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“Uma força da natureza”: o que andam falando do Aventador SVJ, o Lamborghini mais visceral de todos os tempos

Quando se fala na passione que os italianos conseguem colocar em seus supercarros, no fim do dia há duas fabricantes que dividem o bastão: a Ferrari e a Lamborghini. É uma questão simples: ambas são as duas maiores e mais tradicionais fabricantes de superesportivos do planeta, e as duas estão entre as únicas a oferecer modelos com motor V12 naturalmente aspirado em pleno 2018. Se você é entusiasta mesmo, sabe que ambas merecem nosso respeito por isso. Mas o assunto agora é o lado Ferruccio da força, porque começaram a pintar os reviews do Aventador SVJ – que, entre suas características, tem a de ser a despedida não apenas do supercarro de topo da Lamborghini, mas também dos V12 “puros” da marca. Já é dado como certo que o sucessor do Aventador será híbrido. Ok, tecnicamente um V12 híbrido sem turbo ou supercharger não deixa de ser naturalmente aspirado, mas assim mesmo é o fim de uma era.

Em 2010, quando comecei a trabalhar escrevendo sobre carros, a Lamborghini estava fazendo seus ajustes finais no Aventador antes do lançamento, e eu lembro que sequer o nome do sucessor do Murciélago havia sido revelado. Agora cá estamos: o Aventador já foi lançado há oito anos e muita, muita coisa mudou nos superesportivos desde então. Quando ele foi lançado, 700 cv eram um número assombroso em um carro de rua. Hoje, dá para comprar um Dodge Challenger, que custa uma fração do preço, com mais potência que isto. Além do V12 naturalmente aspirado, o Aventador usa uma caixa automática de sete marchas com apenas uma embreagem, e não é exatamente leve apesar da profusão de fibra de carbono usada em sua construção. Mas, com a versão SVJ, a Lamborghini conseguiu pegar um supercarro já “antiquado” e transformá-lo em um dos mais velozes e viscerais do mundo.

Como eles fizeram isto? Mais potência, menos peso e aerodinâmica totalmente retrabalhada. E tudo sem abrir mão do espetáculo. Aliás, fazendo do espetáculo parte integral da experiência.

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A Lamborghini levou alguns jornalistas gringos para o Autódromo do Estoril, em Portugal, para que eles pudessem constatar o feito de seus engenheiros. De acordo com mais de uma avaliação que lemos, o asfalto era novo e estava coberto por uma leve camada de poeira de construção (visto que o circuito do Estoril passou por uma reforma recentemente) e por isso os níveis de aderência estavam bem mais baixos do que o normal. Dito isto, o que o pessoal achou? Vamos ver a seguir, e também relembrar e nos aprofundar um pouco mais na receita do Aventador SVJ.

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Pois então: seu motor pode não ser o V12 naturalmente aspirado mais potente do mundo, mas é o V12 naturalmente aspirado mais potente que a Lamborghini já fez, com 770 cv a 8.500 rpm (apenas 200 rpm antes do limite de rotações) e 73,4 mkgf a 6.750 rpm. No caso do Aventador comum são 700 cv a 8.250 rpm e 70,3 mkgf de torque a 5.500 rpm. A potência extra foi obtida com uma reprogramação eletrônica, claro, mas também adotando componentes mais leves (que produzem menos inércia e, por conta disto, o motor sobe o giro mais rápido); válvulas de titânio (pela primeira vez em um V12 Lamborghini); cabeçotes, coletor de admissão e escape redesenhados; e um volante do motor mais leve. Uma observação: ainda que o torque esteja exatamente 1.000 rpm acima na faixa de rotações, a Lamborghini diz ter colocado ênfase na entrega de torque em rotações médias, ou seja, entre as 4.500 e 6.500 rpm.

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É inevitável pensar que um motor desses, em 2018, seria a grande atração do Aventador SVJ. “Uma das grandes atrações” é uma construção mais apropriada, mas de fato a primeira impressão causada pelo V12 de 770 cv fica gravada e permeia toda a experiência.

“Força da natureza” foi a forma como não apenas o Top Gear, mas também o pessoal da Evo, decidiram chamar o motor do Aventador SVJ. De acordo com a primeira publicação:

A impressões na primeira volta são de que o carro é violentamente rápido, o motor é uma força da natureza e as trocas ascendentes para cima no modo Corsa têm o mesmo soco violento que no SV, porém ocasionalmente podem ser um tanto intrusivos demais, atrapalhando o equilíbrio do carro.

Para a Evo:

O motor é uma verdadeira força da natureza: ele de fato tem mais convicção em médias rotações, mas seu negócio continua sendo a investida em direção à faixa vermelha do conta-giros, algo que ele faz com um entusiasmo frenético. Puxe a robusta aleta direita para passar para a próxima marcha e o ponteiro volta sem muita graça, mas o giro do motor só cai até a melhor parte da curva de potência e o processo todo começa de novo, inabalado. O ronco do motor a 8.500 rpm é onipresente de dentro da cabine, e de fora é absolutamente espetacular.

Estas duas passagem nos dão outras duas informações importantes a respeito do Aventador SVJ: a caixa automática de sete marchas é brutal nas trocas e o ronco do motor é absurdo. Sobre a primeira, o pessoal do Drive.com.au pode desenvolver melhor:

Não é a velocidade inquestionável do Aventador SVJ que rompe seus ligamentos, mas sim os momentos entre a entrega de força, com a transmissão old schoolde embreagem simples dando pancadas entre as engrenagens com a ferocidade de um coice de cavalo, e a mudança repentina de velocidade forçando seu queixo contra seu peito, onde ele fica por meio segundo antes de potência reaparecer e jogá-lo de volta a seu lugar.

