Três homens e um só nome: quais foram as criações de cada Ferdinand Porsche?

Leonardo Contesini 18 janeiro, 2017 0
Três homens e um só nome: quais foram as criações de cada Ferdinand Porsche?

Ferdinand Porsche foi, indiscutivelmente, um dos maiores engenheiros automotivos da história. Ao longo de sua carreira ele criou o primeiro carro híbrido de que se tem conhecimento, dezenas de carros icônicos como o Mercedes SSK, os lendários monopostos de corrida da Auto Union e o Fusca, sua criação mais famosa.

Mas apesar de ter sido o homem que transformou o nome Porsche em sinônimo de velocidade e esportividade, Ferdinand Porsche nunca projetou nenhum modelo Porsche. Quero dizer… não este Ferdinand Porsche.

Isso porque houve mais de um Ferdinand Porsche — três para ser mais exato. E todos eles colaboraram significativamente para a criação da empresa que hoje produz alguns dos esportivos mais desejados do planeta.

 

O primeiro Ferdinand

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O primeiro Ferdinand é o homem que todos imaginam quando o nome Ferdinand Porsche é citado. O homem que criou o Fusca e fundou a Porsche. Nascido em 1875, Ferdinand Porsche começou a trabalhar com carros em 1898, exatamente 50 anos antes de fundar a Porsche — isso mesmo: meio século antes da fundação de sua própria marca. Foi em uma fabricante de carrocerias austríaca, chamada Jakob Lohner & Company.

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Seus primeiros carros foram o Egger-Lohner C.2 Phaeton e o Lohner-Porsche Mixte Hybrid. Ambos eram carros elétricos — algo relativamente comum naquele início de século — e, coincidentemente já tinham características que seriam vistas mais tarde nos modelos Porsche. O primeiro, por exemplo, era uma carruagem com um motor elétrico na traseira (atrás do eixo traseiro como um 356 ou um 911), e era capaz de chegar aos 35 km/h (falamos dele detalhadamente neste post). O segundo, o Lohner-Porsche Mixte Hybrid, era um híbrido com motores elétricos nas rodas, mas em vez de pesadas baterias para alimentar os motores, ele usava um motor a combustão feito pela Daimler, que movia um gerador de eletricidade.

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Lançado em 1901, o Lohner-Porsche Mixte Hybrid é considerado o primeiro carro híbrido da história e tinha versões de tração integral ou traseira. Foram feitos cerca de 300 chassis deste modelo, a maioria usados como caminhões, ônibus e carros de bombeiros.

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Depois Ferdinand foi para Austro-Daimler, a subsidiária austríaca da Daimler. Ali ele desenvolveu uma série de carros de corrida, dentre os quais se destaca o Prinz Henry, de 1910. Com o bom trabalho feito na Áustria, Ferdinand foi promovido ao cargo de diretor técnico da Daimler, e mudou para Stuttgart, na Alemanha. Seus primeiros projetos foram os Mercedes W02 e W03, ambos sedãs familiares de seis cilindros, mas seu maior projeto na fabricante alemã foi o SSK, o lendário esportivo com motor seis-em-linha sobrealimentado por compressor mecânico que se tornou o carro mais rápido do mundo em sua época, com velocidade máxima de 190 km/h.

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Com um currículo sólido e agraciado com o título de doutor honoris causa em engenharia na Áustria e na Alemanha, Ferdinand conseguiu um empréstimo, reuniu alguns colegas de trabalho e fundou a Dr. Ing. h.c. F. Porsche GmbH, Konstruktionen und Beratungen für Motoren und Fahrzeugbau em 1931. Como fica claro pelo nome, a nova empreitada de Porsche era uma empresa de consultoria e construção de carros e motores. E foi isso o que eles fizeram, começando por uma série de motores para a Wanderer e por um carro de corridas que nunca correu, o P-Wagen.

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A história começou a mudar em 1933, quando Adolf Hitler decidiu motorizar a Alemanha e mostrar ao mundo a superioridade tecnológica de seu país. Ferdinand Porsche acabou fechando um contrato com o governo alemão para produzir um carro popular e ainda se envolveu com a Auto Union. Você sabe do que estamos falando: o Fusca e as flechas de prata da Auto Union, ambos desenvolvidos pela empresa de Ferdinand Porsche.

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O sucesso de Porsche foi brevemente interrompido pela Segunda Guerra Mundial. Entre 1939 e 1945, Ferdinand acabou envolvido com os esforços de guerra e desenvolveu o tanque Elefant além de auxiliar a produção de veículos como o Schwimmwagen e o Kübelwagen, usados pelos militares alemães. O envolvimento com os nazis lhe custou alguns anos na cadeia como criminoso de guerra em 1945, logo após o fim do conflito.

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Foi nessa época que entrou em cena o segundo Ferdinand Porsche: seu filho Ferdinand Anton Ernst Porsche, mais conhecido como Ferry Porsche.

