Ramchargers: o grupo de jovens engenheiros que transformou a Chrysler em um ícone das arrancadas

Dalmo Hernandes 16 fevereiro, 2017 0
Ramchargers: o grupo de jovens engenheiros que transformou a Chrysler em um ícone das arrancadas

No fim da década de 1950, um grupo de engenheiros entusiastas que trabalhavam para a Chrysler começou a se reunir, todos os dias na hora do almoço, para falar sobre carros de corrida. Eles eram caras que se interessavam mais do que o normal por velocidade, e a maioria deles tinha project cars nos quais trabalhavam fora do expediente.

Não demorou muito para que estes caras juntassem suas ideias em um único projeto, e acabassem se tornando uma equipe de corrida. O nome do grupo? Ramchargers. E nós vamos contar sua história.

Quando falamos em “equipe de corrida”, nos referimos a uma equipe de arrancada. Era esta a principal modalidade automobilística nos EUA, tanto nas dragstrips, em campeonatos de verdade, quanto nos retões das rodovias e nas saídas de semáforo. Claro, havia a Nascar, mas lá ou você fazia parte da equipe ou ia assistir no autódromo. As arrancadas eram infinitamente mais acessíveis para quem queria participar da corrida. As arrancadas, legais ou ilegais, eram o automobilismo do povo.

Este contexto é importante, porque só sabendo dele é possível entender a importância dos Ramchargers na transição entre as décadas de 50 e 60, bem como seu legado para os muscle cars que vieram depois e consolidaram de vez o universo das drag races.

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Tudo começou no Chrysler Engineering Institute, uma espécie de escola para engenheiros que a fabricante americana mantinha naquela época. Voltada a engenheiros mecânicos recém-formados, o instituto dava aulas e fornecia oficinas laboratórios de pesquisa aos alunos. No fim do curso, cada um deles recebia um diploma de mestrado e, muitas vezes, uma vaga na companhia.

Tom Hoover, Tom Coddington, Wayne Eriksson, Dave Rockwell, Herman Mozen e Dan Mancini. Todos estes nomes podem não ser lembrados como lendas do automobilismo, mas todos eles são respeitados pela comunidade da arrancada norte-americana. Eles não eram os únicos membros dos Ramchargers, mas estavam entre os primeiros. Ao longo dos anos foram mais de 30 integrantes, que entravam e saíam da equipe várias vezes por causa de suas agendas profissionais.

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No início, não passava mesmo disto: uma reunião na hora do almoço, em uma mesa perto da janela, onde os caras discutiam por pouco mais de uma hora o andamento de seus projetos, que na maioria das vezes eram carros de arrancada. Era uma forma bem interessante de dividir informações e compartilhar dicas e, pelo visto, funcionava – os meses iam passando, e os jovens gearheads perceberam que seus carros estavam ficando melhores e mais rápidos.

Em questão de semanas, as reuniões deixaram de acontecer apenas na hora do almoço e passaram a acontecer também depois do expediente, de início no apartamento de um deles. Foi nesta época que o nome Ram Chargers (assim mesmo, em duas palavras) foi escolhido. Segundo consta, a inspiração foi o trabalho que a Chrysler fazia com ram tuning – preparação que consiste em aumentar otimizar o fluxo de ar pelo motor e, com isto, conseguir mais potência.

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Algumas reunições depois, no fim de 1958, veio a ideia de juntar as mentes e os esforços de todo mundo para construir um projeto de arrancada. Novamente, nada muito sério, apenas um carro rápido feito para dar umas puxadas nos fins de semana, em campeonatos regionais de arrancada. Cada membro – eram 21 no total – contribuiu com US$ 30, o que dá  US$ 630 ou cerca de US$ 5.300 em dinheiro de hoje (coisa de R$ 770 per capita ou R$ 16.200 no total).

O Plymouth Business Coupe não era o carro mais potente de seu tempo, e nem o mais moderno. Mas, entre os produtos da Mopar feitos depois da Segunda Guerra, era o mais barato, o mais leve e o que tinha o entre-eixos mais curto. Dadas as circunstâncias, era perfeito.

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Os 21 membros se dividiram em departamentos, e cada departamento seria responsável por uma parte do carro: Tom Hoover e Skip McCully chefiavam o grupo responsável pelo motor; Herman Mozer ficou responsável por dirigir a equipe da carroceria. O chassi teve seu desenvolvimento coordenado por Troy Simonsen, enquanto Dick Burke e Fred Gluckson ficaram encarregados de liderar o desenvolvimento de suspensão, direção, rodas, freios e pneus.

