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Um dos seis Camaro Sunoco “Lightweight” que correram na Trans-Am está à venda!

De tempos em tempos aparece um automóvel verdadeiramente folclórico à venda — um carro sobre o qual são contadas tantas histórias, algumas até absurdas, que a gente pode até ver fotos e vídeos, mas enquanto não olharmos de perto, quase duvidamos de sua existência.

Vamos te dar um belo exemplo agora: o cara aí em cima é nada menos que um dos seis Camaro Sunoco que a famosa equipe Penske colocou para correr na Trans-Am em 1968, e ele vai ser vendido no mês que vem no Concours d’Elegance Amelia Island. Você, fã de muscle cars de corrida (e quem não é?), pode tirar seu queixo do chão. É verdade sim!

Se você não sabe o que é a Trans-Am ou simplesmente precisa de um refresco para a memória, lá vai: entre 1966 e 1972, a Trans-Am foi o modo como as fabricantes americanas promoviam seus muscle cars. Era bem simples, na verdade: se a Ford queria que o Mustang vendesse bem, a Chevrolet queria o mesmo com o Camaro e, obviamente, a Chrysler também adoraria que o Plymouth ‘Cuda e o Dodge Challenger se dessem bem nas concessionárias. Para isto, era preciso vencer corridas.

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E esta é a melhor parte: é claro que os carros tinham preparação para as pistas, motores preparados, peso aliviado e gaiola de proteção. No entanto, eles usavam monoblocos exatamente iguais aos dos carros que rodavam nas ruas — e todo fã de automobilismo sabe que isto é muito mais legal que ver um monte de bolhas diferentes com chassis iguais por baixo delas. Além disso, quem tinha um Camaro, Mustang ou Challenger podia dizer, de peito cheio, que aquelas máquinas acelerando em circuitos como Laguna Seca, Sebring ou Watkins Glen tinham, ainda, muito em comum com o que se tinha na garagem. Vencedor ou não.

Dito isto, é importante lembrar que o regulamento só era relativamente permissivo quanto à mecânica do carro: o monobloco deveria ser absolutamente igual ao do modelo de produção — e nada de trocar o metal por fibra de vidro! Você já deve ter sacado onde isto vai parar, não é?

Eis o Camaro Sunoco, da Penske. Sua estreia aconteceu em 1967, ano de lançamento do rival da Chevrolet para o Mustang. Se você leu nosso post sobre a Historic Trans-Am, categoria moderna que revive os tempos de ouro da Trans-Am original, sabe que a Penske foi a primeira a usar um truque bem engenhoso para aliviar peso dos carros.

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Eles aplicaram ácido sobre os painéis da carroceria para afinar as chapas, que ficavam mais finas e leves: para se ter ideia, Camaro acabou 115 kg mais leve. Claro, a carroceria ficava tão fina e frágil que só apoiar o corpo nas superfícies com um pouco mais de força já as amassava. Por sorte havia as gaiolas de proteção, pois a gente não quer nem imaginar o que é estar dentro de um desses durante um acidente a 200 km/h. Sério, vamos pensar em outra coisa.

Até porque a parte folclórica da história é o que fica. O que pouca gente sabe (ao menos até agora) é que o Camaro Sunoco “Lightweight” só competiu em 1967 — no ano seguinte, Roger Penske decidiu colocar alguns lastros em pontos estratégicos do carro, recuperando peso porém ganhando equilíbrio dinâmico. Seis carros foram preparados para a temporada de 1968, e este é um deles.

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E ainda era um carro incrível: o motor V8 small block de 302 pol³ (cinco litros) com comando pushrod no bloco tinha algo entre 420 e 450 cv e era alimentado por dois carburadores de corpo quádruplo, com coletor de admissão Corss-Ram, e era acoplado a uma transmissão manual de quatro marchas Muncie M-22 “Rock Crusher”.

A suspensão era independente nas quatro rodas, com amortecedores ajustáveis Koni na frente e na traseira. Os freios usavam um sistema que retraía as pinças e permitia que se ganhasse tempo na hora de trocar as pastilhas — algo bem necessário em corridas de 12 horas, como Sebring; e 24 horas, como em Daytona. Enquanto os caras da Ford levavam cerca de quatro minutos em um pit-stop, a Penske levava menos de dois minutos.

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Sendo assim, não foi à toa que o Camaro dominou as temporadas de 1968 e 1969 da Trans-Am, deixando o Mustang para a trás em praticamente todas as corridas. Foram 13 as etapas em 1968, e o Camaro só não venceu uma. No ano seguinte, de 12 corridas, a Penske levou dez.

Sendo assim, o carro que a RM Sotheby’s vai leiloar em março é um bólido muito bem sucedido. De acordo com a descrição do lote, trata-se do terceiro de seis Camaro preparados pela Penske e patrocinados pela Sunoco, e o primeiro para a temporada de 1968. Ele foi pilotado por ninguém menos que Mark Donohue e Sam Posey em 1968.

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Pode não ter sido um carro vencedor, mas Posey conquistou com ele três terceiros lugares e um segundo lugar, em Watkins Glen, naquele ano. E o carro ainda correu em 1969, ainda que tenha sido vendido para uma equipe europeia no meio da temporada. No Velho Mundo o carro disputou algumas corridas em eventos do Grupo 2 de turismo, vencendo em Hockenheimring, na Alemanha, e Salzburgring, na Áustria. Ainda naquele ano, o carro passou para as mãos de um dono de equipe britânico, que venceu mais algumas corridas antes de trocar de mãos mais uma vez.

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Ao longo dos anos, o carro teve alguns donos e jamais deixou as pistas, ainda que tenha trocado de visual algumas vezes. Na verdade, ele passou tanto tempo competindo em provas históricas na Europa que acabou se tornando praticamente um anônimo — quem o via correr jamais imaginaria se tratar de um legítimo Camaro Sunoco. Isto só mudou no fim dos anos 1980, quando foi comprado de volta por um americano e restaurado com a maior fidelidade possível à suas características originais, mecânicas e estéticas.

Seu atual dono, identificado apenas como “um dos mais respeitados colecionadores de carros de corrida dos Estados Unidos”, comprou o carro em 2013 e, agora, se prepara para deixá-lo ir de novo. A RM Sotheby’s diz que, acompanhando o Camaro, vão diversos registros de sua história em reportagens impressas, documentos históricos e até fichas de dinamômetro.

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Acreditamos que este seja o carro de corrida mais incrível que alguém pode inscrever na Historic Trans-Am mas, infelizmente, a RM Sotheby’s não divulgou o preço, ainda. Provavelmente só descobriremos o valor depois que o leilão acontecer, no dia 12 de março.

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