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Rally dos Sertões: a história do cross-country que atravessa o Brasil há quase 30 anos

No último domingo, dia 25 de agosto, foi dada a largada na 27ª edição do Rally dos Sertões. Trata-se, simplesmente, do maior evento de rali cross country (ou rallly raid) realizado no Brasil. Centenas de participantes em carros, motos, quadriciclos e UTVs, percorrem milhares de quilômetros de estradas pelo interior do Brasil todos os anos, naquela que se tornou uma das mais aguardadas competições do esporte a motor nacional.

Mas você sabe como surgiu o Rally dos Sertões, e conhece o histórico de evolução da competição nestes 27 anos? Se não sabe, pode ficar tranquilo – a gente vai explicar.

O Rally dos Sertões teve um precursor: o Rally São Francisco, realizado apenas no ano de 1991. A prova foi idealizada e organizada por Chico Morais, arquiteto e entusiasta dos ralis. A inspiração foi o Rally Dakar (na época, ainda Paris-Dakar) – exceto que a prova era aberta apenas para motocicletas. O percurso começava na cidade de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, e terminava em Maceió, capital do Alagoas. A maior parte do trajeto ladeava o rio São Francisco.

Foto: Studio Chico Morais

Uma segunda edição estava planejada para o ano de 1992, mas não veio a acontecer. No entanto, a semente já estava plantada e, em 1993 foi realizada a primeira edição do Rally dos Sertões. No total, 34 motociclistas se inscreveram para disputar a prova, percorrendo mais de 3.400 km entre Campos do Jordão/SP e Natal/RN. Um detalhe interessante era que o roteiro tinha um tema: a história de Luiz Gonzaga, compositor de “Asa Branca” e outros clássicos da música nordestina. Assim, o trajeto passava por cidades ligadas a história do sanfoneiroEm 1994, os pontos de partida e chegada seguiram os mesmos, mas o trajeto foi ampliado para cerca de 4.500 km, e 44 pilotos participaram.

As duas primeiras edições do Rally dos Sertões foram dedicadas exclusivamente às duas rodas. Em 1995, porém, uma parceria dos organizadores com a revista 4×4 & Cia propôs a inclusão dos automóveis. Assim, naquele ano, estreou a categoria Sertões 4×4, com carros ao lado das motocicletas. Foi graças a esta mudança de direcionamento que o Rally dos Sertões começou a ganhar notoriedade e, em 1996, contou com a participação de competidores internacionais – incluindo o motociclista italiano Edi Orioli, que venceu o Rally Dakar em 1988, 1990, 1994 e 1996. Foram inscritos oito carros, e a largada aconteceu no sul de Minas Gerais em direção a Fortaleza, no Ceará.

O ano de 1996 marcou a primeira edição do Rally do Sertões organizada pela empresa Dunas Race, aberta com esta exclusiva finalidade. Com isto, o caráter amador das primeiras provas deu lugar a um evento mais profissional, contando até mesmo com o apoio de organizações como a CBM (Confederação Brasileira de Motociclismo) e a CNR (Comissão Nacional de Rali). Com isto, houve uma ênfase maior nos aspectos técnicos da prova, incluindo vistorias nos veículos e apuração dos resultados. Novamente o destino era Fortaleza, mas a largada aconteceu na capital paulista. No total 73 veículos, entre motos e carros, participaram da prova.

(Nota: É importante lembrar que foi em 1996 que o então motoboy Marcos Martines Neto embarcou na aventura épica de participar do Rally dos Sertões. Publicamos alguns de seus depoimentos aqui – vale a releitura para entrar no clima.)

No ano seguinte, com a maior exposição, o Rally dos Sertões começou a atrair mais patrocinadores, incluindo fabricantes de automóveis. Land Rover, Mitsubishi, Kia, Suzuki e Subaru contribuíram com a divulgação do evento e forneceram peças, equipamentos e pessoal para dar apoio aos competidores na edição de 1997, que teve a largada em Mariporã/SP e terminou em Natal/RN.

