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Car Culture

Off-road no gelo: uma road trip de 4.000 km ao redor da Islândia com um Suzuki Jimny

Olá, pessoal! Meu nome é Bruno Albuquerque, sou de Curitiba e moro atualmente na Alemanha. Nesse ano realizei um sonho antigo meu que era viajar pela Islândia. O que era apenas uma ideia simples mochilada acabou (por inúmeros motivos) virando uma road/off-roadtrip relâmpago de oito dias a bordo de um Suzuki Jimny que me levou ao redor daquele pequeno grande país e também serviu como hotel durante essa jornada.

“A Song of Ice and Fire”. É o nome oficial do Game of Thrones, mas encaixa como uma luva para essa remota ilha no atlântico norte. Vulcões adormecidos, geleiras imponentes, rios fumacentos, planícies desérticas, lagos bucólicos, pouca gente e muitas ovelhas… Essa é a Islândia, onde a Terra exibe seus músculos em suas formas mais intensas. É a terra de um povo austero, mas que produz gente louca como Björk e Sigur Rós. É a terra onde se fala hoje um idioma derivado de um dialeto norueguês do séc. XII, que soa como alguém gritando e correndo com um machado em sua direção.

 

O início: planejamento

A menos que dinheiro não seja seu problema, você não tenha paciência ou seja simplesmente preguiçoso, evite contratar uma agência de turismo pra fazer seu planejamento. Dê a cara à tapa, faça check lists e programe você mesmo sua viagem com toda a flexibilidade do mundo.

Claro que pra quem nunca planejou uma viagem sozinho, parece um inferno. Pensar em um roteiro lógico, comparar preços de voo, de acomodação, das atividades, dos seguros, vistos etc. Na verdade é incômodo mesmo, ao menos até você pegar certa prática. Reserve um tempo de antecedência e mande brasa! A internet está aí pra isso! Você vai acabar por descobrir que planejar sua viagem é tão prazeroso quanto fazê-la.

Eu normalmente começo pensando com um roteiro base (distribuir o que quer fazer ao longo do tempo que você tem), qual é a sua meta (ou máximo) de gastos, depois se levanta custos brutos de logística (voo de ida e deslocamentos internos), de dia-a-dia (comida, acomodação etc.) e principais atividades que você quer fazer. Sempre faço chutando os valores com pessimismo – tudo mais caro – porque no final além de ficar no orçamento, você fica feliz com a falsa impressão que saiu economizando.

 

Roteiro Base

A ideia original era dar uma volta pelo país de ônibus e dar um pulo na Groenlândia. Tentei achar companhia, mas sempre rola aqueles desencontros (fulano tem interesse, mas não tem grana, beltrana tem dinheiro, mas não tem tempo) e eu acabei fazendo tudo sozinho, o que apesar de ser ruim em questão de custos, acabou deixando a viagem ainda mais peculiar.

Também teria somente nove dias e no final de maio – o que seria fora da alta estação (começa em junho) e várias atrações (inclusive a Groenlândia) estariam fechadas pra turistas e viajantes e pela falta dos mesmos, a disponibilidade de ônibus circulando era nula/péssima.

Durante minha pesquisa acabei descobrindo um vale de florestas chamado Þórsmörk (lê-se Tórsmôrk) e achei que passar uns três dias fazendo trilhas seria uma ótima – só que pra chegar até lá só indo de ônibus off-road ou por sua conta e risco num 4×4. Legalmente falando, para dirigir na Islândia basta trazer a Permissão Internacional.

Well… porque não enfiar o pé na jaca e alugar um 4×4 sozinho mesmo e correr pro abraço?

 

O aluguel do carro

No geral, a famosa ring road que circula o pais é perfeitamente asfaltada, e você consegue ir para a maior parte das principais atrações turísticas com qualquer tipo de carro. Mas algumas ressalvas que eu considerei: além de Þórsmörk, qualquer saída que você pegue provavelmente cairá numa estrada não asfaltada – às vezes ok, às vezes ruim e outras vezes inexistentes/péssimas/hardcore. Pra piorar, o tempo por lá parecia tão instável e/ou pior que Curitiba (o que acabou sendo verdade), o que a tornaria ainda mais intransitável.

