Sim: nós temos (e tivemos) circuitos de rua no Brasil

Leonardo Contesini 6 dezembro, 2017 0
Sim: nós temos (e tivemos) circuitos de rua no Brasil

Não foi desta vez que a Fórmula-E desembarcou no Brasil. Como vimos na semana passada, a prova já estava confirmada e tinha data marcada para acontecer, mas devido à falta de um acordo entre os promotores da prova e a SPTuris, que administra o Anhembi, a prova acabou cancelada e adiada.

Como toda prova da Fórmula-E, a etapa brasileira também seria uma corrida de rua, disputada em um circuito formado no Anhembi e arredores, baseado no traçado usado pela Indy entre 2010 e 2013. Também seria o retorno dos monospostos às ruas brasileiras. Entre a metade dos anos 1980 e o final dos anos 2000, o Brasil teve uma série de circuitos de rua que colocaram o automobilismo ao alcance do público, atraindo milhares de pessoas às corridas e apresentando a todos um automobilismo diferente daquele que se vê pela TV.

É justamente deles que vamos falar neste post, que irá lembrar de um automobilismo que fascinava e atraía multidões até não muito tempo atrás — e, claro, também vamos lembrar de outros dois circuitos do passado mais distante.

 

Salvador

A primeira capital do Brasil teve três circuitos de rua diferentes. O primeiro foi criado para receber o Renault Speed Show, um evento patrocinado pela fabricante francesa que reunia etapas da Fórmula Renault e da Copa Clio e aconteceu em novembro de 2005.

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Foto: Clube do Volante

O circuito foi organizado na Cidade Baixa, sob o olhar do Elevador Lacerda, e usava a Avenida da França, a Avenida Lafayete Coutinho e a Avenida Estados Unidos para formar o traçado a beira-mar que, segundo os relatos da imprensa sobre o evento, reuniu 200.000 espectadores. Apesar do sucesso, os organizadores decidiram não realizar uma segunda edição em 2006, supostamente porque o circuito era perigoso demais.

O segundo circuito foi o chamado Circuito do CAB, sigla de Centro Administrativo da Bahia, um complexo que abriga boa parte das secretarias de estado baianas. Ele foi formado em 2009, quando a Stock Car anunciou que faria sua primeira corrida em um circuito de rua. Tinha 2,8 km e foi desenhada com a ajuda do piloto baiano Diego Freitas, mas quando os carros entraram no circuito ele se revelou estreito demais para ultrapassagens, a entrada dos boxes era perigosa e o único ponto de ultrapassagem tinha bandeira amarela permanente por conta do risco de acidentes na entrada dos boxes.

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Foto: AutoBrasil

Para a edição de 2010 da prova, os organizadores mudaram o traçado para torná-lo mais competitivo e mais largo. O circuito foi rebatizado como Circuito Ayrton Senna, ganhou um monumento ao piloto tricampeão e 60.000 cadeiras para o público e desde então recebe anualmente uma etapa da Stock Car.

 

Vitória

Considerado por muitos o melhor dos circuitos de rua do Brasil, o Circuito da Enseada do Suá na capital capixaba foi criado em 1989 quando a cidade firmou uma parceria para receber as provas da Fórmula Ford, Fórmula Chevrolet, Copa Clio e Fórmula Renault.

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Entre 1989 e 1993 eram os Fórmula Ford que roncavam pelas ruas da enseada. Em 1994 a prefeitura ficou sem verba e cancelou as provas no circuito mas em 1995 e 1996 a Fórmula Chevrolet deu as caras por lá.

Depois disso, o circuito foi reativado em 2002 para o Renault Speed Show, que trazia a Copa Clio e a Fórmula Renault. Foram seis edições realizadas entre 2002 e 2007, até que a fabricante francesa encerrou as categorias no Brasil. O circuito combinava trechos de alta com junções travadas e nenhuma área de escape.

 

Florianópolis

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Foto: Blog do Sanco

Há quem diga que o circuito de Vitória era “a Mônaco brasileira”, mas esse título talvez seja mais adequado ao circuito de rua de Floranópolis, que via os carros rasgando sua Beira-Mar a poucos metros do Oceano. O circuito foi formado em 1986 e recebeu provas até 1997.

