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“Seu Ford Modelo T pode ter qualquer cor, desde que seja preto”. Será mesmo?

Os alemães podem ter sido os inventores do automóvel, mas foram os norte-americanos que os tornaram populares. Na verdade, um norte-americano: Henry Ford, que em 1913 implementou a primeira linha de produção móvel da indústria automotiva. Mais eficiente, o método ajudou a tornar o processo de fabricação muito mais rápido e barato, o que permitiu reduzir o preço do carro para o consumidor final – e elevar a demanda pelo Ford Modelo T às alturas.

Lançado em 1908, ele já era um carro mais barato que a média naquela época. E vendeu tanto que, já em 1918, o Ford Modelo T correspondia a metade da frota de automóveis que circulavam pelos Estados Unidos. E, como todo carro icônico, o Modelo T coleciona uma série de histórias a seu respeito – algumas verdadeiras, outras nem tanto.

Um bom exemplo é a suposta frase de Henry Ford sobre a oferta de cores do Modelo T. Algo nesta linha:

“Você pode comprar um Ford Modelo T em qualquer cor que desejar. Desde que ele seja preto.”

De fato, a grande maioria dos Ford Modelo T produzidos era pintada de preto. E faz sentido, afinal aquele era um carro popular, feito para ser um meio de transporte acessível, prático e fácil de manter. Se custava pouco e funcionava direitinho, para que se preocupar com escolher uma cor?

Acontece que isto é uma meia-verdade.

Realmente, Henry Ford pode ter dito a célebre frase durante uma reunião, em 1909. Consta em sua autobiografia, Minha Vida e Minha Obra, publicada pela primeira vez em 1922, o seguinte trecho:

“(…) em uma manhã de 1909, sem prévio aviso, anunciei que no futuro iríamos produzir apenas um modelo, que aquele modelo seria o Model T, e que o chassi seria exatamente o mesmo para todos os carros. E afirmei:

‘Qualquer cliente posso comprar um carro de qualquer cor que quiser, desde que seja preto.’

Não posso dizer que todos concordaram comigo. O pessoal das vendas, claro, não conseguia enxergar a vantagem de fabricar apenas um modelo. Mais que isto, eles não se importavam tanto assim.”

Parece óbvio que oferecer apenas uma cor para o Modelo T era uma forma de conter custos e economizar tempo na fabricação. Mas, no fim das contas, a Ford disponibilizou nos cinco primeiros anos uma oferta de cores até que razoável – verde, vermelho, azul, marrom, bege e cinza. E, claro, preto.

A chegada da linha de montagem móvel, porém, levou as coisas a outro nível. Em vez de montar um carro por vez, deslocando-se até cada automóvel, os funcionários ficavam parados e os carros iam até eles em uma esteira. Cada funcionário era altamente especializado, desempenhando apenas uma etapa na produção, o processo de fabricação ficou mais rápido e barato, possibilitando a queda no preço.

Mas isto trazia também um efeito colateral: a demanda era tanta, e o volume de produção era tão alto, que os carros não ficavam muito tempo parados no pátio da fábrica. Às vezes, a tinta mal tinha tempo de secar.

Por isto veio a decisão de adotar apenas uma cor. A próxima pergunta é: mas por que preto?

Isto tem a ver com o método de pintura. A tinta preta usada pela Ford era um esmalte composto por óleo de linhaça (um substituto mais barato para o óleo de tungue usado em outras tintas), carvão mineral preto e betume. Depois de pintadas, as chapas de metal eram aquecidas para acelerar o processo de secagem, o que resultava em um acabamento muito durável e com alto brilho.

Mas este processo só era possível com a tinta preta. Então, apenas a cor preta foi oferecida entre 1914 e 1925.

Àquela altura, porém, a concorrência ao Modelo T começou a ficar mais acirrada e, para tornar o carro mais atrativo, a Ford tornou a oferecer outras opções de cores além do preto a partir de 1926. E foi assim até o fim de sua produção, em 1927, quando o Modelo T deu lugar a seu substituto, o Modelo A. Este fabricado em qualquer cor, incluindo o preto.

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