Outra ressalva adicional é que você está viajando para um paraíso único da natureza, e são inúmeras as possibilidades de se pegar desvios da rota principal e descobrir lugares que são parcial ou completamente (no caso das F-roads) inacessíveis por carros sem tração 4×4.

Não tinha experiência em alugar carros em viagens privadas. Eu sou do tipo mochileiro quando tomo meu próprio rumo. Comecei pesquisando longamente nas locadoras tradicionais (que cobravam uma facada, tipo 150 euros por dia) até adentrar no submundo das pequenas locadoras. Apesar de a Europa ter menos picaretas por metro quadrado que o Brasil, eles existem por lá… Vi vários casos de gente ter que pagar por dano prévio no veículo, e é difícil de dizer algo contra porque você pega pedrinhas voando o tempo todo. Em outros casos, vi gente que não pegou os seguros corretos, encontrou Murphy no tempo instável islandês e teve prejuízos astronômicos.

Depois de muito pesquisar, encontrei uma locadora com preço bom e umas boas reviews, então acabei optando um Suzuki Jimny, por inúmeros fatores:

– Custo Aluguel

Pela diária bruta e seguros básicos, o Jimny sairia 55 euros por dia, enquanto um Dacia Duster diesel sairia 75 e um Jeep Cherokee 90/dia. Mas o aluguel básico é apenas um detalhe, porque como a viagem não seria um passeio no parque eu precisava pegar o pacotão completo de seguros.

A brincadeira no final saiu por 90 euros por dia.

“Mas brother, quase dobrou o preço só pelos seguros… que diabos você segurou?”

O pacote tinha de tudo: franquia reduzida (estava cheio de gelo, sou amador em off-road…), contra pedras (não que você vá cruzar com muita gente, mas quando cruza provavelmente vão rolar umas pedras voando em sua direção), contra roubo (completa inutilidade porque você mal vê gente, quanto mais ladrão), e o principal, que era contra cinzas e areia vulcânica – a Islândia tem vulcões e ventania por todos os lados, mas a frequência das duas coisas juntas é relativamente alta no sul da ilha. Se você tiver o azar de ser pego por uma tempestade de cinzas vulcânicas, duas coisas podem acontecer: se for uma ventania gelada, as cinzas abrasivas vão acabar com a pintura do carro, mas se o negócio vier morno… pode até deformar certos componentes! Lendo na internet encontrei gente reclamando de prejuízos de até 6.000 euros!

– Dava para dormir dentro!

Durante minha pesquisa, descobri que hospedagem em hostel era em geral mais cara do que eu gostaria de pagar. Pensei em camping, mas minha barraca ficou no Brasil e eu não queria comprar uma nova. Logo, porque não achar um 4×4 com espaço para uma pessoa dormir “confortavelmente”?

A solução eu achei num fórum de jipeiros na Tanzânia, que colocavam o banco do passageiro totalmente pra frente, retiravam o encosto da cabeça, e formavam meio que uma “cama”. Me amarrei na ideia e comprei um saco de dormir.

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1,77 eh o limite pra esse cambalacho

– Boa relação consumo/potência

O motor era o mesmo 1.3 que equipa a versão brasileira, com 85cv, mas ele não me decepcionou na estrada e nem no off-road quando precisei. No final dos 3.800 km fiz quase 14 km/l com gasolina normal (padrão islandês é 95 octanas, mais ou menos a nossa Pódium). Desse total, uns 20% foram no 4×4.

Ajudou muito o fato do limite de velocidade ser 90 km/h no asfalto, e MUITAS vezes não rolar mais de 50 km/h (seja pela buraqueira, trechos perigosos ou total e completa ausência de guard rails em alguns despenhadeiros)

– Conforto a bordo

O conforto, em si, acho que é coerente com a proposta do carro, acabamento robusto e maciez de banco suficiente. Senti falta do cruise-control (tenho no meu em casa, nunca mais quero um carro sem). No meu nem USB tinha… A música era a base de iPhone enfiado num rolo de papel pra rolar um surround kkkk.

