A revista semanal dos entusiastas | jorn. resp. MTB 0088750/SP
FlatOut!
Image default
Project Cars Project Cars #277

Turbos em família: a história da Parati GLS 1991 de Junior Campos, o Project Cars #277

Fala Galera, sou o Junior! Vou contar um pouco da história e a evolução da minha Parati GLS. Praticamente nasci dentro de um carro Turbo, desde que me conheço por gente andei em carros turbo já que na família temos um Tempra Stile Turbo e, claro, esta Parati, que foi retirada zero km e recebeu um motor herdado de um Gol GTS Turbo.

Tudo começou em 1985 quando meu pai comprou um Gol GT 1984 de um amigo. Sempre insatisfeito com o desempenho, descobriu um senhor no bairro do Bom Retiro, em São Paulo/SP, que começou a mexer com carros turbo, o que não era comum para a época.  O carro foi levado e ficou por lá durante três meses para a instalação e acerto do kit.  Começou andando com álcool e 0,4 Bar de pressão de turbo, já que na época não havia bomba elétrica, ficando limitado ao que a bomba de combustível original tinha de pressão para alimentar.

foto 4 zezoGT foto 3 mae e tia em floripa gol GT

O GT rodou 100 mil km e então foi vendido, mas com o motor original, já que o kit turbo passou para um Gol GTS 1988 branco que também foi tirado 0km. Depois de alguns anos, em 1991, meu pai encomendou uma Parati GLS completa, verde Pantanal, que foi grande motivo da minha paixão e por eu estar aqui hoje contando a minha história. O carro demorou seis meses para chegar e, quando finalmente estava em casa, meu pai percebeu que o motor zero km estava rajando! A Parati foi levada inúmeras vezes à concessionária e o problema não foi solucionado. Tendo em mãos o Gol Turbo e a Parati rajando, meu pai teve a brilhante ideia de transferir o motor completo do gol GTS, que já era turbo, para a Parati, enquanto o motor original da Parati foi retificado e instalado no Gol GTS. Sucesso!

O kit instalado era um Larus Turbo para carros com A/C, que contava até mesmo com Booster. Era o que tinha de melhor na época. A Parati ganhou upgrades na alimentação também – uma bomba elétrica de GTI, que permitiu aumentar a pressão do Turbo para 1.0 Bar e 1.5 Bar no booster. Um detalhe interessante sobre a instrumentação era que o manômetro de pressão do turbo foi personalizado para encaixar no painel, tornando o mostrador muito bonito, discreto e funcional, além da aparência original.

foto 5

foto 6

O resultado foi incrível, afinal para na década de 1990 os carros nacionais num geral não eram muito potentes. A situação começou a mudar com a abertura das importações, quando surgiram os primeiros BMW, Audi e outros modelos no Brasil que tinham maior potência, tornando a brincadeira mais divertida para a Parati. A diversão era garantida nas ruas e estradas!

A Parati era muito bem acertada e fácil de dirigir, tanto que minha mãe usava o carro diariamente! Desde criança convivendo com os turbos e vendo meu pai mexendo nos carros passei a me interessar cada vez mais pelo assunto. Então quando eu tinha uns 14 anos descobri que se tirasse a capa da válvula de alívio do kit, o carro espirrava… fiquei louco! Minha mãe me levava e buscava no colégio todos os dias, e o pessoal se assustava ao ver uma mãe dirigindo um carro turbo, era muito engraçado! Conforme os anos foram passando, meu interesse e paixão só aumentavam, e já queria o carro para mim quando tirasse minha habilitação.

foto 7

Sabendo do amor incondicional pelo carro, em 2010 quando eu tinha 16 anos meu pai me presenteou com a Parati! Com certeza esse foi o melhor presente que ganhei. Logo comecei a cuidar dela como um filho, mantendo sempre limpa e encerada. Tudo parecia perfeito, era só esperar alguns anos e já poderia dirigir! Mas não foi bem assim…

Minha avó também tem uma Parati e ela precisava de manutenção, então meu pai trocou de carro com ela por alguns dias (sim, minha vó dirigindo um carro turbo) para que ela não ficasse sem carro. Num belo domingo, ela tinha ido à igreja e, quando voltou, guardou o carro na garagem e foi almoçar. Depois do almoço, ainda na mesa, ela disse que sentiu um cheiro de queimado e começou a procurar. Até que ela desceu as escadas e viu a fumaça vindo da garagem. Sim, era a Parati em chamas! Não pensou duas vezes, ligou a mangueira, entrou na garagem e apagou o fogo.

foto 8 parati da vovó

O ato heroico da minha avó de 80 anos salvou meu carro! Sei que é difícil de acreditar, mas o carro pegou fogo sozinho na garagem. Acredito que o fio do motor de arranque se desprendeu e entrou em curto com o coletor quente. Felizmente os danos não eram tão graves, tudo poderia ser reparado, o fogo foi apenas no cofre do motor assim danificando o chicote elétrico, mangueiras, reservatórios e pintura dos Paralamas e capô. Mesmo assim fiquei desesperado com a notícia, afinal depois de realizar o sonho de ganhar o carro e prestes a tirar minha habilitação. Isso não poderia estar acontecendo. Eu sabia que o carro não ficaria pronto a tempo e não poderia dirigir quando finalmente pegasse a minha CNH…

