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De Ford GT40 à Ferrari P4/5: um passeio pela fantástica coleção de Jim Glickenhaus

A gente já disse por aqui que Jay Leno é o maior gearhead do planeta, mas há quem chegue muito, muito perto disso. Um exemplo é James “Jim” Glickenhaus — diretor de cinema, investidor da bolsa de valores e, principalmente, dono de uma das coleções de Ferrari (e outros carros) mais espetaculares que o mundo conhece.

Jim Glickenhaus ficou famoso pela primeira vez como diretor de cinema, tendo sua carreira alavancada pelo polêmico “O Exterminador” (The Exterminator, 1980), que contava a história de um veterano da Guerra do Vietnã que se torna um justiceiro nas violentas ruas de Nova York. O filme ganhou notoriedade por ser bastante violento e pelo sucesso que fez, conseguindo uma boa bilheteria mesmo com um orçamento relativamente baixo — US$ 2 milhões (cerca de R$ 4,5 milhões).

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Antes disso, porém, ele já era um entusiasta. Seu primeiro carro foi um Studebaker Champion Coupe 1954 com motor V8 Pontiac de 421 pol³ (6,9 litros) e câmbio de Corvette que, aos 15 anos, ele usava para disputar corridas de arrancada. Depois ele teve um Beetle 1962 — e foi com ele que Jim conheceu sua esposa Cameron. O charme do Besouro funcionou e os dois estão casados há 43 anos.

Ele não tem mais o Studebaker, nem o Beetle, e sua coleção atual de carros não é das mais numerosas — não tem os quase 100 carros de Ralph Lauren, e muito menos chega perto dos quase 1.000 carros de Jay Leno. Mas ela é, sem dúvida, uma das mais fantásticas que existem pela qualidade de cada um dos integrantes.

Jim Glickenhaus tem uma predileção por carros raros — modelos únicos no mundo que competiram em corridas históricas há cinco ou seis décadas e que normalmente estariam em uma garagem climatizada e hermeticamente fechada. Mas ele prefere modificá-los para andar nas ruas e aumentar a contagem de seus hodômetros nas ruas e nas pistas.

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Um exemplo é um de seus primeiros carros, uma Ferrari 275 GTB Longnose que ele restaurou e rodou mais de 100 mil km com ela — para só depois descobrir que o carro havia competido na lendária Targa Florio, uma das corridas mais longas e desafiadoras, disputada nas estradas estreitas e sinuosas do interior da Itália.

 

Jim tenta dirigir todos os seus carros, revezando-os em passeios de fim de semana. Sendo assim, não é raro vê-lo ao volante de sua Ferrari Dino Berlinetta Prototipo Competizione, feita como um exercício de design pela Pininfarina em 1967 e que permaneceu em um museu durante três décadas, ou de seu Lola T70 que competiu (e venceu) em vários eventos nos EUA na década de 60.

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Ou ainda de seu Ford GT40 MkIV amarelo, que chegou em quarto nas 24 Horas de Le Mans de 1967 com Bruce McLaren e Mark Donohue ao volante — e rodou mais de 100 mil km nas mãos de Glickenhaus. Seu daily driver, contudo, é um carro mais moderno — nada menos do que um Alfa Romeo 8C Competizione, um dos 1.000 fabricados pela Alfa entre 2007 e 2010.

Mas a maior paixão de Jim Glickenhaus são mesmo as Ferrari. Ele é dono de alguns exemplares preciosos, como a Ferrari mais antiga em existência — uma 159S construída em 1947, e já citada Dino Prototipo Competizione e uma Ferrari P3/4 — o terceiro na vitória tripla da Ferrari nas 24 Horas de Daytona de 1967.

E foi justamente este o carro que inspirou Glickenhaus naquele que talvez seja seu carro mais incrível: a Ferrari P4/5 By Pininfarina. Mas a ideia não veio dele — na verdade foi o estúdio quem o procurou, em março de 2005, dizendo que sua coleção era espetacular e perguntando se Jim gostaria de adicionar um carro único, projetado especialmente para ele, feito pela Pininfarina. Ele aceitou — e sabia exatamente o que pedir.

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Ele queria um carro para homenagear sua Ferrari P3/4. Então ele comprou a última Ferrari Enzo fabricada, ainda com plásticos nos bancos e, depois de confirmar à Pininfarina que sim, tinha certeza de que queria que aquela heresia fosse levada a cabo, e os primeiros rascunhos começaram a ser feitos pelo designer Jason Castriota em setembro de 2005.

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Mais de 200 componentes foram projetados especificamente para o carro, enquanto o motor V12 de seis litros e 660 cv e a transmissão vieram da Enzo — com algumas modificações. A carroceria mais aerodinâmica é uma clara homenagem à P3/4 e, ao mesmo tempo, dizem ter influenciado o desenho da LaFerrari — ainda que a marca não admita.

A P4/5  acelera até os 100 km/h em 3 segundos (0,14 segundos mais rápida do que a Enzo) e chega aos 374 km/h, e ficou conhecida como “a besta de Turim” — cidade onde foi construída, ficando pronta em 2006. Depois de um acordo entre Luca de Montezemolo, presidente da Ferrari, Jim Glickenhaus e o estúdio Pininfarina, ficou decidido que a P4/5 era um modelo oficial da Ferrari.

O mesmo não aconteceu com a P4/5 Competizione, que correu nas 24 Horas de Nürburgring em 2011 e 2012. O carro é baseado em uma Ferrari 430 Scuderia e sua carroceria é bastante parecida com a da P4/5 by Pininfarina, porém o motor é um V8 de 450 cv.

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Em 2011 o carro competiu na categoria de protótipos experimentais nas 24 Horas de Nürburgring e chegou em segundo. No ano seguinte, com a adoção de um sistema KERS (que a tornou, efetivamente, um carro híbrido) a P4/5 Competizione foi a vencedora em sua categoria e ficou com o 12º lugar na classificação geral. Ah, e ela também é legalizada para as ruas!

O carro, contudo, não recebeu apoio nenhum da Ferrari — na verdade, a companhia se recusou até mesmo a vender peças essenciais para a manutenção do carro —, o que irritou Jim Glickenhaus e fez  com que ele retirasse todos os emblemas da Ferrari do carro e os substituísse por emblemas de sua própria companhia, a SCG —Scuderia Cameron Glickenhaus, que leva o nome de sua esposa.

Para 2015, o plano de Glickenhaus é colocar para correr um novo carro — o SGC 003, que está sendo desenvolvido desde 2013 e terá um motor V6 biturbo. Ele não revela mais informações sobre o carro, limitando-se a dizer que ele poderá rodar nas ruas e será apresentado no Salão de Genebra do ano que vem.

Jim Glickenhaus diz que “não dirigir uma Ferrari é como não fazer sexo com sua namorada — só vai torná-la mais desejável para o próximo namorado”, mas suas ações mostram que isto não vale só para suas joias de Maranello. É este o espírito de um verdadeiro entusiasta.

[ Via Jalopnik US / Foto de abertura: Brad Trent ]

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