 

Chegada & Sul

Todos os voos chegam por Keflavik, que é o aeroporto que serve a capital Reykjavik (que significa em islandês “Baia Esfumaçada”), e fica no sudoeste dessa ilha com 103mil km quadrados (dá metade do Paraná). Dos numerosos 320.000 islandeses, quase 250.000 moram na região metropolitana da capital… Já deu pra sacar aí o sossego que ia ser daqui pra frente. O highlight da chegada é que eu cheguei à meia noite e ainda estava claro (e isso era o mais escuro que fica nessa época do ano).

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Meia noite!

No aeroporto, já peguei o possante na locadora e me municiaram de mapas, informações e 175321 números de emergência caso desse problema. Também lá me ensinaram que é pra deixar o farol ligado o dia inteiro! A razão ficou meio obscura pra mim, mas depois de dias viajando, vivendo aquele clima maluco, não deixa de fazer sentido porque a ultima coisa que você vai se preocupar, se pegar uma tempestade de cinzas, é a porcaria do farol.

Depois de dormir num hostel, abastecer o carro com comida, água e outras coisas, era hora de pegar no volante… Na medida em que você vai se afastando a leste, vai percebendo o quão “vazia” é a Islândia… Não falo apenas de gente e civilização, mas também de árvores e animais.

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Aproveitar rochas como paredes era bem comum, já que quase não tem madeira na ilha

Depois de quase 200 km de estrada lisinha, pego meu primeiro desvio pra conhecer o ponto mais ao sul da ilha. Nesse ponto o trecho estava em obras e eu peguei uma trilhazinha paralela à estrada pra sentir qual era a sensação do off-road… Definitivamente, a forma de condução precisava ser alterada. Então, em 20minutos eu chego ao Dyrhólaey, e suas belas praias de cinzas vulcânicas ao redor.

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Praia de cinzas

 

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Geografia top!

Após um sanduba, toquei pra leste de novo, me deparando a cada 30 minutos com um cenário e clima diferente. Apesar de tudo muito bonito, vai te dando um aperto no coração diante da solidão… Você mal vê gente, mal vê carros. Ate vê casas, mas não vê gente… Começa a se sentir um pedacinho de nada desbravando a selvagem e primitiva natureza islandesa.

Em certo ponto, eu tive que parar pra tirar foto nesse campo. Eram dezenas de quilômetros dessas formações rochosas, formadas por magma seco há milhões de anos. Parecia que tava em marte, não mais na Terra.

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Marte?

Quilômetros mais a frente, mais um espetáculo da natureza. Era a primeira vez que eu avistava Mordor… Digo, um Sandur, que são essas planícies enormes e desérticas, formadas pela passagem de glaciares durante milênios.

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Welcome to Mordor

 

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Parceirão!

 

Aqui foi muito legal porque a estrada se “junta” com a planície, e você pode sair da estrada e “pilotar” pela planície… Passei por vários “8” e “zerinhos” ao longo da estrada, o que me lembrava de que a “zuera” se encontra até em lugares inóspitos e desabitados. Resolvi eu também dar uma brincada, o que foi divertido até eu descobrir que não existia diferença visual entre “areia mole” e “areia dura”. Amador é f*da!

Dormi em Höfn (que era pra ser teoricamente o ponto mais ao leste da viagem, porque ia fazer os dias de trilha lá em Þórsmörk) e comecei a voltar de onde vim. E nesse momento, eu encontrei a cereja do bolo do sul da Islândia, que é o famoso e magnífico Jökullsárlón.

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Alucinante!

Trata-se de uma lagoa onde parte do Glaciar de Vatnajökull (o maior da Europa) encontra o mar. O glaciar se desmonta em milhares de icebergs na lagoa, que se afunilam num canal que acaba no oceano atlântico. É algo indescritível. Na maré alta os icebergs são carregados pra fora da lagoa e milhares encalham na saída da maré baixa.

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Iceberg beach

Margeando o mesmo glaciar, a oeste tem o parque de Skaftafell, que é uma das poucas regiões ainda florestadas na Islândia… Rola um miki trekking morro/mata adentro até chegar na Svertivoss, que é na minha opinião, a cachoeira mais épica que eu já vi.

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Svertivoss, a mais top até hj!

 

Abastecendo na Islândia

Abastecer na Islândia é simples. Você encontra um tanque de combustível que tem umas duas bombas e nenhum funcionário. Passa o cartão de crédito o quanto você quer, ele libera a bomba, você abastece e vai embora.

