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Siga em frente: os “retões” mais emblemáticos do automobilismo

Os fãs da Fórmula 1 têm motivos para comemorar nesta semana: ontem (1) foi revelado o novo traçado do Circuito de Monza, na Itália, e pela primeira vez desde 1971 a longa reta Rettifilo Tribune não será interrompida por uma chicane. Para quem gosta de ver e ouvir os carros acelerando até o limite — algo que sempre foi uma atração à parte em Monza — é uma ótima notícia.

Construído em 1954, o Circuito de Monza ficou famoso pelas disputas nas retas — no fim dos anos 1960, era comum que os pilotos usassem o vácuo dos carros da frente para ganhar velocidade e ultrapassar os rivais, o que resultou em várias chegadas bastante apertadas.

A chicane que será removida, Variante de Rettifilo, e a chicane Variante Ascari, que fica entre a “quase-reta” Curva di Lesmo e a última reta do circuito, foram construídas em 1972 exatamente para tornar Monza um pouco menos veloz.

O circuito ficou alguns metros mais longo (passou de 5.750 para 5.755 metros) e, em teoria mais seguro. No entanto, as motos continuaram usando o traçado antigo até 1973, quando dois graves acidentes resultaram em cinco mortes — incluindo as de Renzo Pasolini e Jarno Saarinen. Além disso, as modificações se mostraram ineficientes para reduzir a velocidade dos carros, levando os administradores do circuito a redesenhar suas curvas.

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Agora, 45 anos depois, o Rettifilo Tribune voltará a sua forma original — e, com 1,4 km de comprimento, será a mais longa reta do calendário. De acordo com o arquiteto responsável pelo projeto, Jarno Zafelli, a mudança deverá reduzir os tempos de volta em cerca de 1,5 segundo. Ao que tudo indica, a reforma tem a ver com as negociações entre o circuito e Bernie Ecclestone, estaria insatisfeito com a estrutura de Monza e colocou em cheque a permanência do Grande Prêmio da Itália na Fórmula 1.

A gente está feliz com a notícia — é um sopro de alívio, mesmo que pequeno, diante da artificialização da Fórmula 1 nos últimos anos. Tanto que vamos aproveitar para lembrar de alguns dos maiores e mais famosos retões do automobilismo.

 

Hunaudières, Circuito de La Sarthe

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A gente já falou muito, muito mesmo, a respeito do Circuito de La Sarthe aqui no FlatOut — até fomos para lá e fotografamos tudo para um guia caprichado da pista, mas vale repetir. Desde que as 24 Horas de Le Mans foram criadas, na década de 1920 (leia toda a história aqui), as corridas são disputadas no circuito de La Sarthe, que é composto por diversas rodovias entre os municípios de Le Mans, Arnage e Mulsanne.

Originalmente, Hunaudières era uma reta de 6 km ininterruptos que levava à vila de Mulsanne (por isso, muitos a chamam erroneamente de “reta Mulsanne” até hoje), e foi palco de grandes feitos: na década de 1970, o Porsche 917 alcançou nada menos que 362 km/h na Hunaudières. Depois disso, a organização das 24 Horas de Le Mans limitou o tamanho dos motores e os carros ficaram mais lentos.

Porsche 956 na Hunaudières, acima dos 400 km/h. Veyron who?

Com a chegada do Grupo C, np fim da década de 1980, a coisa voltou a ficar feroz — era comum que os protótipos alcançassem os 400 km/h. Então, em 1990, a FIA determinou que nenhum circuito poderia ter uma reta maior que 2 km, e Hunaudières ganhou duas chicanes. Mas este não foi o único motivo: acidentes fatais nos anos 80 (Jean-Louis Lafosse em 1981 e Jo Gartner in 1986) e o grande estresse a que se submetiam os motores e freios dos carros também contribuíram para a modificação na Hunaudières. Para acelerar por lá sem chicanes, só no videogame — ou então indo até lá e se arriscando a tomar uma bela multa. Melhor não fazer isso.

 

Mistral, Paul Ricard

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Outro circuito na França, outra reta estrangulada por chicanes. O autódromo de Paul Ricard, que fica Le Castellet, próximo a Marseille, foi construído em 1969 e financiado pelo magnata do pastis (uma espécie de licor destilado de anis) Paul Ricard, que simplesmente queria saber como era construir um circuito de corridas.

Nigel Mansell chega aos 325 km/h na reta de Paul Ricard — em 1987, já com as chicanes!

Na época, Paul Ricard era um dos circuitos mais modernos e seguros do automobilismo, e foi palco de uma corrida de Fórmula 1 pela primeira vez em 1971. Sua característica mais marcante era a longa reta Mistral, de 1,8 km, que recebeu uma chicane depois que o piloto Elio de Angelis, da Brabham, morreu durante uma sessão de treinos. Antes disso, em 1985, Ayrton Senna bateu no fim da reta depois de uma falha mecânica no seu Lotus 97T (que usava um V6 Renault de 1,5 litro com turbo e quase 800 cv).

 

Fuji Speedway

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Nem toda reta tem nome, sabia? A reta do circuito de Fuji Speedway, que fica ao pé do famoso Monte Fuji, no Japão, é anônima, mas nem por isso é menos marcante: estamos falando do primeiro circuito japonês a receber um Grande Prêmio de Fórmula 1, lá em 1976.

