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Tesouros sobre rodas: os achados mais incríveis do mundo automotivo – Parte 2

O mundo automotivo é cheio de tesouros secretos, e não faz muito tempo que publicamos, aqui no FlatOut, uma seleção de alguns dos barn finds mais impressionantes de todos os tempos. Pois aquela era só a primeira parte — agora, é a hora da sequência. Preparado para babar em mais alguns achados inacreditáveis?

Os primeiros protótipos do Citroën 2CV

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De aparência frágil e visual excêntrico, e dotado apenas do necessário para rodar com um mínimo de conforto e o máximo de economia, o Citroën 2CV já parecia, de fato, um protótipo — e isto, bem, era parte do seu charme. A Citroën começou a construir protótipos já em 1939, bem antes do fim da Segunda Guerra Mundial. Todos eles já traziam as características principais do 2CV: laterais retas, chapas de metal estriado (mais resistentes), bancos removíveis e simplicidade mecânica.

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Foram anos de testes e modificações nos protótipos, que eram cinco, no total. Dois deles sobreviveram, sob os cuidados da Citroën, e por anos foram expostos em diferentes eventos e museus completamente restaurados.

“OK, mas e o barn find?” Pois bem: por décadas, até a própria Citroën acreditava que os dois carros eram os únicos que restaram. No entanto, em 1995, uma descoberta espetacular foi feita em um celeiro em La Ferté-Vidames, no norte da França: outros três protótipos do 2CV, que estavam escondidos do resto do mundo desde a Segunda Guerra. Mas o que eles estavam fazendo lá?

 

Durante o desenvolvimento do Citroën 2CV, a França foi ocupada pelo Terceiro Reich. Temendo que o projeto fosse encontrado pelos nazistas, a fabricante ordenou que eles fossem muito bem escondidos — e eles foram. Em 1950, a Citroën decidiu recuperá-los, e a chefia decidiu que os protótipos deveriam ser destruídos.

Bem, como sabemos, não foi o caso. Os empregados responsáveis por dar fim aos protótipos, apegados ao projeto, preferiram preservá-los por seu valor histórico. Eles voltaram para a Citroën, que optou por não restaurá-los.

 

“O achado da década”: coleção com mais de 200 carros na França

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No ano passado uma coleção com mais de 200 carros, encontrada em uma fazenda na França, foi chamada pela imprensa especializada de “o achado da década”. Não é para menos: a frota de clássicos, alguns extremamente valiosos, passou as últimas cinco décadas em uma propriedade rural, espalhada por garagens, galpões e, claro, celeiros.

A coleção pertencia ao um homem chamado Roger Baillon. Tudo começou na década de 50, quando ele decidiu começar uma coleção de carros. Empresário bem sucedido no setor de transportes, Baillon era apaixonado por carros e queria preservá-los em um museu. Ele acumulou mais de 200 carros ao longo de duas décadas, mas teve que abandoná-los por dificuldades financeiras.

Ele comprou cerca de 200 carros entre 1953 e 1966, todos eles especiais de alguma forma. São carros dos anos 1930, 40 e 50 — boa parte deles com carrocerias fabricadas artesanalmente por companhias francesas famosas como Chapron, Saoutchick e Million-Guiet — que dividem espaço com representantes mais contemporâneos, que foram comprados novos.

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Descoberta em setembro de 2014, a coleção teve 60 de seus carros leiloados pela agência francesa Artcurial em fevereiro de 2015.

 

Os primeiros protótipos do Pontiac Firebird

Em janeiro de 1967, cinco meses depois do lançamento do Chevrolet Camaro, a General Motors apresentou sua segunda arma na investida contra o Ford Mustang: o Pontiac Firebird. Fruto da mente de John DeLorean, o Firebird usava vários componentes do Camaro, mas tinha um visual bem mais elaborado e agressivo.  Na época, a Pontiac era uma divisão superior à Chevrolet, e o Firebird mostrava isto muito bem.

O fato é que John DeLorean só conseguiu convencer os executivos da GM a dar início ao desenvolvimento do Firebird depois de apresentá-los dois protótipos feitos à mão por ele e sua equipe — um cupê e um conversível. Além de serem os primeiros Pontiac da história, de chassis #1 e #2, os carros foram usados na promoção do novo pony car logo após o início das vendas.

Os carros foram encontrados por Richard Rawlings, restaurador de clássicos e apresentador do programa Fast N’ Loud, no Discovery Channel. Ele que ficou sabendo dos carros quando perguntou a um de seus clientes se ele não tinha algo para vender. O dono era um ex-jogador da NBA que comprou os carros na internet e ficou com eles por alguns anos — até que o Fast N’ Loud bateu em sua porta para fazer uma oferta.

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Rawlings ofereceu US$ 70 mil (cerca de R$ 260 mil) pelos carros, admitindo que era uma oferta ousada. O dono aceitou, e os carros foram levados até a Gas Monkey Garage para serem restaurados. Richard e o barbudo Aaron Kaufman investiram US$ 400 mil (R$ 1,5 milhão) na restauração dos dois Firebird, que foram vendidos por US$ 650 mil (R$ 2,45 milhão) a um museu no Texas.

