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História

Tyrrell 003: a história do chassi mais vitorioso da Fórmula 1

Responda depressa: qual foi o carro mais vitorioso da Fórmula 1? McLaren MP4/4? Williams FW11? McLaren MP4/2? Depende.

Se falarmos em modelo, a resposta certa será o McLaren MP4/2, usado pela equipe britânica entre 1984 e 1986 e pilotado por Keke Rosberg, Niki Lauda e Alain Prost. Nestas três temporadas o MP4/2 faturou 22 vitórias (6 de Lauda e 16 de Prost), sete pole-positons, 16 voltas mais rápidas, três títulos mundiais de pilotos e dois de construtores. 

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Mas tudo isso só foi conseguido usando vários chassis diferentes e duas variações do projeto original — os MP4/2B e MP4/2C. Da mesma forma o Williams FW11 conquistou 18 vitórias em 1986 e 1987, incluindo novos chassis e a variação FW11B de 1987.

Se considerarmos o projeto original, sem modificações de uma temporada para outra, teremos um empate numérico entre o McLaren MP4/4 de 1988, que faturou 15 de 16 corridas e a Ferrari F2004 de 2004, que também levou 15 canecos de campeão, mas em 18 corridas.

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Agora, se considerarmos um único chassi, precisamos voltar mais no tempo. Mais exatamente para a temporada de 1971 da Fórmula 1, justamente quando os carros eram mais frágeis e menos tecnológicos, e por isso mesmo mais sujeitos a quebras e acidentes. Mas quando você tem um piloto suave e altamente técnico como Jackie Stewart ao volante, pode ter certeza de que ele voltará inteiro para os boxes. E com o caneco do campeão.

Foi exatamente o que aconteceu com o Tyrrell 003 usado pelo escocês em 1971 e 1972. O número 003, representava o modelo do carro, mas também o número do chassi.

Até 1970, a equipe de Ken Tyrrell usava carros da March, mas depois do desempenho fraco no começo daquela temporada, Ken decidiu construir seu próprio carro. O modelo batizado inicialmente como “SP’, custou a Tyrell £22.000 de seu próprio bolso e ficou pronto a tempo de disputar três corridas em 1970, conquistando duas poles, mas sem vitórias.

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No fim da temporada, Gardner modificou algumas partes do carro: alterou o duto da admissão do motor, remodelou o bico do carro, alongou o entre-eixos e estreitou o monocoque. O motor continuou o mesmo Cosworth DFV, com cerca de 450-500 cv.

Mas em vez de batizá-lo como 001B ou algo do tipo, os dois únicos exemplares dos novos carros foram batizados com seus números de chassi 002 e 003 — não havia carros reservas, eles eram os dois únicos carros da equipe.

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O carro número 002 ficou com François Cevert, enquanto o 003 foi para Jackie Stewart, que tentaria recuperar seu título depois de perdê-lo em 1970 para Jochen Rindt, o único campeão póstumo da F1. A primeira corrida, na África do Sul, foi disputada com o 001, mas no GP seguinte, na Espanha, Jackie já estava com o carro que usaria ao longo das dez corridas seguintes.

Ele acabou vencendo seis delas e abandonou apenas duas — o GP da Áustria devido a uma quebra de um dos semi-eixos, e o GP da Itália devido à quebra do motor. Como resultado, ele conquistou o título mundial de pilotos e ajudou a Tyrrell a conquistar seu único título de construtores.

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Um dos principais fatores que mantiveram o Tyrrell 003 intacto até o fim da temporada foi, sem dúvida o estilo limpo e suave de pilotagem de Jackie, auxiliado por sua incrível capacidade de acertar o carro, de forma que ele se torne fácil e seguro de ser pilotado. Neste vídeo de 1972, ele explica ao diretor Roman Polanski como se dar bem no circuito de Mônaco, revelando muito de seu estilo de pilotagem:

“Não freie forte, venha suave nos freios, aplique a potência suavemente após o ponto de tangência. O jeito mais lento de andar em Mônaco é o jeito mais rápido de andar em Mônaco”. 

Neste outro vídeo abaixo, seu companheiro de equipe François Cevert fala sobre a impressionante constância de Stewart durante uma corrida inteira e também comenta a filosofia por trás do setup dos carros de Jackie: “ele é tão bom em analisar o carro, lê o comportamento do carro tão bem que, quando a bandeira é baixada (nesta época a largada era dada com uma bandeirada), ele tem sempre um carro muito fácil de ser pilotado em suas mãos. Ele não precisa brigar com o carro por estar desequilibrado em alguns trechos, nada disso. Jackie sempre consegue regular o carro de uma forma que fique muito fácil de ser pilotado”.

Na temporada de 1972 ele voltou às pistas com o mesmo chassi 003 usado nas dez corridas do ano anterior. Desta vez ele pilotou o 003 em apenas seis provas, alternando-o com o novo 004. Ele conquistou outras duas vitórias em 1972, no GP da Argentina e no GP da França, mas a superioridade do Lotus 72D fez a Tyrrell adotar um modelo mais evoluído, o 005. Apesar do esforço, Jackie ficou com o vice-campeonato, enquanto Emerson Fittipaldi conquistou seu primeiro título e trouxe de volta o caneco para a Lotus.

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Contudo, somando as seis vitórias em 1971 e as duas de 1972, o Tyrrell 003 conquistou um feito jamais igualado até hoje: ele foi o chassi com o maior número de vitórias da história da Fórmula 1. A última vez que isso esteve perto de acontecer foi em 2009, quando Jenson Button usou o Brawn BGP001-02 em suas seis vitórias que lhe renderam o título daquela temporada.

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Depois do título de 1971 a Tyrrell ainda levou Jackie ao seu tricampeonato em 1973, e teve algumas vitórias com Jody Scheckter, Patrick Depailler e Michelle Alboreto no fim dos anos 1970 e começo dos 1980. Depois disso, ela se arrastou com problemas financeiros até 1998, quando foi vendida para a British American Tobacco para formar a equipe BAR (British American Racing), que por sua vez originou a equipe da Honda na década passada. Quando a Honda abandonou a F1, Ross Brawn comprou a equipe para formar sua Brawn GP, a única equipe da história a vencer seu campeonato de estreia.

O sucesso da Brawn levou a Mercedes a comprar a equipe e voltar oficialmente à Fórmula 1 — o que significa que a atual Mercedes AMG que está dominando o campeonato deste ano é sucessora direta da Tyrrell que dominou a temporada de 1971 com nove pódios e sete vitórias em 11 corridas (além de duas dobradinhas Stewart-Cevert). O Tyrrell 003 hoje está exposto no Museu Nacional da Escócia, país de Sir Jackie.

 

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