 

O segundo Ferdinand

Ferry havia sido preso com seu pai e seu tio Anton Piëch, contudo, ele foi libertado depois de seis meses, enquanto os dois mais velhos continuaram presos. Em liberdade, Ferry retomou os negócios da família em Gmünd, na Áustria, consertando carros, bombas de poço e guinchos até que o piloto e empresário italiano Piero Dusio o procurou para desenvolver um carro de corridas para disputar os Grandes Prêmios da época. O resultado foi o Type 360 Cisitalia, um dos primeiros monopostos de tração integral da história. No fim o carro nunca correu, mas o dinheiro recebido pelo projeto foi suficiente para libertar seu pai e seu tio da prisão.

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Àquela altura Ferry também estava desenvolvendo um outro carro, um modelo próprio que receberia o nome da família, colocando em prática um velho sonho de seu pai. Ele usou como base o chassi do Porsche Type 64, um carro de corridas desenvolvido em 1939 a partir do protótipo do Fusca feito no ano anterior, e concluiu o primeiro protótipo com chassi tubular e carroceria de alumínio em 1948. No mesmo ano o carro foi homologado pelo governo austríaco e os Porsche começaram a produzi-lo em uma pequena série feita à mão — o que significa que os primeiros Porsche não eram alemães.

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Erwin Komenda, Ferry Porsche e Ferdinand Porsche ao lado do 356 nº 1

No ano seguinte a família voltou a Stuttgart, mas não conseguia crédito nos bancos e não podia usar sua antiga oficina, ainda sob embargo americano. Para levantar recursos para continuar a Porsche, Ferry pegou um dos 356 de Gmünd e começou a visitar concessionárias Volkswagen para apresentar o esportivo. Para assinar uma ecomenda, o concessionário precisava apenas pagar adiantado pelos carros. Assim Ferry conseguiu dinheiro suficiente para retomar a fábrica e reiniciar a produção dos carros na Alemanha (abaixo), dando origem à Porsche como conhecemos hoje.

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Ferry continuou à frente da Porsche após a morte de seu pai em 1951.  Cinco anos mais tarde, seu filho Ferdinand Alexander Porsche, então com 22 anos, começou a trabalhar no departamento de design da fabricante depois de ter sido reprovado no teste de admissão para o curso de design industrial da Waldorf School.  Começava ali a história do terceiro Ferdinand.

 

O terceiro Ferdinand

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Ferdinand Alexander Porsche tinha o mesmo nome do avô e do pai, mas ficou conhecido por seu apelido “Butzi”. Diferentemente de seu pai e seu avô, que eram engenheiros, Butzi era mais interessado no design dos produtos. Ele tentou estudar design industrial, porém foi reprovado no exame de admissão por, segundo seus examinadores, não ter talento para a arte. Talvez por isso Butzi nunca se viu como um designer, e sim como um “artesão com talento para modelagem”.

Quando Butzi começou a trabalhar na divisão de design da Porsche, seu pai, Ferry, estava planejando o sucessor do 356 e gostaria que ele tivesse mais espaço interno. Butzi fez os primeiros esboços para este sucessor, e os desenhos foram bem recebidos por Ferry, mas não por Erwin Komenda, chefe da divisão de design desde os tempos em que a empresa era comandada pelo velho Ferdinand.

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Ferry então orientou Butzi sobre alguns elementos que deveriam mudar: entre-eixos mais longo, sistema de suspensão e reforços para a potência mais elevada. Mesmo assim Komenda não aprovou o design. Diante disso, Ferry levou os esboços de Butzi à Reutter, uma fabricante de carrocerias sediada na mesma rua que a Porsche. Lá o projeto 901 ganhou seus traços finais e se transformou no carro que a Porsche apresentou no Salão de Frankfurt de 1963. No ano seguinte ele foi posto em produção, porém rebatizado como 911, depois que a Peugeot intercedeu com seus direitos sobre combinações numéricas com o zero no meio.

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Além do 911, Butzi Porsche também foi o responsável pelo design do Porsche 904, um belo cupê de corridas lançado em 1964. Por ter sido desenvolvido em um prazo apertado, o projeto original sofreu praticamente nenhuma alteração ou intervenção externa, e por isso é considerado por Butzi seu melhor trabalho na Porsche.

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O 911 e o 904 foram os dois únicos modelos desenvolvidos por Butzi. Ainda nos anos 1960 a Porsche decidiu alterar sua natureza jurídica, passando de companhia limitada a sociedade anônima — uma mudança concretizada em 1972 e que acabou com qualquer envolvimento da família na administração dos negócios.

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Diante disso, Butzi criou o Porsche Design Studio em 1972, e passou a desenvolver conjuntos de malas e bolsas de viagem, camisetas, calendários, relógios, material de escritório e uma série de outros produtos com design autoral. Entre seus itens mais famosos estão os óculos “teardrop”, verdadeiros ícones dos anos 1980, e até mesmo os VLTs de Vienna.