 

O Lamborghini Miura de Stamatis Kokotas

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Além do nome engraçado, o cantor Stamatis Kokotas costumava ser chamado de “Elvis Grego”. Isto porque ele tinha as mesmas costeletas, usava as mesmas roupas e cantava baladas românticas que lembravam muito as músicas  do Rei do Rock em seus últimos anos de carreira. E, nos anos 70, havia um cara que gostava muito dele: Aristotle Onassis — o segundo marido de Jackie Kennedy Onassis. Os dois se casaram em 1968, cinco anos depois do assassinato do presidente John Kennedy.

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O fato é que Aristotle Onassis, um dos homens mais ricos do mundo, gostava muito das músicas de seu conterrâneo — a ponto de comprar de presente para Kokotas um Lamborghini Miura P400S, como forma de mostrar seu apreço. O cantor, que também era ávido piloto de rali, aparentemente não teve pena do carro, rodando mais de 88 mil km com o Miura. Até que o V12 de quatro litros e 370 cv não aguentou o ritmo e acabou quebrando.

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O motor foi enviado de volta para Sant’Agata Bolognese, na Itália, e por lá ficou — aparentemente, Kokotas desistiu do carro e o largou em uma das vagas da garagem do famoso hotel Hilton Athens, na capital grega. E por lá ele ficou décadas, até que, em 2003, uma reforma no hotel exigiu que todos os carros fossem removidos.

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Depois de ser levado para um depósito em local desconhecido, o Miura foi encontrado pela agência de leilões Coy’s, que o colocou sob o martelo em dezembro de 2012. O lance reserva pelo carro, que foi mantido como estava, era de US$ 600 mil (cerca de R$ 2,2 milhões), não foi atingido.

 

Um Escort XR3 quase zero-quilômetro

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O Brasil também vê alguns achados impressionantes de vez em quando. Como este clássico Escort XR3 que, há algumas semanas, foi encontrado pelo “caçador de raridades” Reginaldo de Campinas, que mantém um site na internet com as histórias dos diversos achados que encontra por aí.

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O Escort XR3 de primeira geração brasileiro usava um motor de 1,6 litro com comando no bloco, o famigerado CHT (Compound High Turbulence), de 83 cv. Não era muita potência — seu maior rival, o Gol GT, tinha um motor 1.8 de 99 cv), mas era o suficiente para uma condução esperta. E a decoração característica, com faróis auxiliares, asa traseira, rodas exclusivas e para-choques na cor da carroceria também ajudou a transformar o XR3 em sonho de consumo imediato entre os mais jovens.

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A história deste carro em especial, no entanto, é triste: seu primeiro dono o comprou zero-quilômetro em dezembro de 1984 e só pode curtir o carro por algumas semanas — ele morreu afogado em janeiro de 1985, durante uma viagem de férias no Pantanal Mato-Grossense. Muito abalado, o irmão do proprietário guardou o carro e proibiu que ele fosse vendido.

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Trinta anos depois, em 2015, o irmão também morreu. Com isto, o carro — com apenas 955 km rodados — foi vendido a Reginaldo, que publicou as fotos e contou a história em seu site, com o aviso: este carro não está à venda.

 

O último Shelby Cobra Daytona Coupe

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Quando se trata de Carroll Shelby em Le Mans, todos lembram de sua participação no programa do lendário Ford GT40, que venceu a corrida quatro vezes seguidas entre 1966 e 1969. O que nem todo mundo lembra é que Shelby já havia ido a La Sarthe antes — e não estamos falando de sua vitória ao volante do Aston Martin DBR1  em 1969.

Como você já deve saber, Shelby criou uma lenda ao colocar um motor V8 americano em um roadster britânico em 1962 — o AC Cobra, ou Shelby Cobra, é um dos esportivos que mais ganharam réplicas na história.

Em 1964, Carroll Shelby transformou o Cobra em um carro de corrida, dando a ele uma nova carroceria cupê com capô longo e traseira curta, na medida para enfrentar lendas entre os carros de turismo, como a Ferrari 250 GTO, nas corridas de longa duração. Seis carros foram feitos, todos equipados com motores V8 de 4,7 litros (289 pol³), e batizados como Shelby Daytona Coupe, em referência às 24 Horas de Daytona.

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Os carros foram muito bem sucedidos nas pistas, colecionando vitórias em Daytona, Sebring e Nürburgring — incluindo as 24 Horas de Le Mans de 1964, ficando em na classificação geral, com Dan Gurney ao volante. A história de quase todos eles depois da aposentadoria é bem documentada — a maioria deles continuou competindo por alguns anos e foi parar em coleções particulares. Com exceção de um, o primeiro de todos, que desapareceu na década de 1970.

Ele só foi redescoberto em 2001, em um depósito alugado na Califórnia. A dona do Shelby Daytona, Donna O’Hara, ganhou o carro de presente do pai, que o comprou na virada da década de 1970 por US$ 5.000 (cerca de US$ 30 mil nos dias atuais). No entanto, Donna cometeu suicídio colocando fogo em si mesma pouco depois, e o carro ficou parado por quase três décadas.

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Depois de encontrado, o carro foi avaliado em US$ 4 milhões (cerca de R$ 15 milhões) e, por isto, acabou se tornando o objeto de uma disputa legal entre a mãe de Donna, que havia decidido vender o Daytona; e uma amiga dela, que teria direito a todo o conteúdo do depósito de acordo com o testamento. De qualquer forma, o carro acabou indo parar em um museu na Filadélfia, nos EUA, onde permanece até hoje. Ele é o único dos Daytona Coupe que não foi restaurado — apenas a mecânica foi recondicionada. As marcas do tempo continuam ali.

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