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Red Barchetta: como um conto gearhead inspirou um dos maiores sucessos do Rush

Uma das maiores bandas de rock do planeta é o Rush, power trio canadense de rock progressivo — aquela vertente viajada, às vezes psicodélica, às vezes extremamente técnica, com canções conceituais e muitas vezes longas, que contam histórias fantásticas ou inspiradas em eventos reais passados ou contemporâneos.

A voz aguda de Geddy Lee e sua técnica apurada no baixo, os licks, riffs e solos de Alex Lifeson e a bateria técnica e extremamente criativa de Neil Peart já se juntaram para criar algumas das canções mais memoráveis da história do rock progressivo — Tom Sawyer, Fly By Night e o clássico absoluto Closer to the Heart, para ficar só nas mais famosas.

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E os caras já estão nesta formação clássica há 41 anos. Na melhor forma possível, diga-se — como pode ser comprovado na turnê do último álbum, Clockwork Angels, que é o 20º da carreira do Rush e foi lançado em 2012. O show pode ser assistido na íntegra abaixo.

Mas por que estamos falando tudo isso? O que o Rush tem a ver com carros?

Muita coisa, meus amigos — especialmente pelo baterista, Neil Peart, que é principal letrista do grupo e entusiasta de primeira, apaixonado por esportivos italianos clássicos, miniaturas e motocicletas. Prova disso é a música Red Barchetta, de 1981.

red barchetta

A música é a faixa 2 do seminal Moving Pictures, amplamente considerado um dos maiores clássicos do Rush, que também contém a já citada Tom Sawyer e o clássico instrumental YYZ. 

Ao lado destas músicas, Red Barchetta é uma das músicas que mais constantemente aparecem em setlists de shows e é um prato cheio para os fãs do virtuosismo dos canadenses, com um belo solo de baixo e ótimas linhas vocais. Mas a letra de Neil Peart é o que nos interessa no momento.

Em italiano, barchetta significa, literalmente, “pequeno barco”. Contudo, se você é fã de carros, talvez saiba que a palavra é usada para definir carros conversíveis sem qualquer tipo de teto — nada de capota rígida ou mesmo de lona.

O termo foi usado pela primeira vez em 1966 pelo jornalista italiano Giovanni Canestrini que, na época, era editor do popular jornal esportivo La Gazeta dello Sport. Em um de seus artigos, ele usou a palavra barchetta para descrever a Ferrari 166MM, que foi a estrela da marca italiana no Salão de Turim de 1948.

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Evolução da Ferrari 125 S, primeiro modelo construído pela Ferrari, a 166 MM era uma barchetta com motor V12 de dois litros, estrutura tubular projetada por Aurelio Lampredi e suspensão dianteira do tipo duplo wishbone e eixo rígido na traseira.

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O “MM” significa nada menos que Mille Miglia, famosa corrida italiana que o carro venceu em 1948 e 1949 — sendo que, neste último ano, também venceu as 24 Horas de Le Mans e de Spa-Francorchamps. Não precisamos dizer que é um carro lendário, não é?

Também é o carro favorito de Neil Peart, e é a ele que o baterista se refere no título e na letra de Red Barchetta.

A brilliant red Barchetta / From a better, vanished time

A “barchetta vermelha, de bons tempos que já se foram” é exatamente uma Ferrari 166MM. O resto da letra, contudo, vem de um artigo publicado na revista Road & Track em novembro de 1973. O autor se chama Richard Foster, que conta a história no site 2112.net, totalmente dedicado ao Rush. Foster era um jovem estudante apaixonado por carros e, como muitos entusiastas, estava preocupado com as constantes leis americanas para, supostamente, aumentar a segurança dos carros — culminando em 1974 com a adoção dos para-choques retráteis, que deveriam impedir qualquer dano ao veículo em colisões a até 8 km/h (e também eram bem feios).

