Suzuki Mighty Boy, a grande pequena picape com nome de super herói

Dalmo Hernandes 4 dezembro, 2017 0
Suzuki Mighty Boy, a grande pequena picape com nome de super herói

Nesta série recente a sobre as picapes esportivas, falamos sobre a F-150 SVT Lightning, a Chevrolet 454, a GMC Syclone e a Ram SRT-10 com motor de Dodge Viper (é sempre bom lembrar). Todas elas grandes e violentas caminhonetes americanas, utilitários com bem mais que apenas um quê de muscle car. Hoje, vamos reduzir um pouco a escala das coisas.

Um pouco? Na verdaade, vamos falar de uma picape esportiva cujo motor não tem dez, oito, seis ou mesmo quatro cilindros. São três. Deslocamento? Só 550 cm³, com menos da metade da potência de um Fiat Uno. Seu nome? Suzuki Mighty Boy, e ela é a picape esportiva em miniatura fabricada no Japão nos anos 80 mais legal que existe. Bem, provavelmente é a única. O que não significa que não seja a melhor!

O fato é que a Suzuki Mighty Boy é uma picape derivada de um kei car – aqueles minicarros japoneses que estavam presentes em massa no Gran Turismo. Não era coincidência: os kei cars são parte importante da cultura automotiva japonesa. Por respeitarem restrições de tamanho, potência e consumo de combustível, eles são mais baratos, pagam menos impostos e custam menos para manter com a documentação em dia. Nas zonas rurais, seus donos não precisam comprovar que possuem uma vaga para estacionar (algo que é exigido para carros “normais” e custa bem caro). Por isso, muita gente no Japão nunca teve um carro que não fosse um kei, o que automaticamente criou toda uma subcultura automotiva em torno dos minicarros.

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Foto: Japanese Nostalgic Car

Os primeiros kei cars, fabricados nos anos 50, tinham motores de até 350 cm³. O limite foi ampliado para 550 cm³ em 1976 e para 660 cm³ em 1990, permanecendo assim até hoje. É importante que se entenda tudo isto antes de continuar aprendendo mais sobre a Suzuki Mighty Boy. Quer dizer, caso olhar para ela não seja o suficiente para compreender porque a gente a achou tão legal.

O ano era 1983, e a Suzuki havia acabado de lançar a geração SS40 do Cervo, seu kei car jovial. A geração anterior, de código SS20, era a prova de que havia kei cars para todos os gostos – um fastback em miniatura com motor e tração na traseira. O motor de 539 cm³ tinha três cilindros, dois tempos e 28 cv, mas o carro pesava só 535 kg. Se disséssemos que dirigir um carro com motor e tração na traseira que pesa um cisco mais que meia tonelada não deve ser divertido, seríamos hipócritas. Mesmo com menos de 30 cv.

Só que… a nova geração tinha motor e tração na dianteira. O visual continuava bacaninha, com uma nova interpretação do tema fastback, mais quadrada e moderna. O entre-eixos continuava curto, mas o Cervo já não tinha aquele ímpeto nas curvas típico dos tração-traseira. O fato de ter “tudo atrás” também tirava um pouco do charme old school do Cervo – algo que está sendo trazido de volta por caras como o atual Renault Twingo e o genial Honda S660.

Foi então que, para convencer ao público de que o Cervo ainda era um carro de personalidade esportiva, a Suzuki decidiu transformá-lo em uma pequena picape. Que ideia, er, genial, não? Uma picape feita sobre um carro que mal levava duas pessoas e tinha só 2,15 metros de entre eixo – que utilidade aquilo teria, além de ser descolado pra caramba em plenos anos 80?

Estamos sendo irônicos? DESCUBRA

Pensando bem, é isso: o fato de não ter utilidade prática nenhuma como picape era o que fazia da Suzuki Mighty Boy um kei car extremamente descolado. A inspiração eram as Utes australianas – as picapes feitas sobre sedãs de tração traseira que se tornaram o maior símbolo da cultura automotiva da Austrália, e têm na terra dos cangurus status parecido com o que o Chevrolet Camaro ou o Ford Mustang possuem nos EUA.

Só que as Utes até eram… úteis (a gente não ia deixar passar), enquanto a Mighty Boy tinha uma caçamba de apenas 60 cm de comprimento. Sério, ela era mais larga do que comprida, e mal acomoda uma mala grande. E pobre daquele que tentar fazer uma piscina improvisada nos dias de calor…

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Mas, cá para nós: talvez a primeira versão picape do Fiat 147, a famosa “saboneiteira”, seja a única caminhonete tão simpática como a Mighty Boy. Olha só para ela! Parece um filhote de Saveiro com uma dose extra de kawaii. Não é uma graça? É, sim, claro que é!

Além disso, a caçamba pequena permitia que a cabine fosse bastante espaçosa para duas pessoas, visto que ocupava quase todo o entre-eixos. A posição de dirigir era parecida com a de um cupê. Na verdade o nome completo da caminhonetinha é Suzuki Mighty Boy Utility Coupé.

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É claro que você é um cupê utilitário! É sim!

A Mighty Boy também tinha outras características: pequenas rodas de 10 polegadas, bancos com o letreiro “Mighty Boy” bordado no encosto, faróis redondos (o Cervo que lhe servia de base tinha faróis quadrados) e câmbio manual de quatro marchas ou automático de duas marchas. O motor de 550 cm³ agora era quatro-tempos, tinha comando no cabeçote e entregava os mesmos 28 cv a 6.000 rpm, porque um kei car não podia ter mais do que isto no Japão na época.

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A Mighty Boy também foi vendida na Austrália, onde a potência era anunciada em 31 cv e foram vendidos cerca de 2.800 exemplares. Fora isto, dificilmente outro país que não o Japão iria querer uma caminhonete tão pequena e tão… fofinha.

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Em 1985, a Mighty Boy passou por seu único facelift, com uma nova dianteira e a adoção de duas versões: PS-A, com rodas de 10 polegadas e câmbio de quatro marchas; e PS-QL, com rodas de 12 polegadas e a opção por câmbio manual de cinco marchas ou automático de duas. Além disso, tinha bancos individuais, conta-giros, bagageiro no teto e faróis retangulares.

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Um detalhe muito importante: não importa qual seja a versão, a velocidade máxima da Mighty Boy era de 115 km/h, enquanto o quarto-de-milha jamais era cumprido antes dos 25 segundos. Só que não tem a ver com desempenho: a Mighty Boy é uma picape bacana por sequer tentar emular a parte utilitária de uma picape, e se preocupar apenas com a parte divertida e descolada. Tanto que, mesmo depois de sair de linha, em 1987, ela continuou conquistando fãs e hoje é um dos kei cars mais cultuados do Japão, ainda que de uma forma mais underground que, digamos, o Mazda Autozam AZ-1 ou o Suzuki Cappuccino.

Além do nome, que beira o irônico, ela não tem nada de forte. Mas a gente não deixaria passar a oportunidade de acelerar uma Mighty Boy. Até porque… nada impede que se coloque um V8 nela.

E que tal um motor de Hayabusa, como o da foto que abre este post? Ao menos fica tudo em casa.