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Tour de Corse, 1986: o rali que marcou o fim do Grupo B – e mudou a história do WRC

Há quem diga que o Grupo B, que foi a principal categoria do WRC entre 1982 e 1986, era muito mais emocionante e competitivo do que qualquer outra disputa automobilística – incluindo até mesmo a Fórmula 1 e o Mundial de Endurance (WEC/WSC). Embora seja perigoso fazer afirmações categóricas como esta, é bem provável que o Grupo B de rali seja unanimidade entre qualquer um que goste de carros e corridas.

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E como poderia ser diferente? O regulamento do Grupo B, brando como jamais se viu novamente em provas de rali, permitia praticamente qualquer motor, qualquer configuração mecânica e qualquer método de construção, desde que o carro tivesse 200 unidades produzidas, legalizadas para as ruas e comercializadas.

Tamanha era a popularidade do rali na década de 1980 que as fabricantes não pensavam duas vezes antes de colocar todos os recursos que fossem necessários para desenvolver um carro vencedor – o prestígio de triunfar na elite do rali mundial justificava todo o investimento. E o resultado foram alguns dos carros mais potentes, velozes e tecnicamente sofisticados já vistos no WRC – Ford RS200, Renault 5 TurboLancia 037 e Delta S4, Audi Sport Quattro e Peugeot 205 T16, só para citar alguns. Cada um deles, aliás, recebeu um post especial na nossa série “Lendas do WRC” – que trouxemos de volta recentemente, agora com foco nos pilotos.

Então, o que você acha de começar a semana com uma viagem até 1986, último ano do Grupo B do WRC? Mais precisamente, vamos voltar ao Tour de Corse daquele ano – a quinta das 13 etapas do Campeonato Mundial de Rali realizado há 32 anos. O vídeo abaixo é um compilado de tem 11 minutos e mostra alguns dos melhores momentos da prova, que aconteceu entre os dias 1º e 3 de maio de 1986. E também o pior deles.

De acordo com o título do vídeo, são imagens que jamais passaram na TV – é difícil confirmar a veracidade da declaração, mas o que importa de verdade é que podemos conferir uma infinidade de material audiovisual da época pelo YouTube e ter uma noção de como eram diferentes as competições da época. As pessoas amontoadas nos barrancos, algumas delas invadindo o trajeto e correndo para as beiradas à medida que os carros se aproximam; a infraestrutura mínima, com frágeis cordinhas de proteção; os fotógrafos e cinegrafistas arriscando suas vidas pelo melhor registro, tudo embalado pelo ronco ensurdecedor dos quase-protótipos. Aqueles eram mesmo outros tempos.

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Note que os únicos representantes do Grupo B que aparecem no vídeo são o Lancia Delta S4, com seu motor 1.8 com turbo e supercharger para entregar entre 500 e 700 cv; o Metro 6R4, que tinha um V6 naturalmente aspirado de três litros e 400 cv; o Peugeot 205 T16, que era movido por um motor 1.8 turbo com mais de 500 cv; e o Renault 5 Maxi Turbo, que tinha um motor 1.6 sobrealimentado com potência entre 350 e 400 cv.

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A Audi optou por não disputar a prova, que era realizada no asfalto, pois Sport Quattro era mais indicado para as etapas na terra; e a Ford fez a mesma opção com o RS200, mas por outra razão: no Rali de Portugal, realizado dois meses antes, o piloto Joaquim Santos perdeu o controle do carro, saiu da pista e acertou um grupo de espectadores, matando três deles e deixando outros 30 feridos. O acidente aparece por volta da marca dos 1:10 no vídeo abaixo – há quem considere as cenas fortes demais, então fica o aviso.

Dito isto, aparecem outros carros interessantes: o Alfa Romeo GTV6, o Volkswagen Golf GTI Mk1, o Renault 11 Turbo e o Fiat Uno da Jolly Club sobre o qual falamos aqui recentemente – todos competindo no Grupo A, que no ano seguinte se tornaria a categoria principal.

Repare que, embora os carros do Grupo B fossem mais potentes e nos trechos flat out fossem sensivelmente mais rápidos (os carros do Grupo A tinham algo entre 150 e 250 cv, dependendo do motor), a vantagem dos mesmos nas curvas não é tão grande assim. Em ambas as categorias, a velocidade média nas viradas era bem menor do que a dos carros que competem atualmente no WRC, mesmo que eles não sejam tão potentes quanto os bólidos do Grupo B. Isto se dá, principalmente, por causa dos pneus: os compostos de hoje em dia são muito mais resistentes e duráveis, e também proporcionam muito mais aderência nas curvas. Os pneus de trinta anos atrás, além de traiçoeiros, precisavam de mais cuidados por parte dos pilotos para serem conservados.

Isto posto, a selvageria dos carros do Grupo B e a habilidade dos pilotos ficam evidentes nos trechos percorridos de pé cravado. Especialmente se tratando dos carros com motor turbo, que sofriam irremediavelmente com o lag e, por isso, precisavam sempre ser mantidos na faixa mais alta de rotações, para deleite de quem podia ouvir o ronco de perto.

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Só que a gente fica até se sentindo meio estranho ao exaltar o espetáculo do Tour de Corse de 1986 sabendo o que aconteceu no dia 2 de maio, segundo dia da competição – quando Henri Toivonen, que já havia manifestado preocupação com o caráter incontrolável do Delta S4, perdeu o controle em uma curva, saiu da pista e rolou pela ribanceira. O carro caiu sobre o próprio teto e explodiu por conta de um vazamento de combustível, sendo consumido pelas chamas. Fizemos a análise completa do acidente, que pode ser conferida aqui.

Toivonen e seu navegador Sergio Cresto morreram presos aos seus bancos, e a vitória do Peugeot 205 T16 de Bruno Saby teve um gosto amargo – que persistiu pelo restante da temporada. Ford e Audi, em respeito à tragédia, abandonaram a competição. A partir do ano seguinte, 1987, o Grupo B foi banido por Jean-Marie Balestre. O Tour de Corse de 1986 foi a gota d’água. Ficaram as lembranças – as boas e as ruins.

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