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Car Culture

Sabia que você pode dirigir sem habilitação na Europa? Conheça os “kei cars” europeus

Imagine se, aos 14 anos, você já pudesse dirigir por aí. Ou ainda se não precisasse se preocupar em tirar carteira de habilitação depois dos 18 anos. Na Europa e em alguns países sob influência francesa, isso é mais do que possível. Tudo graças aos chamados VSP, ou voitures sans permis (carros sem carteira de habilitação). Apesar de terem algumas limitações, esses quebra-galhos já passaram de meras cadeiras com rodas a um nível de refino que carros brasileiros só foram ter por obrigação da lei depois de 2014. E tudo indica que eles não vão parar por aí.

O Teilhol Citadine, de 1972, foi o primeiro VSP, mas vendeu apenas 28 unidades até 1974

O Teilhol Citadine, de 1972, foi o primeiro VSP, mas vendeu apenas 28 unidades até 1974

A história destes modelos começa em 1972, na França, com o Teilhol Citadine, um triciclo elétrico — com roda única atrás — que era muito parecido com uma Romi-Isetta por ter só uma porta na dianteira. Feito para duas pessoas, ele não exigia carteira de habilitação devido a uma brecha legal. O motor de 4 kW, o equivalente a 5,4 cv, permitia uma máxima de 50 km/h e as baterias lhe davam uma autonomia de até 70 km. Só 28 unidades saíram da fábrica, que encerrou sua produção em 1974.

O Arola 10 (o amarelo) é considerado o primeiro VSP bem sucedido. Tinha só três rodas, guidão e banco reto.

O Arola 10 (o amarelo) é considerado o primeiro VSP bem sucedido. Tinha só três rodas, guidão e banco reto

Em 1975, surgiu o que muitos consideram como o primeiro VSP: o Arola 10, um triciclo aberto que também podia ser enquadrado na categoria que não exigia carteira para ser dirigido. Parecido com um tuk tuk, ele não tinha portas e, em vez de volante, vinha com um guidão. Pesava 110 kg, tinha motor diesel de 50 cm³ e atingia a máxima de 40 km/h. Para dar uma ideia de como ele era espartano, o banco tinha assento reto (um convite para fazer drift de bunda), e não tinha encosto. Deu certo. Em 1977, os Arola ganharam opção de motor a gasolina. Um ano depois, quatro rodas. Em 1980, portas, ou algo parecido, já que eram mais como coberturas de acrílico para o nicho de entrada. Em 1982, surgiu uma carroceria mais sólida, com portas propriamente ditas, além de faróis e piscas. E, em 1983, a antiga Arola mudou de nome, para Aixam, e hoje domina 40% do mercado de VSP.

O Bellier Véloto tinha motor de mobilete e partida por pedais (no detalhe à direita)

O Bellier Véloto tinha motor de mobilete e partida por pedais (no detalhe à direita)

Outro exemplo da simplicidade dos primeiros anos era o Bellier Véloto, que tinha rodas de bicicleta, nome de bicicleta (vélo, em frances) e cuja partida era dada, no motor Solex de 49 cm³, com a ajuda de pedais. Com dois metros de comprimento, um de largura e 80 kg, ele chegava aos 35 km/h.

Com o tempo, as regras de uso foram ficando mais restritivas. A partir de 2004 passou a ser exigida a habilitação para ciclomotores para condutores nascidos depois de 1988. A chamada categoria A inclui a exigência de um treinamento de no mínimo sete horas sobre segurança viária. Os nascidos antes disso continuaram dispensados de qualquer tipo de exigência de habilitação, provavelmente por direito adquirido. Por coincidência, foi em 1988 que o primeiro VSP foi submetido a um crash test.

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A linha Vision, da Aixam, tem carrocerias Compact (azul), Coupé (amarelo) e Break (branco, à moda aventureiro)

Para evitar abusos, as leis também definiram categorias de VSP. O original é o chamado quadriciclo leve (léger), com limite de peso de 350 kg. Ele não pode ter motores de mais de 50 cm³ (a diesel ou gasolina, de quatro ou dois tempos) ou acima de 4 kW (algo que ajuda a enquadrar também os elétricos). A velocidade máxima é de 45 km/h e ele só pode ter dois ocupantes.

