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Car Culture Zero a 300

Relembre (ou conheça) como eram os sites dos fabricantes de carros em 1996

No último sábado estava mexendo em umas caixas velhas da família, viajando por adesivos antigos com logotipos que hoje parecem retrô, e relembrando dos tempos em que eles eram febre nos carros da galera, quando topei com um recorte de jornal que me transportou para 1996 em menos tempo que um DeLorean leva para chegar a 88 mph.

Não sei se a data do jornal era 1996, quem o recortou deixou a data fora, mas lembrei daquele ano porque foi quando acessei a internet pela primeira vez. Eu tinha 12 anos, e já sabia como usar um computador graças às aulas de informática do colégio, mas ainda não tinha um “micro” em casa. Além disso, eu ainda não entendia direito o que era a internet. Tudo o que eu sabia é que ela parecia um lugar fascinante, onde eu poderia ver e fazer muitas coisas sem sair de casa.

Ironicamente eu precisei sair de casa e caminhar até a casa de um amigo da escola que morava na rua ao lado. Seu pai tinha acabado de assinar a internet e, como era sábado à tarde, poderíamos ficar conectados até alguém precisar usar o telefone. E assim foi: ligamos o computador e cada um escolheu um site para visitar. Eu já tinha decorado um endereço eletrônico: http://www.ferrari.it — na época a gente precisava digitar o http, os dois pontos e as duas barras. O que eu vi foi exatamente isto:

Ferrari 1996

Que dava acesso a isso:

 

Quem viveu a época sabe o que isso significava: de repente você poderia ter em uma tela no seu quarto todas as respostas que sempre procurou. Não era mais preciso procurar um livro ou esperar que as redações pautassem o tema e publicassem em suas revistas ou jornais. Você espetava o fio de telefone no computador, clicava no discador, conectava à internet, digitava o site e começava a absorver uma quantidade de conteúdo jamais vista em nenhuma biblioteca.

Quer dizer… em 1996 não era bem assim. Naquela época a internet tinha cerca de 1,5 milhão de usuários no Brasil e 34 milhões no resto do mundo (hoje são 4 bilhões). Isto também significa que não havia tantos sites para se visitar — segundo o site Internet Live Stats, a internet tinha somente 257.601 sites em 1996. E não pense que era fácil encontrá-los: havia dois ou três grandes buscadores (Yahoo, Altavista e o brasileiro Cadê eram alguns deles), mas eles não usavam algoritmos espertos como o Google viria a desenvolver no final da década. Eles eram baseados em classificação temática, como uma biblioteca, e encontrar exatamente o que você queria era um processo de tentativa e erro. Muitos erros.

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É por isso que listas como o recorte de jornal que encontrei (esse acima) eram comuns naquela época. Havia até revistas da internet, que faziam uma espécie de curadoria de sites e conteúdos interessantes. Soa bizarro hoje, em 2017, quando podemos fazer praticamente tudo pela internet, mas em 1996 tudo ainda era muito primitivo – a internet comercial foi lançada no Brasil em 1995 e a World Wide Web tinha apenas cinco anos. Além disso, a capacidade de processamento dos computadores era dez vezes inferior à dos smartphones atuais, e as redes de dados ainda eram analógicas e não existia banda larga comercial. Não dava para fazer muita coisa com o que tínhamos. Não havia interação entre o usuário e o publicador. Tudo o que podíamos fazer era o download de dados, mas nenhum tipo de input ou modificação nos sites. Por isso, os sites eram mais informativos. Eles serviam mais como catálogos eletrônicos, bibliotecas, álbuns de fotos ou revistas/jornais eletrônicos. E só. Esta era da internet ficou conhecida como “Web 1.0”.

Mas voltando ao recorte de jornal, fiquei curioso para relembrar como eram os demais sites listados além do ferrari.it, digo, do http://www.ferrari.it e decidi compartilhar com vocês. Para isso vamos conectar à internet…

… e contar com uma pequena ajuda do glorioso Internet Wayback Machine, um arquivo online de sites antigos que é uma verdadeira máquina do tempo da internet.

 

Alfa Romeo

Alfa Romeo LAnding 1996

Não está faltando nada não: a página inicial era só isso. Você clicava no “Cuore Sportivo” e caía em uma página de índice, onde poderia escolher qual site acessaria: o corporativo, o site local italiano ou o site local alemão. Estes dois últimos eram catálogos online com preços e versões oferecidas em cada país (infelizmente o arquivo da internet não os salvou), enquanto o primeiro trazia informações básicas da gama e da empresa.

A imagem da direita lembra algo comum na época: os sites eram formados por frames com conteúdo separado em cada um deles. Neste da Alfa as imagens dos frames laterais não foram arquivadas, provavelmente havia planos de fundo diferentes ou links para outros sites corporativos do grupo Fiat. No centro é que ficava o conteúdo que interessava sobre a Alfa, como sua história, a gama de produtos e notícias — como o desempenho da Alfa no International Touring Car Championship. Infelizmente isso é tudo o que foi arquivado do site. Não é possível acessar as demais seções pois elas não foram arquivadas pelo Internet Archive.

 

Audi

Audi96

“Já que você está na rodovia da informação, por que não fazer uma viagem?”