 

Þórsmörk & mudança de planos

O dia seguinte prometia: seriam 40 km off-road até chegar no ultimo rio antes do vale de Þórsmörk, que eu faria 2-3 dias de trilha entre os glaciares impronunciáveis de Myrdalsjökull e Eyfjafjallajoküll (esse foi aquele vulcão que explodiu em 2010 e causou o maior caos aéreo no hemisfério norte… Ninguém podia voar entre um continente e outro por causa das cinzas abrasivas entre o dois continentes)

O tempo tava horroroso… Vinha chovendo incessantemente na região há quase uma semana, e o nível das águas obviamente tornaria a travessia dos sete córregos mais desafiadora, mas e daí? Vamos lá ver o que rolava. A “estrada” era em geral como na foto abaixo (não conseguia sair muito do carro por causa do vento contra, que mal me deixava abrir a porta), mas depois piorou consideravelmente.

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Começo da thorsmorksvegur

Nos primeiro 5 km, a primeira surpresa… Um córrego que NÃO constava entre os sete já aparecia 15 km antes do primeiro “oficial”. Well, NUNCA tinha atravessado um riacho na vida nessas condições (experiências só com alagamentos no centro de Curitiba) e saltei do carro pra analisar de perto as condições… O vento tava CONGELANTE, mas o fundo do córrego era de pedras e a profundidade devia dar uns 30 cm. Voltei pro carro (e foi hilário porque tive que entrar pelo porta malas que não rolava abrir a porta devido ao vento), engatei a segunda marcha e fui devagar… O córrego tinha uns 5 metros de largura e ao terminar de atravessar, já me sentia o jipeiro das galáxias hahahaha.

Aí veio o segundo, o terceiro, o quarto, o sétimo, o oitavo córrego… E a cada vez ficando pior (o último tinham bons 60 cm de profundidade e a parte do fundo era de areia…). Tive que vadear um trecho do rio a pé naquele caldo gelado do capeta pra encontrar onde tinha pedra no fundo. Chegando ao nono córrego, sinal vermelho:

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Shit happens

O córrego era de fundo de areia, e a Cherokee atolou bem no meio. Perguntei se ele precisava de ajuda (como se eu pudesse fazer muito sem um guincho), mas ele me informou que já tinha pedido socorro. Ele também me informou que ainda tinha mais oito córregos pela frente, sendo que um deles a água tava mais alta e a chuva mais torrencial.

Um super jeep (um jeep completamente modificado pra enfrentar absolutamente qualquer terreno) veio ao socorro do cara, e tirou ele do lamaçal em menos de 5 minutos. Fiquei impressionado MESMO com o jeep, as rodas tinham mais de um metro de altura, e de uns bons 50 de largura. Abaixo um exemplo do que eu quero dizer:

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Um tanque!

Ponderei durante o processo minha impotência diante de tal demonstração de força da natureza, minha inexperiência, o carro que eu tinha e o tempo e dinheiro que eu tinha investido ate aqui, acabei por aceitar a derrota, e decidi dar a volta por toda a Islândia, já que acabava de ganhar praticamente três dias do roteiro original.

Rumo a leste, passei de novo pelos Sandur, Skaftafell e Jokulsarlon, mas pouco depois de Höfn (onde dormi na primeira noite) peguei um detour off-road pra conhecer as ruínas de Stekkur, onde se estabeleceram os primeiros colonizadores vikings no sul da Islândia.

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Stekkur

O leste não chega a ser tão especial quanto o sul, encontrar wildlife (renas) e desfrutar de belas paisagens. Dirigi até um lugar chamado Djupingvogur, conhecido pela história BIZARRA onde no séc. XVI, piratas africanos atacaram a vila e levaram dezenas de pessoas como ESCRAVAS (wtf?!?).

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Ninguém a vista, como sempre

Aqui resolvi começar a dormir no carro. A tal ideia dos caras do fórum da Tanzânia é razoavelmente boa, mas o relevo entre os bancos te obriga da dar uma “nivelada” usando casacos/mochilas e tal. Se você tem mais que 1,77 de altura, não vai rolar… O lance de dormir no carro em campings acabou sendo uma grande ideia, porque a estrutura do local (água quente, cozinha etc.) pelo preço (6 EUR, ou de graça, como ocorreu umas 3x) vale muito a pena.