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Foto: Blog do Sanco

Com 2.910 metros, ele passava pelo centro da cidade e pela Baía Sul, entre prédios, as duas famosas pontes que ligam a Ilha ao Estreito e a rodoviária municipal. Neste circuito correram a Fórmula 2 Sul-Americana, a Fórmula 3 Sul-Americana e a Fórmula Ford — esta última em 1989, quando Rubens Barrichello conquistou sua primeira vitória na categoria.

Tal como Vitória o circuito foi desativado no fim dos anos 1990, mas a cidade ainda teve um segundo circuito de rua formado para o Renault Speed Show. Desta vez, em vez de usar a Beira Mar Norte, o circuito foi formado na recém-inaugurada Via Expressa Sul e recebeu corridas da Copa Clio e da Fórmula Renault até 2004.

 

GP da Cidade de São Paulo

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Foto: São Paulo Antiga

A Fórmula 1 chegou à São Paulo há 45 anos, com uma corrida extra-oficial em 1972. Apesar da presença das principais equipes da F1 e do nome “Grande Prêmio do Brasil de 1972”, aquela prova não foi o primeiro GP realizado em São Paulo. O primeiro GP aconteceu em 1936, em um circuito de rua.

O circuito foi instalado no Jardim América, e se estendia da junção da Av. Atlântica (hoje Rua Atlântica) com a Av. Brasil até a Rua Canadá. Dali o traçado juntava-se à Rua Chile (hoje parte da Av. 9 de Julho), depois à Rua Estados Unidos, de novo à Rua Canadá e finalmente voltava à Av. Brasil.

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Sendo uma corrida nos anos 1930, é claro que a estrutura era precária. Havia apenas uma arquibancada na Av. Brasil, barreiras de feno para segurar carros desgovernados e espectadores atravessando a pista sempre que quisessem. Como resultado, a talentosa pilota Hellé Nice (que deu origem ao nome brasileiro “Elenice”) acabou envolvida em um acidente que matou cinco pessoas na volta 56, enquanto disputava a terceira posição com Manuel de Teffé.

 

Circuito da Gávea

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O Rio de Janeiro teve diversos circuitos de rua na primeira metade do século 20 (como o Circuito de Botafogo, de Marependi e do Fundão), mas o mais famoso deles — e de todos os circuitos de rua brasileiros — foi, sem dúvida, o Circuito da Gávea.

O traçado se estendia por mais de 11 km, tinha mais de 100 curvas, quatro tipos de piso diferentes (asfalto, concreto, paralelepípedos e areia) e ainda tinha trilhos de bonde cruzando a pista em determinados pontos. Foi criado em 1932 para receber o Grande Prêmio Cidade do Rio de Janeiro, e teve provas realizadas até 1954.

O traçado iniciava na Rua Marquês de São Vicente, seguia pelas Avenidas Bartolomeu Mitre, Visconde de Albuquerque, Niemeyer e Estrada da Gávea, onde atualmente é o bairro da Rocinha. Ali os pilotos encontravam cotovelos para a subida de 170 metros em 2 km, o que rendeu à pista o apelido de Trampolim do Diabo.

 

Circuito do Anhembi

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O mais recente desta lista é o circuito de rua formado em 2010 para receber a IndyCar no Brasil. A categoria, que já correra em Jacarepaguá nos anos 1990, voltou ao país desta vez para um circuito de rua formado na Zona Norte de São Paulo, provavelmente devido às restrições do contrato da Fórmula 1 com Interlagos.

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O traçado usava trechos da Avenida Olavo Fontoura, da Marginal Tietê, das ruas Massinet Sorcinelli e Marechal Leitão de Carvalho, e terminava/começava no Sambódromo. A reta na Marginal Tietê tinha 1.500 metros, e era uma das mais longas dos circuitos da Indy, permitindo que os carros chegassem aos 340 km/h.

A edição de 2013 completa 

O circuito recebeu apenas quatro edições da prova, até deixar o calendário na temporada de 2014. Uma variação deste traçado seria usada para a prova da Fórmula-E em março de 2018.