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Car Culture

Swap reverso: os modelos Porsche com motores Volkswagen

A origem comum e a relação estreita de parentesco entre Volkswagen e Porsche fizeram com que os carros da marca de Stuttgart fossem referências visuais e mecânicas constantes na hora de desenvolver versões mais esportivas e/ou personalizadas dos VW.

Isso foi especialmente comum nos anos 1950 e 1960, quando os preparadores usavam componentes do Porsche 356 (ou fabricavam similares) para melhorar o desempenho dos Fuscas. Isso quando não transplantavam o motor completo de velhos Porsche.

Ainda hoje os modelos Porsche são fonte de inspiração para restomods e/ou projetos de alto desempenho — não apenas dos Fusca, mas de qualquer modelo do Grupo Volkswagen. Aliás, o próprio grupo fez isso nos anos 1990, quando entregou à Porsche um Audi S2 Avant e pediu a ela que fizesse um supercarro com a perua. O resultado todos nós conhecemos muito bem.

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Curiosamente, a receita contrária também foi uma constante na história da Porsche: foram várias as vezes que a marca recorreu à Volkswagen para produzir versões mais simples de seus modelos — ou até mesmo modelos completos. Sim: estamos falando de Porsches com motores e componentes da Volkswagen.

A primeira vez que isso aconteceu foi no final dos anos 1960, quando a Porsche precisava de um modelo de entrada pra substituir o 912 e a Volkswagen precisava de um sucessor para o Karmann-Ghia. Diante da necessidade mútua, as fabricantes se uniram para resolver os dois problemas com um projeto só. O resultado foi o VW-Porsche 914, lançado em 1969.

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O roadster/targa trazia motores flat-4 de 1,7 a dois litros entre o cockpit e o eixo traseiro — todos fornecidos pela Volkswagen. A Porsche tinha uma versão com o 2.0 flat-6 dos primeiros anos do 911 (chamada 914/6), mas todos eles eram comercializados com o logotipo das duas empresas na traseira e alguns com o brasão da Porsche no capô.

Volksporsche

 

A produção do 914 durou até 1976, quando a Porsche decidiu desenvolver um novo esportivo, novamente em parceria com a Volkswagen.

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Enquanto o carro não ficou pronto, contudo, a marca decidiu relançar o Porsche 912 para substituir o 914 temporariamente. Para isso, bastou tirar da gaveta a receita que fez o 912 na década anterior: juntar a carroceria do 911 a um motor econômico de quatro cilindros. Sem um motor próprio de quatro cilindros, a Porsche usou o que já estava nas prateleiras: o 2.0 flat-4 da Volkswagen que era usado no 914/4.

Este motor foi usado somente por alguns meses, até o lançamento do Porsche 924 naquele mesmo ano. Além de se tornar o novo modelo de entrada da marca, ele também se tornou o terceiro Porsche a usar motores Volkswagen.

Isso porque o 924 foi mais um projeto desenvolvido em parceria entre as duas fabricantes: ele seria o modelo de imagem da Volkswagen e um modelo de entrada para a Porsche. Contudo, a Porsche ficou encarregada da maior parte do trabalho e, ao mesmo tempo, a Crise do Petróleo levou os executivos da Volkswagen a interromper e, mais tarde, a cancelar o projeto em favor de algo mais prático e versátil. A Porsche então lançou o 924 como um modelo próprio, enquanto a Volkswagen decidiu fazer um cupê baseado no Golf, o Scirocco.

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É por esse desenvolvimento inicial conjunto que o Porsche 924 usa um motor de quatro cilindros arrefecido a água e com dois litros de deslocamento. Batizado EA831, ele foi originalmente lançado no Audi 100 e, depois no Volkswagen LT, um furgão comercial posicionado acima da Kombi. Para usá-lo no 924 a Porsche fez um cabeçote próprio para ele, de forma que a potência foi elevada de 115 cv para 125 cv. Mais tarde a Porsche ampliou a cilindrada para 2,5 litros e fez o motor produzir 150 cv.

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A Porsche só voltaria a recorrer à Volkswagen no final dos anos 1990, quando enfrentava dificuldades financeiras e decidiu fazer um SUV para ampliar sua atuação no mercado. O novo projeto foi feito em parceria entre Volkswagen, Audi e Porsche e visava produzir um SUV capaz de se comportar dinamicamente como um esportivo. O resultado veio em 2002: o Volkswagen Touareg e seu irmão refinado, o Porsche Cayenne. Eles compartilhavam monobloco, suspensão, freios, transmissão, motores VR6 e V6 a diesel, e continuam intimamente relacionados também na segunda geração (produzida atualmente). Ambos compartilham plataforma e demais sistemas, além do motor 3.6 VR6.

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A última e mais recente colaboração entre Volkswagen e Porsche aconteceu em 2015, quando a Porsche decidiu lançar uma versão de entrada do Macan para mercados emergentes. A Porsche aproveitou o onipresente motor 2.0 TFSI da Volkswagen/Audi para embalar seu SUV médio.

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Sim: trata-se do mesmo motor 2.0 encontrado no Jetta TSI, no Golf GTI e no Fusca, além de vários outros carros do Grupo. No Macan, o 2.0 TFSI foi recalibrado para produzir 252 cv. Com a adoção do motor 2.0, o Macan se tornou o primeiro Porsche de quatro cilindros em 20 anos.

Na mesma época uma série de rumores ventilados pela imprensa europeia diziam que este motor, junto com o 2.5 TFSI da Audi poderiam equipar o Cayman e o Boxster. Felizmente a Porsche não repetiu o erro do 914 e desenvolveu dois novos flat-4 de dois e 2,5 litros para equipar a dupla e, de quebra, conseguiu um link direto com o clássico 718 dos anos 1960.

Agradecemos ao leitor Guilherme Bogossian pela sugestão (e pela foto do motor do Macan)

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