Existe uma mania entre os fabricantes de copiar o estilo de outros modelos. Esse Chatenet não é a cara dos Mini?

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 Existe uma mania entre os fabricantes de copiar o estilo de outros modelos. Esse Chatenet não é a cara dos Mini?

Os pesados (lourd) não são exatamente VSP porque exigem uma hablitação especial, a B1, um degrau abaixo da exigida para dirigir carros comuns. Eles não podem passar de 400 kg, se forem de passageiros, ou de 550 kg, se forem para o transporte de carga. Sim, existem caminhõezinhos VSP, como os da marca Mega, com limite útil de carga de 1.000 kg.

Esse caminhão Mega dispensa habilitação D. Mas exige a B1

Esse caminhão Mega dispensa habilitação D. Mas exige a B1

Ainda que não tenham restrição específica de passageiros, os pesados para pessoas têm carga útil máxima de 200 kg. Em nenhum dos dois tipos o motor pode ter mais de 20 cv, ou 15 kW.

É fato que a União Europeia padronizou muita coisa, mas a legislação de trânsito varia entre os países. Na Holanda, por exemplo, não existe limite para o tamanho do motor dos VSP. Um dos mais populares por lá é o Canta, fabricado na Holanda mesmo.

Quem falou que na Holanda não tem ladrão? Olha o Canta LX preso no poste!

Quem falou que na Holanda não tem ladrão? Olha o Canta LX preso no poste!

O Canta não é curioso apenas pela imagem acima, de um exemplar preso a um poste por corrente. Com 2,28 m de comprimento, 1,10 m de largura e 1,63 m de altura, ele leva dois adultos. Tem duas opções de motor Honda, um de 160 cm³ e 5,5 cv a 3.600 rpm e um de 200 cm³  à mesma rotação, ambos refrigerados a ar, e pesa cerca de 350 kg. A transmissão é CVT, os freios dianteiros usam discos (com rodas de aro 10”!) e a velocidade máxima é de 45 km/h. Mas o que ele tem de mais interessante é o vídeo abaixo que revela.

Saindo…

… e chegando.

Chamado de Inrij Canta (não Inri Cristo!), esse modelo é voltado a portadores de deficiência física. Ele conta com rampa de acesso e se abaixa para facilitar a entrada.

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O modelo normal é autorizado a rodar até em ciclovias!

Nas estradas e avenidas rápidas, porém, nenhum VSP é autorizado a circular, justamente por seu baixo limite de velocidade. Os minicarros, ao contrário do que poderia parecer, são obrigados a ser emplacados. A placa deve ir apenas na traseira, cabendo ao dono decidir se colocará alguma também na dianteira.

O Casalini M12, italiano, tem zonas de deformação programada em caso de impacto

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O Casalini M12, italiano, tem zonas de deformação programada em caso de impacto

A dispensa da exigência de habilitação não torna os VSP uma opção econômica de transporte. Pelo contrário: essas baratinhas custam caro. A média de preço de entrada é 10 mil euros. Para contextualizar, um Sandero, na França, custa 7.990 euros. Os modelos mais caros podem passar dos 15 mil.

Será que dá para se divertir com 5,5 cv? No Secma F440 DCI, parece que sim

Será que dá para se divertir com 5,5 cv? No Secma F440 DCI, parece que sim

Parte da explicação está no nível de refinamento que eles passaram a ter. Se no início os modelos tinham rodas de bicicleta e guidão, os atuais têm mais equipamentos de série que um popular brasileiro. O Aixam City Premium, por exemplo, vem com ABS, ar-condicionado, bancos de couro, sistema de som com tela sensível ao toque de 6,2”, câmera de ré e alto-falantes de alta fidelidade.

Pequeno também gosta de luxo e conforto: este tem sistema de som com tela sensível ao toque e ar-condicionado

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Pequeno também gosta de luxo e conforto: este tem sistema de som com tela sensível ao toque e ar-condicionado

O vídeo abaixo, em francês, mostra a evolução da marca até os modelos atuais. Preste atenção aos crash-tests.

Além de serem vendidos em toda a Europa, sendo fortes no Leste Europeu, os VSP também são exportados para ex-colônias francesas, como Nova Caledônia e Seicheles, ou territórios ainda vinculados ao país, como a Guiana Francesa ou a Martinica.

 

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