Um motor e cinco equipes: a trajetória frustrada da Lamborghini na Fórmula 1

Dalmo Hernandes 16 julho, 2018 0
Um motor e cinco equipes: a trajetória frustrada da Lamborghini na Fórmula 1

Quando Ferruccio Lamborghini decidiu fabricar seus próprios esportivos, foi para provar a um certo Enzo Ferrari que conseguia fazer carros melhores do que os dele. Isto aconteceu em meados dos anos 60 e, dizem, foi porque a embreagem de sua Ferrari teve um problema durante uma corrida de estrada entre Bolonha e Florença. Depois de ir reclamar com o próprio Enzo Ferrari e ouvir do Commendatore que devia dirigir tratores, e não esportivos, Ferruccio resolveu ele mesmo fabricar seus próprios esportivos.

Já contamos esta história aqui antes, em detalhes, mas a revisitamos porque ela introduz a diferença fundamental, para Lamborghini entre sua companhia e a Ferrari: enquanto Enzo Ferrari encarava a fabricação de carros de rua como uma forma de bancar a equipe de corrida, Ferruccio decidiu seguir o caminho oposto e projetar carros feitos para serem bons esportivos de rua, e não automóveis de competição amansados. E, rígido, determinou que a Lamborghini não participaria de competições automobilísticas.

Isto ajuda a explicar por que a Lamborghini jamais participou das 24 Horas de Le Mans, campeonatos de protótipos-esporte como o WEC e o WSC, e nem da Fórmula 1. Aliás, no caso desta última até houve algumas incursões – três, no total. E todas elas fracassaram.

Esse negócio de não disputar corridas era levado a sério por Ferruccio, o que não agradava muito a seus engenheiros, que eram fãs de corridas. Para se ter ideia: quando Gian Paolo Dallara, Paolo Stanzani e Bob Wallace – os três engenheiros de mais alto nível da Lamborghini – decidiram criar um esportivo com motor central-traseiro e potencial para as pistas, Ferruccio permitiu… desde que eles não fossem disputar corridas com o carro. Este carro era o Lamborghini Miura.

Ferruccio Lamborghini morreu em 1993, aos 76 anos, e de fato a Lamborghini nunca construiu um carro de corrida enquanto seu fundador esteve vivo. O que não impediu a fabricante de, entre 1989 e 1993, fornecer motores para algumas equipes diferentes de Fórmula 1. Mas… como aconteceu?

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Primeiro é preciso entender a situação da Lamborghini no fim dos anos 80. Em 1987, a fabricante italiana de supercarros foi comprada pela Chryler. Antes disto, pertencia a dois empresários franceses chamados Jean-Claude e Patrick Minram, que haviam comprado a companhia em 1980. E antes, ainda, a Lamborghini estava em má situação financeira por causa da crise do petróleo de 1973, que minguou a demanda por carros esportivos no mundo todo.

A verdade é que a Lamborghini levou décadas para se tornar uma companhia realmente lucrativa – só em 1998, quando foi comprada pela VW. Assim, quando a Chrysler comprou a companhia, a ordem era encontrar uma maneira de levantar fundos. E, para Bob Lutz, executivo-chefe da Chrysler na época e um dos grandes visionários da indústria automotiva norte-americana, uma boa forma de fazê-lo era fornecer motores de competição para a Fórmula 1. Motores V12, claro. Foi aberta até uma divisão específica para a Fórmula 1, a Lamborghini Engineering.

 

Larrousse

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A primeira equipe de Fórmula a usar um motor Lamborghini foi a Larrousse, fundada pelo ex-piloto Gérard Larrouse. Nos dois primeiros anos a Larrousse competiu com carros projetados pela renomada Lola Cars, cuja fama se estende até os primórdios do Ford GT40, e motor V8 Cosworth DFV. No entanto, os resultados fracos da equipe motivaram a adoção do motor V12 Lamborghini em 1989.

O motor era um V12 com ângulo de 80° e 3.493 cm³, arredondados para 3,5 litros, batizado Lamborghini LE3512 (Lamborghini Engineering 3,5 litros 12 cilindros) capaz de entregar 608 cv. Dizem que o ronco do motor era o mais bonito da era naturalmente aspirada da Fórmula 1 nos anos 80 e 90, mas como beleza é algo subjetivo – ainda mais a beleza de um ronco de motor – ouça abaixo e julgue você mesmo.

