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Restaurar um carro antigo é uma desilusão sobre rodas – e eu preciso superá-la

O carro que você está vendo na foto aí em cima é meu Gol, um LS 1985 com motor 1.6 e câmbio de quatro marchas. Ele apareceu por aqui há alguns meses, quando falei da dor e da a alegria que é comprar um carro antigo. Como foi a convivência até agora? Bem, posso dizer que a dualidade de sentimentos continua, e que comprar este carro foi uma péssima decisão – e também uma das melhores que já tomei na minha vida.

Ele está parado nesta ladeira, esterçado para o lado da calçada, porque não anda há quase duas semanas. É provável que o rolamento da roda traseira esquerda tenha chegado ao fim de sua vida útil e, como se não bastasse, o cilindro do freio estourou e derramou o fluido todo por ali. O pedal do meio está morto.

Não foi o primeiro problema que eu tive com o carro. Poucos dias depois de comprá-lo, durante um passeio, o motor morreu na entrada de uma rodovia. Tentei fazer o motor pegar tantas vezes que o motor de arranque pediu arrego, e o carro deu sua primeira volta na traseira de um guincho. Bem, a primeira sob meus cuidados, ao menos. E sei que há boas chances de não ser a última.

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Parece um carro abandonado

Como vocês devem lembrar, o Gol é o meu primeiro carro antigo. Um dos fatores que me levaram a comprá-lo, além do preço camarada, foi justamente o fato de ser um carro antigo. Com motor carburado, vidros que abrem com manivelas, quebra-vento, direção sem assistência e câmbio de quatro marchas, julguei que o quadrado não me traria quaisquer dores de cabeça, movido pela lógica equivocada que diz que “quanto menos equipamentos, menos coisas para quebrar”.

Besteira.

São problemas simples, mas plenamente capazes de azedar a convivência com qualquer carro. Ainda mais quando se compra um carro antigo barato, meio que por impulso e sem contar que, bem, você está comprando um carro antigo por pouco dinheiro… é óbvio que ele vai te dar alguma dor de cabeça. Costumo relutar em comparar carros a mulheres, mas você deixaria de namorar a garota que sempre sonhou por conta de desavenças fáceis de resolver? Obviamente não.

Nessas horas é normal começar a se condenar por ter sido estúpido a ponto de fechar negócio. A fase inicial de sua relação com o possante oscilava entre a paixão do início do namoro e a raiva de descobrir que aquela pessoa (quer dizer, aquele carro) não era exatamente como você esperava. Depois disso, vem a o pensamento de que talvez os defeitos superem as qualidades. A desilusão. E o medo dela faz com que você comece a considerar seriamente a venda do carro. Talvez você até faça algumas fotos do carro para colocar em um anúncio na internet.

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O que eu fiz para tirar estas ideias da cabeça? Troquei-as por planos. Resolvi me resignar com os problemas (que, francamente, são poucos para um carro desta idade, cujo histórico é praticamente desconhecido por mim) e, na hora de resolvê-los, aproveitar para mudar algumas coisas que não gosto no carro e deixá-lo do jeito que eu quero.

Por exemplo, o painel de instrumentos. Algum dos donos anteriores preferia o modelo adotado nas versões mais baratas em 1987 e utilizado até 1996. Por isso, instalou o painel de um Gol CL, em uma adaptação bem menos que razoável. Os instrumentos não foram ligados, bem como o ventilador, as saídas de ar foram tampadas e o afogador, tão necessário em carros antigos movidos a etanol, simplesmente foi deixado de lado.

Por sorte, quando comprei o carro, recebi junto um painel de instrumentos mais adequado ao seu ano de fabricação e uma buzina dupla (que também está ausente). O painel não é exatamente o do Gol LS, que tem acabamento mais refinado e saídas de ar nas laterais. Trata-se da peça do modelo básico, feita de chapa de metal e sem as saídas de ar. Sem problemas: além de gostar do visual rústico, posso me refrescar com os quebra-ventos. E ainda vai facilitar a instalação do cabo original do afogador.

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Vou aproveitar a revisão na parte elétrica para ligar os instrumentos, instalar a buzina e até colocar um rádio (talvez um daqueles com visual retrô e entrada para MP3). Aliás, como era comum em carros desta época, o painel de instrumentos abriga um alto-falante, logo ao lado do buraco do rádio, e com certeza ele será adotado. Penso até em colocar revestimentos novos nas portas, sem os buracos para os alto-falantes, e utilizar apenas o que fica no painel. Old school e minimalista. Também deverei usar a oportunidade para trocar as lâmpadas dos faróis, que são super brancas, por lâmpadas com temperatura de cor mais quente.

Outro conserto imediato será o do rolamento da roda traseira. Vou aproveitar para revisar todos os cubos das rodas e substituir os componentes necessários na suspensão e nos freios — cilindros de roda, pastilhas, discos, lonas, batentes, pivôs e afins. Os pneus, como talvez dê para ver nas fotos, já estão pedindo para serem trocados, e assim o farei. O tamanho das rodas ainda é objeto de debate mas, considerando que este é um carro de uso diário que encara estradas de terra com frequência, pneus bifudos e rodas de no máximo 14 polegadas serão adotadas. Penso bastante em rodas de aço pretas, pelo visual mais simples e cru que elas proporcionam.

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Depois disso, será hora de cuidar dos detalhes menores, como para-choques, faróis e lanternas desgastados, revestimento do teto e dos bancos – estou com algumas ideias bem interessantes, inspiradas em conversas entre a equipe do FlatOut. Falarei sobre eles em outra ocasião. Mas aviso desde já: este não vai ser um carro 100% original. Vai ser feito do meu jeito.

O mais bacana é que, enquanto escrevia tudo isto, lembrei de outras coisas boas que este carro têm: o motor está em ordem, bem como o câmbio (que me fez finalmente entender a boa fama dos câmbios da Volkswagen) e a estrutura, que foi totalmente revisada e teve quaisquer podres e imperfeições corrigidos. E descobri recentemente que o túnel não está trincado. Quem já teve um Volks da família BX, especialmente um exemplar mais antigo, sabe como isso é um grande alívio.

Acontece que, desde o primeiro dia, eu já sabia que todo carro antigo é uma desilusão em potencial. Só que isto não importa tanto quando se gosta de carros. Além disso, quado você se dá conta de que os problemas maiores não estavam no carro, e sim com as suas expectativas, fica mais fácil enxergar a realidade.

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Tenho plena consciência de que, caso concretize todas as ideias que tenho preparadas para este carro, o investimento vai superar o valor pago por ele. Algo que, do ponto de vista mais sensato, não faz sentido.

Para um entusiasta, porém, isto não precisa mesmo fazer sentido. É uma questão de paixão, de orgulho e de um pouco de loucura. Vou continuar vivendo os altos e baixos com meu primeiro antigo e não posso afirmar se teremos uma bela história juntos ou se mais encrenca vem por aí. O que eu sei é que, se desistir do carro, jamais vou descobrir.

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