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Bem de boa!

A luminosidade noturna incomodava, mas prendi casacos e toalhas entre as janelas e no final consegui um lugar escurinho pra dormir… Frio eu não passei porque o meu saco de dormir era top, e dormi de touca. Mas meu rosto sempre tava gelado quando acordava.

Se eu fosse de novo, levaria barraca pra ter mais espaço. Mas a suíte Jimny não deixa de ser um belo quebra galho noturno.

 

Highlands & Nordeste

Após contornar quilômetros de fjordes ao longo da costa era hora de finalmente entrar um pouco da Islândia, morro acima, por um trecho onde a ring road passa pelas highlands. Pouco antes de terminar a subida, ao meu lado direito, eis que corre um rio termal.

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Um rio fervendo! Nunca tinha visto

Lá em cima das highlands, é uma imensidão ainda mais vazia do que o resto… A solitude bate ao som de Sigur Rós e é um bom trecho a se filosofar sobre a vida.

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Nada. Absolutamente nada

Uns 100 km depois, acabei descendo das highlands e parando em Egilstadir pra comer algo simples e comprar cervejas locais pra tomar antes de dormir (só vendem cervejas em lojas específicas, altamente controladas pelo governo). A cidade é conhecida como a capital do leste da Islândia, com seus dois mil habitantes.

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Highlands

Logo após essa foto acima, meu GPS maroto me mandou sair da ring road e pegar uma F-road (a tal das estradas que só rola 4×4), e eu segui, já que tava ansioso pra ver qual seria… Depois de uns 20 minutos montanha acima, a estrada começou a aparecer parcialmente coberta de neve/gelo. Achei aquilo esquisito, mas tava de jipe, então vamos lá. A próxima hora acabou sendo inteira andando um trecho de 25 km que alternava entre neve e estrada… Às vezes, eu realmente não sabia mais onde a estrada continuava, mas como o tempo tava bom e eu tinha sinal de celular continuei… Pra minha surpresa, ao voltar pra estrada principal, a estrada por onde eu andava estava BLOQUEADA devido ao degelo. Algum infeliz bloqueou um lado da estrada, mas não o outro começo!!!

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SINISTRO

Diria que eu tive sorte pra cacete… Era temporada de degelo e o risco de sair da estrada e encontrar gelo fino era real… Então a dica é: EVITE O GELO!

Nas horas seguintes, peguei outro desvio para seguir pelo litoral e longe do gelo… Um caminho novamente vazio, mas com belezas de tirar o fôlego, como a abaixo:

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O povo aqui pula a cerca com segurança!

 

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Grecia? Noronha? Nah, Islândia!

Dormi num camping em uma cidade de 500 habitantes, chamada Raufarhöfn. O chuveiro do camping era top, mas não tinha nenhum lugar pra pagar e nenhuma placa mencionando preço. Interpretei que a água quente era cortesia do município com os viajantes. ☺

Dia seguinte toquei o barco pelo norte e passei por perto do ponto mais ao norte da Islândia (um farol impronunciável chamado Hraunhafnartangi), que ficava a 6 km do circulo polar ártico. Desci então quase 300 km ate uma região famosa do Lago Myvatn. Esse lago fica numa região vulcânica, e chega até a ser bonito, mas tem dois problemas gravíssimos. A maior concentração de mosquitos da galáxia e a menor oferta de hospedagem do hemisfério norte… Junte os dois e você terá as diárias mais baratas em alta temporada por módicos EUR 200,00! O treco tinha tanto mosquito que eu só saí do carro uma vez pra bater foto.

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Uma foto que me custou umas 30 picadas de mosquito

Ainda na região, fica a maior catarata da Europa (Dettivoss), e fiz um pseudo trekking no vulcão adormecido Kafla.

