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Um Porsche 959 pela metade do preço e outras histórias tristes de supercarros batidos

Schadenfreude é a palavra que os alemães usam para descrever aquele sentimento de satisfação que temos pelo dano, infortúnio ou prejuízo de alguém. E digo mais: geralmente costuma-se dizer que a má-sorte de quem geralmente tem tudo na vida, é rico e bem sucedido, mas costuma agir como um imbecil, é o que causa mais Schadenfreude nos outros. Algo, por exemplo, como quando um motorista exibicionista sofre um acidente com um superesportivo raríssimo que vale centenas de milhares, ou até mesmo milhões – muitos de nós, pobres mortais, damos aquele sorrisinho sacana de canto de boca.

Mas como sentir Schadenfreude, por exemplo, ao ver um Porsche 959 nesse estado? Isso é coisa de gente amargurada. Só conseguimos lamentar.

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O carro, um dos 345 exemplares fabricados entre 1986 e 1993, está anunciado pela Mecum Auctions já há alguns dias. O anúncio não faz menção à causa do acidente que deixou a dianteira toda destruída, deslocando a roda do lado do passageiro. Em vez disso, o foco são as especificações do carro, com seu flat-six de 2,8 litros com dois turbos e 450 cv, suspensão ajustável (algo incrível para um carro fabricado em 1987), carroceria de fibra de carbono e Kevlar, tração integral e capacidade para ir de zero a 100 km/h em 3,6 segundos com máxima de 317 km/h. A única dica de que os caras estão cientes do estado do carro é o valor estimado de arremate – entre US$ 450.000 e U$ 550.000, ou metade do que se costuma pagar por um Porsche 959 em bom estado atualmente.

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Incrivelmente o carro ainda roda, e ao que tudo indica os sistemas de direção e suspensão ainda funcionam relativamente bem. Mas certamente a conta da oficina (uma recomendação é a americana Canepa, os caras são especialistas no 959) que o dono terá pela frente não será das mais baratas.

Foram os caras da Car and Driver norte-americana que descobriram o que aconteceu. Eles entraram em contato com a Mecum, que esclareceu tudo: o carro estava sendo transportado em um trailer fechado que desengatou do carro, saiu da estrada e bateu com o lado direito em uma árvore. Aparentemente a força do impacto soltou o carro de suas amarras, deixando-o desprotegido da colisão.

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O lado positivo é que a parte traseira do carro (onde fica todo o conjunto mecânico) está intacta. E o carro é pouco rodado: o hodômetro marca 3.657 milhas, o que dá 5.885 km. Quase novo!

O caso é que, ao conversar a respeito do 959 batido, tivemos uma ideia meio mórbida: relembrar outros acidentes com carros raros e valiosos como o primeiro supercarro da Porsche. Prepare-se para algumas cenas fortes.

 

Mecânico irresponsável

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Foto: Jalopnik.com

Começando por esta Ferrari F40, maior rival do Porsche 959 na época. Sendo um exemplar de especificação norte-americana, o superesportivo tem um V8 biturbo de 2,9 litros e 525 cv (mais potente que os 487 cv da versão europeia, a fim de compensar o aumento de peso, oriundo dos reforços estruturais exigidos pela legislação dos EUA).

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O caso aconteceu em 2011. A F40 carro foi comprada por seu dono, um morador de Houston, no Texas, zero-quilômetro. Conforme foi apurado pelo Jalopnik na época, o cara saiu para uma viagem e deixou a Ferrari nas mãos de um mecânico, que decidiu fazer um test drive um pouco mais animado. De acordo com testemunhas o homem estava a “pelo menos 100 km/h” (em uma via de 60 km/h), perdeu o controle, saiu da rua e foi parar na calçada. A dianteira ficou toda destruída, com a suspensão arriada e as rodas tortas.

Na época foi declarada a perda total. Mas, como já dissemos outras vezes, esse tipo de carro raramente “dá PT”: como são muito caros e valiosos, quase sempre eles acabam sendo restaurados, mesmo que o valor do serviço seja exorbitante. Tanto que esta F40 você já viu aqui no FlatOut, ainda que completamente diferente:

O dono só ficou sabendo do acidente quando voltou de viagem, e decidiu vender o carro. Acontece que os compradores foram Aaron Kaufman e Richard Rawlings, que na época eram da Gas Monkey Garage e, além de recuperar a F40, a transformaram em um supercarro ainda mais fodástico (ainda que, para os mais tradicionalistas, seja meio herege): carroceria pintada de preto, rodas HRE e faróis de LED, além de dois turbos novos que elevaram a potência do motor V8 de 2,9 litros para 550 cv.