A estreia do motor V12 Lamborghini aconteceu, vejam só, no GP do Brasil de 1989, disputado no Autódromo de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. O francês Philippe Alliot chegou na 12ª posição, mas seu colega Yannick Dalmas não se classificou para a largada. Em 1989, a Larrousse conquistou exatamente um ponto no campeonato graças a um sexto lugar de Alliot no GP do México. Outro ponto alto foi a classificação de Alliot na quinta posição para a largada do GP da Espanha, na qual ele virou apenas 1,417 segundo a mais que Ayrton Senna, pole no McLaren MP4/5 com motor V10 Honda.

Em 1990 a Larrousse teve o melhor desempenho de sua história, com 11 pontos no campeonato e sua única subida ao pódio – com o japonês Aguri Suzuki ao volante, que conseguiu chegar em terceiro lugar no GP do Japão, que foi disputado no autódromo de Suzuka.

No mais, o motor V12 da Lamborghini era notório por seu hábito de cuspir óleo pelas saídas de escape (o que ao menos proporcionava o atrativo visual das chamas saindo pelos canos) e por sua falta de confiabilidade – muitas vezes os carros sequer chegavam a se classificar para a largada por problemas mecânicos. Tanto que, na temporada de 1991, a Larrousse voltou a usar o motor V8 Cosworth DFV por mais um ano, a fim de dar à Lamborghini tempo de realizar ajustes no V12. Mas não adiantou muito: em 1992, dos 16 GPs disputados na temporada, apenas em dois a Larrousse chegou ao final da corrida com os dois carros funcionando. Nos demais, as provas acabaram mais cedo para os franceses com motor italiano. Em 1993 a situação se repetiu, e em 1994, seu último ano na F1, a Larrousse voltou a usar um V8 Ford. Mas os fracassos em sequência não impediram outras equipes de tentar a sorte com o V12 da Lamborghini.

 

Lotus

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Bob Lutz acreditava que, para seu ano de estreia na F1, a Lamborghini se daria melhor escolhendo um time de segundo escalão – seria uma forma de gastar menos dinheiro e ter menos exposição caso ocorresse algum contratempo. Mas também há outro motivo: em 1989, todas as grandes equipes tinham seus próprios fornecedores – a McLaren tinha a Honda, a Williams tinha a Renault, a Benetton tinha a Ford e a Ferrari fazia seus próprios motores.

Em 1990, porém, veio o contrato com a Lotus, que nos anos anteriores havia usado motores V6 turbinados da Renault e da Honda, além de um V8 naturalmente aspirado da Judd.

A Lotus sabia dos pontos fracos do V12 da Lamborghini, mas acreditava que sua potência extra compensaria as falhas. Não foi o que aconteceu.

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O britânico Dereck Warwick e o norte-irlandês Martin Donnelly eram os piloto da Lotus na temporada de 1990, e amargaram a pior temporada da equipe desde 1958. Warwick foi o responsável pelos três pontos da Lotus naquele ano, chegando em sexto no GP do Canadá e em quinto no GP da Hungria.

Quem se saiu pior foi Donnelly, que no GP da Espanha, em Jerez, sofreu um acidente durante os treinos quando o carro deixou a pista em uma curva rápida à direita, logo atrás dos boxes, e o carro atingiu o muro em alta velocidade. O Lotus 102 simplesmente se partiu ao meio, o banco se soltou e saiu voando para longe. Donnelly ainda estava preso a ele e ficou gravemente ferido, caído no meio da pista. Ele levou meses para se recuperar, e foi substituído pelo britânico Johnny Herbert no restante da temporada.

Foi por causa deste desempenho risível que a fabricante de cigarros Camel decidiu cancelar seu patrocínio à Lotus, o que quase levou a equipe à falência. Nos anos seguintes o Lotus 102 usou motores V8 Judd e Ford, mas não conseguiu vencer nenhuma corrida e sequer conquistou uma pole position até 1992, quando foi aposentado.Em uma entrevista concedida a um canal do Youtube em 2014, Warwick falou bem mal do Lotus 102: “ele torcia o tempo todo, quebrava, não era confiável”. Ele ainda disse que o V12 Lamborghini só fazia barulho, mas não andava. Ouch.

 

Ligier e Minardi

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Nos anos 90 a Lamborghini ainda forneceu motores para a francesa Ligier e para a italiana Minardi. A Ligier, que no distante 1979 havia conseguido um terceiro lugar no campeonato com o motor V8 Cosworth DFV e três vitórias, teve uma temporada insípida em 1991, sem marcar nenhum ponto. Já a Minardi, que usou o V12 Lamborghini em 1992 se saiu um pouco melhor. Bem pouco, na verdade: o brasileiro Christian Fittipaldi chegou em sexto lugar no GP do Japão, em Suzuka, e conquistou o único ponto da Minardi naquele ano.

