Swap gourmet: uma Ferrari 308 com o V12 da Testarossa – feita na concessionária do Mansell!

Dalmo Hernandes 20 abril, 2017 0
Swap gourmet: uma Ferrari 308 com o V12 da Testarossa – feita na concessionária do Mansell!

Nas primeiras décadas de existência do automóvel, os carros eram feitos de forma muito mais personalizada. Você comprava um chassi com a mecânica instalada e, depois, pedia para que outra empresa construísse e instalasse uma carroceria para você. Com a evolução da indústria automotiva, este nível de personalização já não existe mais – claro, quando compra um carro de alto luxo, você tem centenas de opções de acabamento, revestimento e pintura, mas não pode simplesmente pedir para que o carro receba a carroceria ou o motor que você quiser. A não ser que você tenha muita, muita grana.

Dito isto, não faz tanto tempo assim que você podia comprar uma Ferrari e, se não estivesse satisfeito com seu nível de potência, pedir para trocar seu motor – como é o caso desta Ferrari 308 GTS QV 1985 que, em vez do V8 original de fábrica, traz atrás dos bancos o V12 de uma Testarossa. Claro que, se você contasse com a ajuda de um piloto de Fórmula 1, as coisas ficavam mais fáceis.

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Alguém como Nigel Mansell, que comprou uma revenda de veículos chamada Emblem Sports Cars em meados da década de 1980. Talvez ele já estivesse pensando em sua primeira aposentadoria, que aconteceu em 1992, e procurasse uma fonte de renda… ou não. O fato é que Mansell comprou esta revenda especializada em esportivos na pequena vila de Pimperne, no norte da Inglaterra, e até vendia carros de várias marcas, mas seu foco eram as Ferrari. O mecânico contratado por Mansell também se chamava Nigel – Nigel Hudson. E ele é considerado, até hoje, um dos melhores mecânicos de Ferrari do planeta. Para se ter uma ideia, ele era o preparador responsável pelos motores das Ferrari 308GT4, carros usados no Maranello Challenge – uma categoria monomarca criada pelo Ferrari Owners Club em 1986.

A Ferrari 308 QV (de Quattrovalvole) era o modelo de entrada da marca de Maranello na época, equipada com um V8 de três litros (daí seu nome – 3.0 + 8 cilindros) e tinha um chassi tubular tipo spaceframe, cuja origem estava na primeira Ferrari Dino, a 246. O motor era equipado com quatro carburadores Weber 40 de corpo duplo e tinha comando duplo nos cabeçotes, quatro válvulas por cilindro e capacidade de entregar 255 cv a 6.600 rpm, com redline às 7.700 rpm. Não era um motor extremamente forte, mas era capaz de levar a 308 QV até os 100 km/h em 6,7 segundos, com máxima de 251 km/h. Excelente para a época.

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O primeiro dono da Ferrari 308 QV GTS em questão não estava muito satisfeito com o desempenho do V8. Por isto, logo depois de receber o carro no início de 1985, ele decidiu levar o carro à concessionária de Nigel Mansell – presumimos, por conhecer a reputação do “outro” Nigel.

Normalmente, Nigel Hudson preparava o motor das 308 colocando novos comandos de válvulas, carburadores maiores e componentes internos reforçados. Era o bastante para ganhar um pouco de potência – e também subir a redline para 8.000 rpm e trocava o sistema de escape, conferindo ao V8 de três litros um ronco bem mais visceral.

Desta vez, porém, Hudson decidiu fazer diferente: em vez de preparar o V8, por que não colocar logo um V12 atrás dos bancos da 308? Foi preciso que o bem-relacionado Mansell convencesse a Ferrari a vender para a Emblem Sports Cars um V12 novinho em folha, pelo qual pagou £ 75.000. O motor, com ângulo de 180° entre as bancadas de cilindros, era na verdade um flat-12 (e não um boxer como a própria Ferrari o denominou ao batizar a 512). Com deslocamento de 4.943 cm³ (4,9 litros) e quatro válvulas por cilindro (totalizando 48 válvulas no total), era lubrificado por um sistema de cárter seco, tinha taxa de compressão de 9,2:1 e entregava 396 cv a 6.300 rpm e 49,9 mkgf de torque a 4.500 rpm. Com ele, a Testarossa ia de 0 a 100 km/h em 5,3 segundos, aos 160 km/h em 11,4 segundos e aos 290 km/h de velocidade máxima — um desempenho bem mais interessante do que o da 308 original, mesmo com os 1.700 kg da pesada Testarossa.

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A estrutura da 308 GTS precisou ser adaptada para que o V12 coubesse montado na transversal, como era o V8 original, e dá para ver que ele fica bem apertado no cofre. O carro ficou pronto em 1989 – mesmo ano em que Mansell foi contratado pela Ferrari. Sendo o último piloto escolhido pessoalmente pelo próprio Enzo Ferrari, o britânico era muito estimado pela Scuderia.

Com o novo motor, a Ferrari ficou conhecida como Nigel’s Flyer, e até hoje não se sabe se por causa do Nigel piloto ou do Nigel mecânico.

Depois do engine swap gourmet, o proprietário curtiu o carro por mais alguns anos com o novo motor antes de vendê-lo, e que seu segundo dono disputou um rali de regularidade com ele antes de guardá-lo em um galpão em 2004 ou 2005.

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Depois de quase dez anos parada, a 308 GTS foi comprada pelo seu terceiro e mais recente proprietário em 2013. Ele fez questão de procurar o próprio Nigel Hudson, agora trabalhando de forma independente, para uma revisão completa e abrangente, sem conter gastos. O serviço levou dois anos, durante os quais o motor, o câmbio manual de cinco marchas e a suspensão foram desmontados e inspecionados, e todos os reparos e substituições necessários foram realizados. Detalhe: o revestimento do interior é original de fábrica, e apresenta marcas do tempo que, neste caso, são até perdoáveis, pois mostram que esta Ferrari foi dirigida regularmente – como deve ser.

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Agora, o carro será leiloado pela Silverstone Auctions, em um leilão marcado para o mês que vem. A companhia diz que o carro acompanha todos os manuais originais e notas de serviços recentes realizados por Nigel Hudson, além de um arquivo com registros bastante abrangentes da trajetória da Nigel’s Flyer. Espera-se que o carro seja arrematado por algo entre £ 50 mil e £ 60 mil (R$ 200-240 mil, aproximadamente).