 

A Enzo partida ao meio

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Em fevereiro de 2006 o empresário sueco Bo Stefan Eriksson  sofreu um acidente com sua Ferrari Enzo na famosa rodovia Pacific Coast Highway, na California. Ele disputava um racha com um Mercedes-Benz SLR McLaren, perdeu o controle do carro e bateu. E foi feio: o carro se partiu em dois e o motor (um V12 de seis litros e 660 cv a 7.800 rpm) foi atirado para o outro lado da pista, a vários metros de distância.

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Eriksson saiu ileso da colisão, e a Enzo foi levada de volta para a Ferrari para ser consertada. Dez anos depois, em 2016, o carro apareceu em um leilão da RM Auctions, com valor de arremate estimado entre US$ 1,6 e 2,2 milhões – o que na verdade era um belo negócio, porque o carro foi certificado pelo Ferrari Classiche (ou seja, garantidamente o trabalho foi bem feito) e geralmente uma Enzo custa o dobro disso.

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Nesse caso em especial o Schadenfreude é válido: dois meses depois Stefan Eriksson foi preso por fraude, dirigir bêbado e posse de drogas e armas ilegais, e acabou condenado a 14 anos de prisão. Eu não queria falar de karma e essas coisas, mas…

 

As trapalhadas de Mr. Bean

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Como não lembrar do caso do ator e comediante britânico Rowan Atkinson e de seu McLaren F1, que ele bateu não uma, mas duas vezes? O eterno Mr. Bean comprou seu McLaren F1 púrpura em 1997, apenas um ano antes de o supercarro projetado por Gordon Murray deixar de ser fabricado. Ele ficou nada menos que 18 anos com o McLaren F1 e rodou 65.000 km com ele – e já merece aplausos só por conta disto, pois carros servem mesmo para rodar. Ainda mais no caso do McLaren F1 e seu V12 de 6,1 litros e 635 cv, capaz de levá-lo de zero a 100 km/h em 3,2 segundos com máxima de 391 km/h.

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Nas mãos de Mr. Bean, porém, o carro sofreu não um, mas dois acidentes. O primeiro aconteceu em outubro de 1999, quando Atkinson bateu na traseira de um Rover Metro e destruiu o para-lama dianteiro direito.

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Doze anos depois, em agosto de 2011, Atkinson perdeu o controle do F1 em uma rodovia no sudeste da Inglaterra, rodou várias vezes e bateu em uma árvore, acabando com praticamente toda a seção traseira do carro. Acredita-se que ele só sobreviveu graças à resistência da estrutura de fibra de carbono.

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Nas duas ocasiões o carro foi enviado de volta para a McLaren, em Woking, onde foi consertado e ficou como novo — na segunda vez, em uma empreitada que levou quase um ano e meio e custou à seguradora quase £ 1 milhão, ou R$ 3,86 milhões. Mas o carro não perdeu valor, não! Pelo contrário: Atkinson pagou, em 1997, £ 650.000 pelo carro. E o vendeu por £ 8.000.000.

 

Abatido em combate

Este aqui é recente, e bem triste. Em maio de 2018, durante a 24 Hour Classic, corrida de longa duração para carros de competição antigos (algo que você deve ter deduzido) em Nürburgring Nordschleife, um Ford GT40 Mk1 de 1967 perdeu o controle na curva Pflanzgarten, por volta do km 17 do circuito – o trecho final antes da reta.

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O carro perde a traseira antes da leve curva à direita e o piloto não consegue colocá-lo de volta na trajetória, e acaba atravessando a pista e batendo no muro à esquerda. O lado bom é que, apesar de ficar com a dianteira destruída, o GT40 aparentemente aguenta bem o tranco – o piloto consegue levar o carro rodando para a brita, tirando o carro do asfalto e o deixando protegido de novas colisões.

O que dói é ver como o GT40 estava antes da corrida. No vídeo abaixo a equipe é mostrada dando os últimos tratos no bólido antes da largada.

 

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