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Isto não impediu a Lamborghini de passar os últimos sete meses restaurando um dos Minardi com motor Lamborghini que correram em 1992. O carro de chassi #003 foi usado nas quatro primeiras corridas da temporada – África do Sul, México, Brasil e Espanha, nesta ordem – nas quais a Minardi teve nada menos que seis baixas. Ironicamente, o Minardi M191B era uma evolução do modelo de 1991, o Minardi M191, que usava um motor… Ferrari.

A restauração aconteceu no Polo Storico Lamborghini, divisão da marca dedicada a seus clássicos. O carro recebeu novos pneus, tanque de combustível, ECU, cintos de segurança e sistema de supressão de incêndio, enquanto todo o restante foi restaurado com capricho pelos técnicos da Lamborghini e ex-funcionários da Minardi – que existe até hoje em dia como Scuderia Toro Rosso.

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O carro foi revelado no último fim de semana na sede da Lamborghini em Sant’Agata Bolognese, com a presença do próprio Giancarlo Minardi, fundador da equipe. Seu destino a partir de agora é participar de eventos para carros de corrida históricos, e a Lamborghini parece bastante orgulhosa disto apesar do fracasso que foi o Minardi M191B.

 

McLaren

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De qualquer forma, em 1993 houve outra equipe que ainda insistiu em usar um V12 Lamborghini: ninguém menos que a McLaren. Nós também já contamos esta história aqui, mas também vale revisitar: em 1992 o contrato da McLaren com a Honda, que resultou em quatro títulos mundiais, termino. Com isto, a equipe britânica precisava de um novo motor – algo mais potente que o V8 Cosworth DFV, que não era suficiente para fazer frente à toda-poderosa Williams com seu V10 Renault.

Bob Lutz aproveitou a vulnerabilidade da McLaren para oferecer o V12 Lamborghini, e a equipe resolveu dar-lhe uma chance. O MP4/8, carro usado pela McLaren em 1993, foi adaptado para o motor V12, que era mais longo, e a nova versão foi batizada MP4/8B. Ayrton Senna testou o carro em uma sessão particular no autódromo de Silverstone, no Reino Unido.

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O motor havia sido modificado pela Lamborghini para girar menos e entregar mais torque em médias rotações, e a potência passou a 750 cv. O piloto brasileiro ficou animado com o carro e acreditava que, com ele, seria possível derrotar  o arquirrival Alain Prost, que pilotava para a Williams na época.

Ele chegou a pedir a Ron Dennis para que “McLambo” fosse usado no GP do Japão, mas o chefe da McLaren não deixou – ele sabia que era uma furada, provavelmente. No fim das contas o MP4/8B jamais disputou uma corrida, e foi o último carro de Fórmula 1 a receber o V12 Lamborghini. Um pouco antes disto, porém…

 

Modena, a verdadeira equipe da Lamborghini – ou quase

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Em 1991, uma outra equipe com motor V12 Lamborghini surgiu na Fórmula 1: a Modena. Fundada como GLAS no início de 1990 por um empresário mexicano chamado Fernando González Luna e um jornalista italiano de nome Leopoldo Canettoli, a GLAS pediu à Lamborghini não apenas os motores, mas o projeto de um carro todo.

“Por que não?”, devem ter pensado os italianos, e novamente chamaram Mauro Forghieri para ajudar na empreitada. Forghieri desenhou um carro belíssimo, o Lambo 291. Ele tinha perfil baixo, sidepods triangulares e radiadores inclinados, além de uma bonita pintura azul-marinho. A GLAS chamou o italiano Mauro Baldi, ex-Alfa Romeo, como piloto de testes, e tudo parecia correr bem para a estreia em 1991… até que um González simplesmente desapareceu, levando consigo sua parte do dinheiro da equipe.

Agora que já tinha os carros e os motores, a Lamborghini decidiu injetar uma boa quantia de dinheiro nos fundos da GLAS e transferir suas operações para Modena, na Itália, mudando o nome da equipe de acordo com a nova locação. Por que não usar o nome “Lamborghini?” Por causa de Ferruccio, claro.

De todo modo, os fãs da marca não se incomodaram com isto e continuaram chamando a equipe de “Lambo”. Com o italiano Nicola Larini e o belga Eric Van de Poele como pilotos, o Lambo 291 foi… um desastre. Seu melhor resultado foi um sétimo lugar no GP dos EUA, sua primeira corrida, mas no geral o carro raramente passava da fase de pré-qualificação. A Modena nunca fez nenhum ponto e se dissolveu após a temporada de 1991.