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Rent a racer: a história do Shelby GT350-H, o melhor muscle car de aluguel do mundo

Em 1965, Carroll Shelby já era famoso por fazer o Shelby Cobra, um roadster inglês com coração americano que você só não conhece se nasceu ontem. O Mustang havia acabado de ser lançado e a Ford conhecia seu potencial, chamando então Shelby para extraí-lo. O resultado foram os lendários Shelby GT350 e GT500. Mas, destes, uma série especial se destaca: os GT350 feitos sob encomenda da locadora de automóveis Hertz. Esta é a história do Shelby GT350-H, o melhor carro de aluguel do mundo.

Naquele ano, o Mustang mais potente que existia era o modelo equipado com o motor Windsor HiPo (High Power) — um V8 de 289 pol³ (4,7 litros) capaz de entregar 275 cv a 6.000 rpm e 43,1 mkgf de torque. Era o suficiente para que o ‘Stang fosse um sucesso imediato, mas a Ford queria mais, e Shelby sabia exatamente o que fazer.

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O ponto de partida foi o Mustang fastback, lançado um pouco depois da estreia do cupê hardtop e do conversível. Ainda que o texano seja famoso pela frase there’s no replacement for displacement — que vamos traduzir como “não há melhoramento como mais deslocamento” para manter a rima —, ele não aumentava o volume do motor 289. Para ganhar mais potência, ele preferiu modificações mais simples: coletor de admissão de alumínio, carburador Holley de corpo quádruplo e sistema de escape retrabalhado garantiam que a potência subisse para 310 cv e o torque para 45,5 mkgf — o suficiente para que o carro acelerasse até os 100 km/h em 6,5 segundos e arranhasse os 200 km/h — lembre-se, na metade dos anos 60. Só havia uma transmissão disponível — uma Borg-Warner de quatro marchas.

O eixo traseiro de Ford Falcon era substituído pelo do Ford Galaxie, mais resistente, e o carro também ganhava freios maiores na dianteira (a disco Kelsey-Heyes de 11 polegadas) e na traseira (a tambor).

Eram também feitas modificações para ficar mais leve: o capô era substituído por uma peça de fibra de vidro e não havia banco traseiro — este dava lugar ao estepe, e sua remoção também permitia que o carro competisse na SCCA, cujas regras só permitiam carros de dois lugares.

Os carros eram todos pintados de branco “Wimbledon White” com faixas azuis “Guardsman Blue” perto das soleiras — as clássicas faixas que percorriam o capô, o teto e o porta-malas eram opcionais, bem como as rodas Cragar de magnésio — e quase todos os donos pediam por elas, o que torna difícil encontrar hoje um carro que não tenha as faixas e as rodas. Foram feitos, no total, 562 Shelby GT350 naquele ano — incluindo 34 GT350R de competição.

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Para 1966, o GT350 ganhou alguns itens de conforto, e o banco traseiro voltava como opcional. Também foram introduzidas mais cores — vermelho, azul, verde e preto. Também era oferecida uma transmissão automática de três marchas como opcional, além de um compressor mecânico Paxton — curiosamente, pouquíssimos carros foram equipados com o compressor, que elevava a potência para 440 cv.

Visualmente, o carro ganhava uma pequena janela na coluna traseira, no lugar das saídas de ar, além de entradas de ar funcionais para os freios. Contudo, dos 1.373 carros produzidos em 1966, os primeiros 252 ainda usavam a carroceria do Mustang 1965 — o que causa uma pequena confusão sobre a identidade dos GT350 de 1966.

O que importa aqui, contudo, é que foi em 1966 que Carroll Shelby fechou uma parceria com a locadora Hertz para produzir uma série especial do GT350 para aluguel.

Como conta a edição de maio de 1970 da Car and Driver, os carros não eram muito diferentes de um GT350 normal — o que não era, de forma alguma, ruim. O maior atrativo, segundo a revista, era o fato de poder dirigir um esportivo sem ter que comprar um esportivo.

A parceria começou com a ideia de que Shelby produzisse entre 50 e 100 carros para serem distribuídos entre as unidades da rede Hertz. Contudo, o programa foi um sucesso absoluto e, naturalmente, a Hertz continuou encomendando carros — até que o número chegou a 1.003 unidades.

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Dizem que o carro mais rápido do mundo é um carro alugado. Em um tempo menos politicamente correto, isto era levado a sério — com uma taxa diária de apenas 17 dólares, ou então 17 centavos por km rodado, muitos Hertz foram usados em competições de arrancada, e alguns até eram devolvidos com furos no interior, indicando a instalação de gaiolas de proteção. Alguns iam mais longe, alugando os carros só para tirar o motor e colocar em seus Mustang originais, correr com eles no fim de semana, colocar o motor de volta e devolvê-los à locadora. Depois de usados até o limite, os carros eram devolvidos à Ford, que os recuperava e vendia como Shelby GT350-H.

O Shelby GT350-H que está no imaginário coletivo é preto com faixas douradas — uma combinação clássica, sim, mas não era a única dispoinível: também foram feitos carros brancos, vermelhos e azuis. Se você fosse comprar qualquer um deles, talvez conseguisse até um belo desconto pois, mesmo restaurados, ainda eram carros submetidos a muito abuso. Sendo assim, vários deles acabaram sendo destruídos por não haver quem os comprasse. Porém, com o passar das décadas, seu valor foi sendo reconhecido, e o preço deles não parou de subir desde meados da década de 90 — hoje, um Shelby GT350-H não custa menos de US$ 150 mil (R$ 340 mil).

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Em 2006 o GT350-H fez 50 anos e, para comemorar, a Ford lançou o Shelby GT-H. Foram produzidas 500 cópias, todas pretas com faixas douradas, e cada uma delas recebeu um leve aumento de potência em relação ao Mustang GT, na qual foram baseadas. As modificações feitas pela Ford Racing incluiam um novo sistema de admissão e escape, e garantiam 25 cv a mais sobre os 305 cv do GT, totalizando 330 cv. Foram feitas 500 unidades que, assim como em 1966, só estavam disponíveis para locação na Hertz — uma homenagem justa a um verdadeiro clássico americano.

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[ Fotos: Divulgação, Steve Sexton

 

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