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Foster, então, imaginou um futuro não muito distante no qual o governo havia passado dos limites e estabelecido que os carros não poderiam ser danificados em colisões a até 80 km/h. Os chamados “MSVs” — Modern Safety Vehicles, ou “Veículos Modernos de Segurança” — eram gigantescos, beberrões, feios e caros, e seus donos sentiam segurança o bastante para bater nos carros mais antigos por pura diversão.

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As autoridades faziam vista grossa para a prática, pois ela acabava ajudando a tirar os veículos velhos e inadequados das ruas — veículos como o MGB Roadster 1967 do protagonista, chamado apenas de “Buzz”.

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A história, chamada A Nice Morning Drive, narra um passeio matinal de Buzz com seu carro — que não era exatamente uma barchetta, pois tinha uma capota de tecido — que se transforma em uma fuga de dois donos de MSVs, que fazem de tudo para alcançá-lo e acertá-lo. Você pode ler a história toda (em inglês) aqui.

Este cenário ficcional quase distópico inspirou Peart na letra de Red Barchetta, que conta uma história parecida, e a letra no encarte de Moving Pictures até deixa clara a inspiração no conto de Richard Foster:

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Poderíamos terminar a história aqui mas, se fizessemos isso, deixaríamos a parte mais importante de lado.

Na época do lançamento de Moving Pictures, Neil Peart tentou entrar em contato com Foster, mas não conseguiu o endereço dele com a revista. Anos depois, porém o próprio Foster — que nem conhecia o Rush — acabou descobrindo que havia uma música do Rush inspirada em seu conto. Era 1996, seu escritório havia acabado de receber uma conexão com a Internet e seus colegas de trabalho decidiram procurar o nome dele só por diversão — e um dos primeiros resultados foi, justamente, o 2112.net, que continha uma transcrição da história publicada em 1973.

Ele contou em um fórum na Internet que até tinha ouvido a música no rádio, mas nunca havia prestado atenção na letra.”Não preciso nem dizer que, depois que descobri a conexão com o Rush, virei fã da banda e comecei a ouvir o vasto catálogo dos caras”, ele diz. Nós, obviamente, faríamos o mesmo.

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Demorou dez anos para que Foster entrasse em contato com Neil Peart. Em 2006, em um encontro de motociclistas, um amigo seu lhe contou a respeito do livro Ghost Rider: Travels on the Healing Road (“Ghost Rider: A Estrada da Cura”, de 2002). No livro, Peart conta como foi a longa viagem de moto que fez atravessando o Canadá, de Quebec à Colúmbia Britânica, no fim dos anos 90.

A viagem foi seu modo de lidar com uma tragédia devastadora: as mortes quase seguidas de sua mulher e sua única filha. Em julho de 1997, sua filha morreu em um acidente de carro. Dez meses depois, em junho de 1998, sua esposa não resistiu a um câncer – duas perdas imensuráveis em menos de um ano.

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Peart não tinha mais nada pelo que viver. Tornou-se um homem vazio, e buscou refúgio na estrada, com sua motocicleta – um “motoqueiro fantasma”. Durante a viagem, o baterista do Rush reencontrou motivação para a vida, e relatou suas memórias no livro.

Depois de devorá-lo, Foster decidiu que era hora de entrar em contato com Neil Peart. Em dezembro daquele ano, ele escreveu uma carta para o baterista, explicando que era o Richard Foster que escreveu o conto publicado na Road & Track. Ele diz que não esperava uma resposta, mas estava feliz em ter finalmente feito aquilo.

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Richard Forster e Neil Peart. Foto: Richard Foster

Mas Peart respondeu, com uma longa carta e um exemplar de seu mais recente livro, Roadshow, que conta como foi fazer a turnê comemorativa de 30 anos do Rush em 2004, de moto. Os dois trocaram cartas e-emails por algum tempo até marcar um passeio de moto – cada um deles tinha uma R1200GS  – durante a turnê do álbum Snakes and Arrows.

E foi assim que Richard Foster descobriu que inspirou uma das maiores bandas de rock do planeta a escrever uma música sobre carros.

[ Fotos: Rush, Richard Foster ]

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