O site da Audi era mais pragmático, como um bom produto alemão. Logo na landing page você tinha um link direto para o novo A8 e um menu de opções na lateral esquerda. Modelos, concessionários, notícias, um canal de mensagens do cliente, e uma explicação do sistema quattro. Aparentemente o único site da Audi em 1996 era o site americano — o domínio Audi.de só foi usado a partir de 1997 — e por isso a gama que você encontrava online era formada apenas pelos modelos vendidos nos EUA.

Audi96gama

Sim, é isso mesmo: seis modelos, sendo que um deles estava prestes a sair de linha (o Audi Cabriolet, que ainda era baseado no 80). Note que o A6 Avant era chamado A6 Wagon nos EUA, e que o A4 1.8 Turbo era novidade.

 

BMW

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A página inicial do site da BMW já adotava o conceito de portal corporativo, com o máximo de informações possíveis no índice. O destaque, claro, ficava para o Série 5 E39, que havia acabado de ser lançado e era o carro-chefe da linha 1997 ao lado do Z3.

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Como a maioria dos sites da época, ele trazia notícias, informações sobre o catálogo, endereços de concessionárias e posto de serviço, mas também um link para o banco BMW, onde era possível obter informações sobre crédito para comprar o carro, e um curioso léxico (lexikon) que explicava o significado dos termos técnicos e comerciais da BMW. Muito alemão.

 

GM do Brasil/Chevrolet

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O site brasileiro da GM/Chevrolet era um dos poucos que era exclusivamente corporativo, sem nenhuma informação comercial sobre produtos ou revendas. Os internautas (pra usar um termo da época) que digitassem http://www.chevrolet.com.br ou http://www.gmb.com.br em seu navegador, topavam com essa página sem graça aí de cima.

 

Fiat

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Com todo respeito aos desenvolvedores e à Fiat, mas sabe aquela história do sobrinho que mexe com internet e faz um site de graça? Lembrei dela agora. Gif animado, papel de parede com padrão contínuo, cliparts dignos dos meus trabalhos de informática da escola e uma formatação totalmente em desacordo com a resolução padrão da época. Apesar disso é um site que ficou arquivado quase que completo.

Na época a linha Fiat era formada pelo Tempra, pelo recém-lançado Palio, pelo recém-nacionalizado Tipo, pelo importado Coupé 16v e, claro, pelo Uno Mille, que ainda era um adolescente de 12 anos. As páginas de informações eram igualmente amadoras, com gifs animados e uma tipografia que só causaria inveja em impressoras matriciais.

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Um fato curioso é que ele englobava o site nacional da Alfa Romeo, que oferecia por aqui o 155 Super, o 155 Elegance e o 164 3.0 24v. Curioso também é que a apresentação dos carros não usava um menu, mas sim hyperlinks no texto descritivo. Você clicava na palavra motor, e ele levava para a sub-página de apresentação do motor. Clicava em conforto, e ele mostrava a sub-página do interior do carro.

 

Ford

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“Pise fundo e boa viagem”: escreva isso hoje e seja execrado nas redes sociais

Para provar que não é implicância com a Fiat, dê uma boa olhada no site da Ford: simpático, informativo e intuitivo. Trazia tudo o que o internauta de 1996 queria ao visitar um website (pra usar outro termo da época). Aliás, a linha não era muito diferente do que temos hoje: embora não sejam seus sucessores diretos, o Ka faz o papel do Fiesta, o Fiesta atua na posição do Escort, enquanto o Focus faz as vezes do Mondeo e o Fusion (que é o verdadeiro sucessor do Mondeo) atua como o Taurus.

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Acessando a página de produtos, topamos com um anacronismo maior que navegar em um site de 1996 em 2017: a Pampa ainda era oferecida, e dividia os showrooms com o Ford Explorer e o recém-lançado Taurus. O SUV, aliás, era uma das novidades pós-Autolatina, que finalmente permitiram à Ford se atualizar em relação ao restante do mundo.

Muita gente não lembra, mas o Ford Escort Zetec foi lançado no final de 1996 como modelo 1997. Os primeiros exemplares até usavam os emblemas GL e GLX nos para-lamas dianteiros com a tipografia antiga.

 

Mercedes-Benz

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Os carros eram muito bons, mas o site não ficava muito longe do site da Fiat no quesito estético. A página inicial oferecia a opção de entrar no site de caminhões e veículos comerciais ou automóveis de passeio, como é até hoje. Lá dentro você topava com o menu de modelos — na época a linha trazia apenas as classes C, E, S, SL e a recém-lançada SLK.

Ao selecionar a Classe, você entrava em uma sub-página que te levava às versões dos modelos. Infelizmente o Internet Archive não conseguiu recuperar as imagens, e por isso ele aparece somente com o texto original.

 

Volkswagen

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Na Volkswagen topamos com algumas boas ideias, como usar o apelido da marca, Volks, como url (http://www.volks.com.br) e um visual bastante limpo e elegante para a época. Nem mesmo a profusão de gifs animados conseguiam estragar a navegação do site.

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Ao clicar na opção showroom você era redirecionado para uma tabela ilustrativa com os modelos da linha 97 — que ainda tinha a Saveiro de primeira geração, lembra? — e topamos com aquela que talvez seja a primeira aplicação dos malditos pop-ups (lembra deles?) nos sites automotivos nacionais.

“Volkswagen, a marca do Polo Classic”. Ainda bem que avisaram, pois eu não tinha percebido

Ele aparecia ao clicar para conhecer o novo Polo, que era o sedã compacto-médio que a VW trouxe para suprir a ausência de um Voyage de segunda geração.

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