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Dettivoss… enoooorme

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Cratera do Kafla, com um lago congelado

No final do dia, rumei para a metrópole do norte islandês: a bela Akureyri e a muvuca assustadora de seus 17.000 habitantes. Aqui eu confesso que realmente estranhei ver tanta gente junta num lugar só. É curioso como a gente acaba se adaptando relativamente rápido às novas circunstâncias, depois da deprê de solidão no começo, você se anima com a conexão que cria com a natureza ao seu redor, aí volta meio “selvagem” pra civilização, mas em poucas horas você já está reunido com outros viajantes, tomando uma cerveja e conversando sobre os mais diversos tópicos.

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Ta certa a cor dessa água, produção??

 

Norte & Oeste

De manhã, um tempo alucinante e resolvi tocar cedo o barco… Tive companhia nos primeiros 40 km de uma fotógrafa polonesa do grupo da noite anterior que mal falava inglês, mas que pediu uma carona no meio do meu caminho.

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Indescritível

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Cachu + Mar = EPIC

Esse dia seria muito, mas MUITO longo porque eu dirigiria 550 km até os o ponto mais ocidental da Europa, que são os Westfjords islandeses, mais precisamente a península de Latrabjarg. A viagem foi uma tortura… Foram quase 9h de estradas péssimas ou em obras, montanha acima e abaixo, sem acostamento, sem guard rail, e com tempo feio… Cheguei próximo das 11 da noite por lá, mas o lugar é tão massa que ate deu um gás a mais.

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Praia de areia clara! Coisa rara por aqui!

Era meia noite quando estava no meu quarto e descobri que só conseguiria ver os simpáticos puffins se fosse na hora no penhasco tirar foto deles… Fui exausto e congelando, mas foi muito legal vê-los e chegar perto, e não apenas de um ou dois, mas de milhares!

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Puffins

Dia seguinte seria o mesmo inferno de estrada, porque a balsa que serviria de atalho não funcionava no dia… Seriam mais 470 km passando parte deles pela mesma estrada maldita do dia anterior… A compensação veio no final do dia, que passei pela bela região do Thingvellir e jantei um épico steak de baleia.

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Baleia, molho de beterraba, cogumelos aleatórios e um empanado de algo desconhecido mas bom!

Antes que haters apareçam, carne de baleia é legal em vários países nórdicos, e eles só caçam uma espécie (baleia Minke) em torno de 1000/ano de uma população de mais de 500.000 em todo o oceano atlântico. Logo é sustentável na atual escala.

A carne é… tipo carne de boi, mas a consistência é diferente, mais “borrachosa”… O gosto em si é bom, e eu recomendo pela experiência.

Dia seguinte fui ver os gêiseres em ação… Uma pena que o maior deles, o Geysir (sim, a palavra gêiser vem desse aqui em especifico) que atinge quase 80 m quando explode, esta dormindo há anos e só borbulha. Pelo menos ao lado dele, temos o Strokkur, que estoura regularmente de 10 em 10 minutos.

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Strokkur

Era já o ultimo dia, e eu tinha que pegar o voo meia noite lá de Keflavik… Mas antes disso, próximo ao aeroporto, existe um lugar chamado bastante turístico chamado Blue Lagoon. Lá você pode relaxar nas fontes termais a 38 graus mesmo que fora a temperatura esteja negativa… Recomendo e muito!

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Like a boss como nunca!

 

Conclusão

A Islândia é um lugar especial e único. É o paradoxo de dirigir em um lugar asfaltado, mas se sentir na Pangéia, prestes a topar com um dinossauro ou mamute (tinha mamute na época da Pangéia? Whatever). É a sensação de se sentir um coadjuvante menor diante da magnitude da natureza. É o lugar mais vazio do planeta onde o celular sempre pega. É caro, longe e solitário – não é uma viagem que eu recomendo pra iniciantes – mas pra quem já viajou bastante, tem o olho aguçado para detalhes e quer uma vibe completamente distinta, é uma pedida com muita coisa a agregar.

O roteiro acabou mudando brutalmente no meio, mas fico feliz que isso tenha acontecido, porque pude ver muito mais coisa e desfrutar do meu parceiro Jimny mais intensamente. Voltei com mais experiência de vida, de viagem, de off-road, e melhor como um todo. Se antes da viagem eu tinha vontade de ter um jipe, agora é apenas uma questão de tempo. ☺

 

Uma pernada e tanto pra 9 dias

Um grande abraço minha gente, e obrigado pela leitura!

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