que fez sucesso entre crianças e adultos por décadas. Hoje vamos equilibrar as coisas e falar sobre a maior rival da Honda no mercado brasileiro, a Yamaha. E vamos começar com o pé direito, contando a história de uma das motocicletas mais adoradas (e temidas) de todos os tempos: a Yamaha RD350, também conhecida como “Viúva Negra”.

No Brasil ela foi vendida por um breve período nos anos 70, e depois entre 1986 e 1993, sendo que segundo modelo era bem diferente do primeiro. Em comum, porém, as gerações têm o motor dois-tempos e a fama de perigosas, ou mesmo mortais.

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A Yamaha RD foi lançada lá fora (ou seja, no Japão, nos EUA e na Europa) em 1973. Há algumas versões para o significado da sigla “RD”. As explicações mais populares dizem que é um acrônimo para Race Developed ou Road Developed – algo como “desenvolvida para corridas” ou “desenvolvida para as ruas”, respectivamente, em tradução livre. No entanto, não há nenhuma referência a estes significados na literatura oficial da Yamaha.

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A explicação mais plausível tem a ver com a primeira moto feita pela Yamaha, a YA-1 “Red Dragonfly” (“libélula vermelha”, em português), lançada em 1955. Logo de cara a fabricante japonesa foi tentar a sorte nas corridas de moto dos EUA, conseguindo resultados consistentes desde o início. Então, existe uma grande possibilidade de que o “RD” seja uma referência à Red Dragon, que tinha um motor monocilíndrico de 125 cm³, e logo conseguiu a reputação de ser uma moto bem construída e confiável.

Não era a primeira moto com motor dois-cilindros dois-tempos de 350 cm³ – este título vai para a Yamaha YR1, de 1967, cujo motor de dois cilindros tinha desenho extremamente simples.

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A simplicidade já era algo inerente aos dois-tempos, claro – eles dispensavam trem de válvulas, com a mistura ar-combustível entrando e os gases da combustão saindo de dentro da câmara por janelas. Nas Yamaha dois-tempos anteriores à RD, o fluxo dentro do cilindro era controlado pelo próprio pistão, que ao se movimentar dentro da câmara de combustão, abria e fechava as janelas para dar passagem ao combustível e aos gases. Nos motores dois-tempos os ciclos de funcionamento não são bem definidos como acontece em um quatro-tempos, o que resulta em maior consumo e em uma curva de força bastante violenta: se potência e torque em baixa não são o forte de um dois-tempos, a coisa muda totalmente ao passar de determinada faixa de rotações.

Dito isto, quando a RD350 foi lançada, a Yamaha incorporou ao projeto do dois-cilindros uma importante alteração: a válvula de palheta (reed valve), que ficava na admissão, entre a entrada para o cilindro e o carburador. Esta válvula se abria progressivamente e ajudava a aumentar a compressão em baixas rotações, melhorando o torque em uma condução mansa, ficando totalmente aberta entre 5.500 rpm e 9.000 rpm para garantir que o motir funcionasse em seu rendimento máximo.

A RD350 lançada em 1973 tinha arrefecimento a ar e visual conservador, com um boa dose de cromados, tanque arredondado e dois amortecedores na traseira, mas era considerada uma motor esportiva graça a seu desempenho: com 39 cv, era capaz de chegar aos 180 km/h. E foi muito bem recebida quando desembarcou no Brasil em 1974.

Muito popular entre os jovens, a RD350 tinha facilidade para encarar motos de maior cilindrada e eram famosas nos pegas de semáforo com a Honda 750 Four. Mas não era qualquer um que estava preparado para pilotar rápido uma RD350. Mesmo com a válvula de palheta o motor não era exatamente delicado na entrega de potência, tornando a moto arisca demais para ser controlada por mãos inexperientes.

Além disso, havia a questão dos freios, que eram a tambor nos primeiros exemplares e, em situações de emergência, não eram eficientes o bastante para segurar a RD350. Como naquela época o capacete não era obrigatório e, por consequência, frequentemente dispensado, o número de fatalidades logo rendeu à moto da Yamaha o apelido de “Viúva Negra”. Ao menos esta é a história que se conta há décadas.

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O caso é que, por coincidência, o mercado brasileiro fechou os portões para veículos importados em 1976, o que encerrou temporariamente a carreira da RD350 no Brasil. Mas a história estava só começando.

Lá fora, em 1976 a RD350 deu lugar à RD400, que obviamente tinha o motor um pouco maior: aumentando o curso dos pistões de 54 mm para 62 mm, porém mantendo o diâmetro de 64 mm, a Yamaha ampliou o deslocamento de 347 cm³ para 399 cm³. Agora com 44 cv a 7.000 rpm, a RD400 era ligeiramente mais dócil e mantinha o estilo de sua antecessora.

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Mas em 1980 a Yamaha decidiu substituí-la por uma nova RD350 – em parte, pelo carisma que o modelo tinha. Com direito a um novo motor de  347 cm³. Apesar de ter as mesmas medidas do anterior, este motor dois-tempos trazia outras duas novidades: arrefecimento líquido (levando a moto a ser batizada RD350 LC, de liquid cooling) e, a partir de 1983, o sistema YPVS, ou Yamaha Power Valve System.

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Este sistema consistia em uma válvula eletrônica posicionada na janela de escape do motor. Ela visava complementar a atuação da válvula de palheta: até os 5.500 rpm, esta válvula ficava parcialmente, pressurizando os gases de escape e aumentando a compressão em rotações baixas, acentuanto o torque. A partir das 5.500 rpm, a válvula ficava totalmente aberta, possibilitando ao motor trabalhar sem restrições. Por conta de sua localização, por vezes o YPVS é confundido com um sistema turbo, mas isto não é verdade.

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O que é verdade: nas motos fabricadas no Japão, o novo motor 350 entregava impressionantes 59 cv, levando a RD350 LC a atingir mais de 200 km/h. Pouco tempo depois, porém, veio a boa notícia: em 1985 a Yamaha abriu uma fábrica no Brasil, na Zona Franca de Manaus, a fim de centralizar por aqui a fabricação de suas motocicletas. E a RD voltou a ser vendida no Brasil em 1986.

Era uma moto diferente. O motor tinha comportamento mais linear e dócil, havia freios a disco na dianteira, a suspensão traseira foi uma das primeiras do Brasil (e do mundo) a adotar apenas um amotecedor, e o visual da moto estava bem mais moderno, com linhas retas em abundância e uma pequena carenagem opcional que, de início, movia-se junto com o guidão.

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Apesar de ser uma moto mais controlada, a RD350 herdou o apelido e a reputação da Viúva Negra dos anos 70. Vale observar que, por aqui, a qualidade inferior do combustível levou a Yamaha a recalibrar o motor, o que resultou em uma perda de 4 cv – a RD350 LC nacional tinha 55 cv, e não 59 cv. Sua velocidade máxima ficava nos 199 km/h.

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As motos fabricadas no Brasil abasteciam o mercado interno, mas também eram exportadas. Em 1988 a RD ganhou uma nova carenagem, completa, fixada ao quadro da moto e não ao garfo – a moto ficou mais imponente. A partir de 1991, a carenagem ficou ainda maior, cobrindo boa parte dos componentes mecânicos e adotando faróis duplos circulares.

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Isto trouxe um ar de novidade à RD350, mas na prática ela ainda era uma moto do início dos anos 80. Garfos, freios, quadro e demais aspectos da motocicleta eram inadequados ao padrão da década de 1990, o que levou a Yamaha a encerrar as vendas no Brasil em 1993 sem deixar uma substituta à altura.