Sua reta de 1.475 metros é uma das mais longas da atualidade, e também costuma ser utilizada em corridas de arrancada — além de ser um bom local para conferir a velocidade máxima do Nissan GT-R, como os caras da Best Motoring fizeram no vídeo acima.

 

Autodromo Hermanos Rodríguez

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Foto: F1Fanatic

No ano passado contamos a história dos irmãos Pedro e Ricardo Rodríguez, cuja curta trajetória no automobilismo levou a administração do antigo autódromo mexicano de Magdalena-Mixhuca a rebatizá-lo com seu sobrenome. Por causa da altitude do circuito, mais de 2.600 metros acima do nível do mar, o ar é mais rarefeito e, como resultado, os carros sofrem menos com o arrasto aerodinâmico, ultrapassando os 370 km/h no fim da reta.

A longa reta final do circuito tem 1,2 km de extensão e vem antes da Peraltada, a curva extremamente veloz que, no dia 1º de novembro de 1962, matou Ricardo Rodríguez em um acidente que até hoje não foi explicado direito.

 

Circuito Internacional de Xangai

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Enquanto a reforma de Monza, cuja conclusão está prevista para 2017, não sai, o circuito de Fórmula 1 da China detém a reta mais longa da Fórmula 1, com 1,3 km de extensão. Sua construção, financiada pelo governo chinês, começou em 2003 e a inauguração aconteceu em 2004.

Dá para dizer que foi um investimento de sucesso — em 2005, o circuito recebeu uma etapa da V8 Supercar australiana e atraiu mais de 250.000 espectadores, sendo que a capacidade do autódromo é de 200.000 pessoas. Em 2008, a Moto GP deixou de ser disputada no circuito, pois a Federação Internacional de Motociclismo estava preocupada com a superlotação.

 

Ehra-Lessien

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A pista de testes de Ehra-Lessien é, na verdade, um complexo “secreto” localizado na cidade de mesmo nome, nos arredores de Wolfsburg — ainda que a palavra mais apropriada seja “exclusivo”, visto que hoje em dia todos sabem que Ehra-Lessien existe, mas apenas o grupo VW tem acesso à pista.

Ehra-Lessien foi construída em 1965, em meio à Guerra Fria entre americanos e soviéticos. O local foi escolhido estrategicamente — próximo à fronteira com a Alemanha Oriental, em uma zona de exclusão aérea, tudo para dificultar ao máximo o acesso não autorizado e que se registrassem fotografias do layout do circuito.

Hoje, obviamente, esta preocupação não existe — qualquer um com acesso à Internet pode ver imagens de alta definição feitas por satélite e explorar o circuito todo visto de cima. Dá até para ver vários carros sendo testados ao longo dos 96 km do circuito, que traz uma boa variedade de superfícies e diferentes tipos de curva para simular diversas condições de rodagem e avaliar o desempenho e o comportamento do carro e de seus componentes sob diversas condições.

De fato, não há muito mais informações a respeito do layout de Ehra-Lessien (o que torna o circuito “secreto” até certo ponto), mas de qualquer forma o circuito é realmente famoso por sua reta de 9 km. Dizem que a reta é tão longa que você não enxerga a outra ponta devido à curvatura natural da Terra.

 

Menção honrosa: Bonneville Salt Flats

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Há cerca de 15 mil anos, um gigantesco lago salgado dominava boa parte do território do que hoje é o estado americano de Utah. Hoje, só sobrou o sal sobre o qual, todos os anos, milhares de pessoas levam seus carros com o intuito de atingir a maior velocidade que conseguirem. São as Planícies de Sal de Bonneville, ou Bonneville Salt Flats, uma verdadeira Meca para os amantes da velocidade.

O grande lago de sal, que é chamado de “Grande Lago de Sal” (sério), existe até hoje, mas corresponde a uma fração do espaço que ocupava no período pré-histórico — 51 mil km², com 300 metros de profundidade. Na década de 1830, um oficial das forças armadas dos EUA chamado Benjamin Bonneville explorou o oeste do país e provou que a região já havia sido uma bacia hidrográfica. Por esta razão, o lago pré-histórico foi batizado em sua homenagem, bem como as planícies de sal que restaram depois que o lago secou.

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Aconteceu décadas depois — mais precisamente, em 1907. O carro ainda era uma invenção recente, e as pessoas queriam dirigi-los o tempo todo em todo lugar. Travessias do deserto de sal eram comuns na época como testes de resistência, e um homem chamado Bill Rishel e dois de seus sócios atravessaram o lago de carro. O modelo em questão era um Pierce-Arrow, uma das várias pequenas fabricantes que surgiram e desapareceram nos primeiros anos do automóvel.

O passo seguinte foi natural — se dá para dirigir, por que não correr? Não demorou para que cada vez mais gente aparecesse de carro nas planícies de sal, e a fama de Bonneville como um bom lugar para acelerar logo se espalhou para outros países, dando início a uma tradição que se repete todos os anos até hoje. Leia mais sobre esta história aqui e aqui!

 

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