O projeto foi batizado de Ram Rod, por razões óbvias, e era diferente de qualquer coisa que estivesse nas dragstrips da época: o entre-eixos foi reduzido em alguns centímetros, o motor e toda a porção dianteira do chassi foram elevados ao ponto de o virabrequim ficar a 90 cm do chão, e os oito canos do sistema de escape (um para cada cilindro) brotavam dos para-lamas, quatro de cada lado. O motor era um V8 de 354 pol³ (5,8 litros) vindo de uma picape da Dodge, com cabeçotes da versão de 392 pol³ (6,4 litros)  e um comando de válvulas mais agressivo para respirar melhor. A transmissão era manual de três marchas – as robustas caixas automáticas de duas marchas só apareceriam anos mais tarde.

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Por que uma mudança tão radical? O princípio era simples, de física pura: os Ram Chargers chegaram à conclusão de que um carro de arrancada precisava ter entre-eixos curto e um centro de gravidade relativamente alto, a fim de melhorar a transferência de peso na hora da largada, melhorando assim a tração dos pneus traseiros. Era o mesmo princípio que justificava a existência dos Gassers, que estão entre os primeiros carros de arrancada regulamentados pela NHRA (National Hot Rod Association, primeiro e maior orgão regulador da categoria). No entanto, o entre-eixos encurtado e as modificações na carroceria o colocavam em outra categoria: a dos Altered (Alterados). Por causa do motor lá no alto, o Ram Rod foi rebatizado como High & Mighty – que pode ser traduzido como “Alto e Poderoso”.

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E, ao que tudo indica, funcionou: os Ram Chargers começaram a participar de competições por toda a região de Detroit, e não foi preciso esperar muito pela fama. Logo em sua estreia, em 1959, o High & Mighty conseguiu atingir a velocidade recorde de 117 mph (188 km/h) e, anos mais tarde, foi o segundo melhor de sua categoria com um quarto-de-milha de 11,8 segundos.

Foi nesta época que os Ram Chargers passaram a se chamar Ramchargers, por causa de um erro de digitação em uma matéria de jornal. Em vez de mandar uma correção, eles simplesmente mudaram de nome. Se a preocupação era correr, para que esquentar a cabeça com detalhes bobos como este?

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A Chrysler começou a prestar mais atenção nos Ramchargers depois do sucesso do High & Mighty, e no ano seguinte ofereceu a eles uma proposta: de modo informal, eles trariam as lições aprendidas na pista de arrancada para a companhia, e em troca teriam apoio financeiro e receberiam componentes que ainda não estavam liberados para o público, a fim de testá-los. Parecia um bom negócio, e os caras toparam na hora.

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Conta-giros original do High & Mighty. Às 5.500 rpm: “SHIFT! (dammit)”

Entre 1961 e 1967, os Ramchargers foram os grandes responsáveis pelo reconhecimento da Chrysler como uma das potências da arrancada, conquistando dezenas de vitórias em campeonatos da NHRA e da AHRA (American Hot Rod Association). Dodge Challenger e Dodge Coronet estampados com o nome do time faziam sucesso e conseguiam exatamente o que a Chrysler queria: conquistar o público jovem. Eles queriam vender carros para os moleques que tiravam rachas de madrugada para impressionar garotas. As coisas eram diferentes mesmo naquela época…

No entanto, foi mais ou menos durante este período que as coisas começaram a ficar um tanto chatas para os Ramchargers. Não porque a Chrysler jamais chegou reconhecê-los como uma divisão de competição oficial, nem era isto que eles desejavam. Mas porque as coisas estavam ficando sérias demais: o compromisso em contribuir com o desenvolvimento de projetos e componentes para a fabricante era real, e foi preciso até formalizar a abertura de uma companhia. Não era mais divertido, e sim meio que uma extensão do trabalho.

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Além disso, houve um momento em que todos precisaram optar entre profissionalizar a coisa e passar a viver de arrancadas. Parte dos Ramchargers decidiu sair do grupo e voltar à rotina de trabalho normal dentro da Chrysler, mas outros seguiram adiante e transformaram o clube em uma companhia de verdade, a Ramchargers Racing Engines.

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Depois de continuar disputando arrancadas até 1978, a Ramchargers Racing Engines seguiu como preparadora aftermarket até meados dos anos 2000, quando encerrou as atividades devido à situação financeira dos EUA. As portas fecharam definitivamente em 2007, encerrando uma história de quase meio século.

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Ah, você quer saber o que aconteceu com o High & Mighty? Depois de aposentado, ele foi desmontado e vendido em peças. Os caras não eram muito apegados às coisas materiais naquela época.

Existe, contudo, um High & Mighty II, que foi feito em 2009 por outro grupo de funcionários da Chrysler chamado Chrysler Employees Motorsports Association (CEMA) e levou dois anos para ficar pronto. Ele foi feito para ser o mais fiel possível ao original, e os fundadores do Ramcharger estiveram no evento de apresentação. Olha só:

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