Na edição de 1999 estreou a categoria dos caminhões – mais uma medida para diversificar o elenco, que nos anos seguintes ganhou a presença de quadriciclos e UTVs (que são como quadriciclos de dois lugares com volante, e também são chamados de side by side).

Desde 2001, o Rally dos Sertões conta com uma equipe de limpeza que se dedica a recolher todo o lixo e quaisquer resíduos deixados pelos competidores – a Ação Ambiental, também conhecidos como “Canastras”. Seu trabalho começa logo após a largada do primeiro caminhão, e eles vão pela trilha recolhendo pneus, fragmentos dos veículos e todos os resíduos dos acampamentos. Esta equipe também é a responsável por analisar os eventuais danos a propriedades particulares, cujos proprietários são indenizados mais tarde.

Em 2005, o Rally dos Sertões passou a fazer parte do calendário da FIM, a Federação Internacional de Motociclismo – a mesma organização que cuida do Campeonato Mundial de Superbike –, integrando o Campeonato Mundial de Rali Cross-Country. No ano anterior, um membro da FIM veio conferir de perto o evento, que já tinha bastante importância no motociclismo off-road. O representante decidiu homologar o Rally dos Sertões junto à Federação. Também em 2005 aconteceu a estreia da categoria Regularidade, voltada a pilotos amadores, cujo foco está na capacidade de passar pelos checkpoints no horário programado. Além disso, aquele foi o primeiro ano no qual o início e o final da prova aconteceram em Goiás – fato que veio a se repetir em 2013.

A edição de 2019 foi a primeira na qual a largada aconteceu em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. A chegada está marcada para o dia 1º de setembro em Aquiraz, no Ceará.

 

O Rally dos Sertões 2019

Atualmente, o Rally dos Sertões conta com cinco categorias principais: Motos, Quadriciclos, UTVs e Carros (os caminhões ficaram de fora desta vez). As Motos são divididas em cinco subcategorias – Super Production, para motos de 250 a 1.300 cm³ e preparação livre; Production Aberta, para motos originais de fábrica com deslocamento de até 700 cm³; Marathon, que segue as mesmas regras da Production Aberta, mas admite apenas motos de 250 a 450 cm³; Over 45, que segue o mesmo regulamento da Super Production, porém é voltada a pilotos com mais de 45 anos de idade; 230, exclusiva para a Honda CRF230; e Self, para pilotos competindo sozinhos (sem uma equipe de apoio) com motos de qualquer cilindrada. Todas as categorias para motos permitem que os pilotos levem até dois motores reserva, lacrados, que podem ser instalados a qualquer momento.

A categoria dos quadriciclos permite veículos 4×2 e 4×4, com deslocamento de até 1.300 cm³. Também há uma categoria Self para quadriciclos. Já os UTVs formam uma categoria atípica, com motor padronizado de 89 cv e capacidade para atingir até 130 km/h.

Os carros são divididos em cinco subcategorias, sendo três para protótipos (T1-FIA, Protótipo-T1 e Pró Brasil) e duas para veículos produzidos em série (Super Production e Production-T2). Em todas elas pode-se utilizar carrocerias de fibra de vidro, mas apenas na Super Production e Production-T2 esta carroceria deve ser igual à de um automóvel que tenha pelo menos 1.000 unidades fabricadas.

Na edição de 2019 estão inscritos 302 participantes, disputando em 187 veículos (66 Motos, 60 Carros, 55 UTVs e 6 Quadriciclos), a prova deste ano prevê oito etapas e mais de 2.832 KM de especiais cronometradas. No total a caravana do Sertões vai percorrer 4.857km até a chegada, dia 1 de setembro em Aquiraz

A edição de 2019 contará com oito etapas, passando pelos estados de Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás, Tocantins, Piauí e Ceará. Uma das etapas será uma maratona em Jalapão, no Tocantins, onde os competidores passarão 36 horas sem a assistência das equipes. As etapas terão entre 400 e 900 km de extensão, sendo que o percurso completo terá 4.857 km. Os trechos cronometrados (os chamados Especiais) somarão 2.800 km.

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