Com o problema nas mãos, eu meu pai resolvemos fazer uma restauração completa. Desmontamos tudo apesar das condições gerais do carro serem excelentes. Foi difícil achar alguém para fazer a parte de funilaria e pintura de qualidade por um preço honesto, mas em 2012 o carro foi para a oficina de um amigo para fazer o serviço e ficou por lá durante seis meses. Quando o carro voltou, meu pai queria montar motor original aspirado, talvez com medo que eu me matasse! Enquanto ele queria usar pistões planos, para álcool, eu queria manter o motor turbo com pistões para gasolina.

Como vocês devem imaginar, esse assunto foi uma novela em casa. Eu insistindo no turbo e meus pais, resistentes à ideia, me aconselhavam de que “hoje em dia não é igual antigamente que dava para correr” e que “carro turbo é uma arma”. No começo desisti da discussão e o motor começou a ser montado fora do carro, mas original, com pistões taxados. Confesso que fiquei desanimado… tentando compensar, cheguei a pensar em montar o carro injetado e aspirado, mas a ideia do turbo não saía da minha mente.

foto 9 foto 10

Enquanto tirava minha tão sonhada habilitação que demorou 10 meses para sair, e também sem previsão para terminar a restauração da Parati, resolvi comprar da minha família o jipe Rocsta da Asia Motors, ano 1994, completo com ar-condicionado, direção hidráulica e motor diesel com 38 mil km. O jipe, que era do meu  falecido avô, estava parado fazia cinco anos, mas em perfeito estado. Busquei ele com meu pai, fizemos uma revisão completa e, com a habilitação finalmente em mãos, logo comecei a rodar com o jipinho! Por um bom tempo foi o meu carro diário e me salvou!

foto 11 Jipe Rocsta 1994

Mas em 2014 resolvi que deveria retomar o projeto da minha Parati de uma vez. Arrematei rodas BBS originais VW do Gol GTI aro 14, quatro pneus Bridgestone Potenza GIII 185/60/R14 e comecei a pesquisar sobre como turbinar o motor taxado com pistão para álcool. Sim, eu não iria resistir, tinha que ser turbo! Muita gente me disse que não seria possível com a taxa alta, que não iria durar, mas algumas pessoas me apoiaram, aconselhando não exagerar na pressão e fazendo um bom acerto. Ignorando meus pais, o caracol voltaria para o seu devido lugar! Desmontei parte do motor, troquei a junta do cabeçote por uma de aço, bem mais espessa, comprei um carburador 2E novo e comecei a instalar exatamente o mesmo kit turbo que tinha antes com a ajuda do Henrique, meu amigo de infância que também já conhecia o carro desde sempre.

Um certo dia meu pai viu o motor com o turbo montado, pronto para ser instalado no carro. Fez uma cara feia para mim, ficou algumas semanas sem falar comigo direito, mas acho que ver todo o kit montado como antes trouxe boas memórias e deixou ele empolgado de novo! Para agilizar o projeto, resolvi mandar o carro para um preparador para instalar o motor no carro e resolver alguns outros detalhes que demoraria demais para ficar pronto caso eu fosse fazer sozinho. Nesse meio tempo em que estava sem o carro, achei um par de spoilers da caixa de ar originais a venda no interior de São Paulo; não pensei duas vezes arrematei, e fui buscar no mesmo dia. Além disso, precisava de um chicote já que o original tinha sido danificado no incêndio. Comecei a garimpar em desmanches e achei um completo a venda que seria retirado de um Gol GTS. Arrematei também. Com tudo em mãos, não faltava tanto para deixar o carro rodando.

O carro demorou aproximadamente um mês para ser montado, entre mecânica, acerto e elétrica. O primeiro resultado no dinamômetro foi muito animador, 215 cv e 27,7 mkgf com 0,4 bar! Foi um ótimo início.

foto 15

Enfim chegou a data tão esperada, o carro estava rodando! Foi mágico andar de novo na Parati depois de tantos anos parada! Agora era hora de acertar o carro do meu jeito e resolver algumas coisas que estavam me incomodando. Primeiro o chão do carro não estava do meu gosto; macio demais para tanta potência.

Depois, o escape que ainda usa partes originais e acabava restringindo os gases da turbina, e por último a instalação do ar-condicionado, que não tinha sido feita depois da restauração, afinal ninguém disse que potência e conforto não combinam! Outro detalhe seria a instalação da direção hidráulica que está em estudo, uma vez que não é plug’n’play pois o espaço físico é limitado pelo kit turbo. Mas esse papo fica para o próximo post, até lá!

Matérias relacionadas

A restauração do Santa Matilde “Projeto 198”: hora da funilaria!

Juliano Barata

O Maverick V8 quatro portas de Arthur Episcopo: a chegada do motor e os planos do projeto

Leonardo Contesini

Project Cars #103: os resultados do Baja SAE Velociraptor nas pistas!

Leonardo Contesini