De fato o Aventador SVJ não deveria, em 2018, usar uma transmissão tão arcaica para o segmento. Mas, como o próprio Drive confirmou com Maurizio Reggiani, engenheiro-chefe da Lamborghini, é uma questão quase filosófica.

“Esse tipo de câmbio é parte da nossa tradição”, ele disse à publicação australiana. “Não é sofisticado como uma caixa de dupla embreagem, e você tem uma interrupção no torque. Mas ela também é uma das características exclusivas deste carro. Há muitos de nossos clientes que têm orgulho de ter esse tipo de solução em seus carros.”

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Faz sentido. O Lamborghini Aventador SVJ é, afinal, a o canto do cisne para o Aventador. Deixe a dupla embreagem para seu sucessor, que terá de construir sua reputação do zero e precisará ser mais rápido que o atual topo-de-linha da Lamborghini.

Além disso, as frações ínfimas de segundo que uma caixa de dupla embreagem conseguiria reduzir nas trocas de marcha parecem não fazer diferença na hora de acelerar em linha reta. O Aventador SVJ é capaz de ir de zero a 100 km/h em 2,8 segundos, aos 200 km/h em 8,6 segundos e acelera até “mais de 350 km/h”. O Aventador comum é capaz de ir de zero a 100 km/h em 2,9 segundos com máxima de 350 km/h. Não é uma diferença tão grande assim, no fim das contas, mas nem só de arrancadas em linha reta vive o homem.

Na hora de fazer curvas, porém, é que o Aventador SVJ mostra do que é capaz. É impressão unânime de que ele não é apenas o Lamborghini mais potente e mais rápido do mundo, mas também o que mais permite que se explore suas capacidades.

O segredo é a aerodinâmica do carro, que adota uma versão aperfeiçoada do sistema ALA (Aerodinamica Lamborghini Attiva, que acreditamos não precisar de tradução, né?), que já é utilizado no Huracán Performante e foi totalmente dissecado neste post. Sua eficiência foi ampliada através de ajustes específicos ao Aventador SVJ, mas o funcionamento é o mesmo: flaps acionados por motores elétricos no spoiler frontal e na base da asa traseira modificam o fluxo aerodinâmico do carro de acordo com a situação, priorizando o baixo arrasto aerodinâmico (para ter mais velocidade nas retas) ou o maior downforce para ter estabilidade e tração nas curvas.

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É algo aparentemente simples, porém muito engenhoso: como já foi explicado aqui, sob frenagem ou aceleração parcial os flaps dianteiros e traseiros se fecham, canalizando o ar por sobre o carro, criando uma zona de alta pressão e consequentemente, gerando arrasto e aumentando o downforce em 40%para empurrar o carro contra o asfalto.

Já sob alta aceleração, os flaps se abrem e a mágica acontece: o fluxo de ar na dianteira é guiado para baixo do carro, aumentando a sustentação aerodinâmica e reduzindo downforce e arrasto, permitindo retomadas de velocidade mais rápidas nas saídas de curva e maior velocidade final. Há, ainda, um “modo assimétrico” que, em uma curva, permite fechar os flaps do lado de dentro da mesma e abrir os que ficam do lado de fora. Assim, as rodas de dentro da curva têm mais tração, enquanto o arrasto reduzido do lado ajuda, efetivamente, o Aventador SVJ a mudar de direção. A grande sacada, além do modo assimétrico, é que o sistema todo só adiciona 500 gramas ao peso total do Aventador.

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O funcionamento correto do sistema exige um nível altíssimo de integração entre ele e todos os outros – os amortecedores magnéticos, o esterçamento das rodas traseiras e a tração integral fornecem informações que serão usadas pelo ALA para definir quando os flaps serão abertos ou fechados. Por sorte, tudo funciona direitinho. Segundo a Evo, “no momento em que você vira o volante para entrar na curva o SVJ passa uma sensação de agilidade surpreendente, e vale a pena tirar um tempo para afinar seus comandos nesse momento porque o SVJ só exige pequenos ajustes na maioria do tempo”. Eles também elogiaram a tração nas saídas de curva, mas dizem que “é o equilíbrio do carro que faz dele tão divertido”. Graças ao sistema ALA é possível, por exemplo, realizar uma correção no meio da curva usando apenas o acelerador, que tem uma influência maior do que a média na trajetória do carro. Isto tem a ver com os sistemas eletrônicos, que são tão bem calibrados que, durante a volta recorde do Aventador SVJ em Nürburgring, com 6:44,97, permaneceram ligados – algo que poderia ser considerado uma desvantagem.

Ou seja, apesar de ser old school nos aspectos que importam para nossos sentidos, o Aventador SVJ abusa da tecnologia e da engenharia para não deixar que a passione comprometa seu desempenho contra os rivais. E o faz muito bem, sendo uma despedida mais do que digna.

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Agora, seria o Lamborghini Aventador SVJ um carro a prova de críticas? Longe disso. Todos as as avaliações criticaram a visibilidade do interior, com o para-brisa inclinado e estreito, as colunas A largas demais e, por causa do sistema ALA, a visibilidade traseira que já era ruim ficou ainda pior. Alguns criticaram os bancos, que estão mais para almofadas coladas na fibra de carbono, mas quem quer conforto não compra um Lamborghini V12.

Com o clima de despedida, porém, tais defeitos (que, na verdade, fazem parte da natureza do Aventador) acabam se tornando meras inconveniências totalmente perdoáveis. O Lamborghini Aventador SVJ é o último de representante de sua espécie, afinal de contas. Até seus defeitos vão fazer falta.

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