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FlatOut!
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Uma pequena homenagem a Herbie, o Fusca mais querido do planeta

Ontem, 22 de junho, foi o Dia Mundial do Fusca. Mas como também foi o dia em que o Brasil venceu a Costa Rica na Copa do Mundo, decidimos deixar para homenagear o Besouro hoje, com os ânimos da galera mais calmos. Por coincidência, neste ano o primeiro filme da franquia “Se meu Fusca Falasse” completa 50 anos – a estreia aconteceu em dezembro de 1968.

Quem acompanha o FlatOut desde o início vai lembrar de um de meus primeiros posts no FlatOut, no qual eu contei como jogar Gran Turismo 2 moldou meu gosto por carros. Mas a verdade é que muito antes de passar horas correndo em Seattle Circuit, outro carro dominava a tela da TV lá de casa: Herbie, o Fusca mais famoso e carismático do planeta.

Até onde sei, sou um fã da franquia “Se meu Fusca falasse” desde que me entendo por gente. Eu era muito novo quando assisti o primeiro filme pela primeira vez, então não lembro exatamente quando e nem como foi. Mas sempre que um dos filmes passava na Sessão da Tarde, lá estava eu no sofá, enrolado nos cobertores, maravilhado com aquele carro que tinha sentimentos de gente. O Fusca 1979 que meu pai tinha, com motor 1600, era azul e não branco, e também não tinha faixas e nem o número 53 estampado na lataria, mas se chamava Herbie. Assim como todos os meus Fusquinhas de brinquedo. Dezenas deles.

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Sendo assim, em 2005 eu fui um dos que comemoraram o novo filme da saga,  “Herbie: Meu Fusca Turbinado” (Herbie: Fully Loaded), e não me importei nem um pouco com a escolhade Lindsay Lohan como protagonista. E também não levava os carros a sério o bastante para me incomodar com o subtítulo da versão brasileira. Só mergulhei na nostalgia e fiquei satisfeito com a película. Melhor ainda: no ano seguinte a Disney lançou “Carros” (Cars), outra franquia que, para mim, já vale a pena de assistir só pelas referências direcionadas aos nerds automotivos.

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Sei que não sou o único que tem um carinho especial por Herbie. Na verdade, há gente muito mais dedicada do que eu – existem diversas réplicas do Fusca rodando pelo mundo, e eu sequer tenho um Fusca. Mas isto não torna menos legítima minha intenção de homenagear o simpático besouro de corrida no Dia Mundial do Fusca com algumas curiosidades que você talvez não saiba a seu respeito. Começando por algo que parece óbvio, mas definitivamente não é.

Herbie é um Fusca fabricado em 1963 que vai parar nas mãos de Jim Douglas (Dean Jones), um piloto decadente que só precisa de um carro barato. Ao visitar uma concessionária de carros europeus, Jim vê que seu dono é muito “cruel” com um Fusca à venda e defende o carro. No outro dia, ele descobre que o Fusca o seguiu até sua casa e é obrigado a comprá-lo, visto que o dono da loja dizia que era um carro roubado.

Agora, estamos falando de um filme que rodou 50 anos atrás – e não é nenhuma obra cult da sétima arte. A forma com que se contava histórias naquela época era diferente, e o roteiro simplesmente não explica como um carro pode ter sentimentos, gostar de pessoas e dirigir sozinho. Um amigo de Jim, Tennessee, acredita simplesmente que alguns objetos inanimados têm “almas” – bastando que a pessoa responsável pela fabricação daquele objeto coloque um pouco da sua alma no processo.

Há a sugestão de que outros carros no universo de Herbie têm consiência e podem se mover sozinhos, mas aparentemente apenas o Fusca tem uma personalidade tão forte e que se manifesta com tanta frequência. Fora isto, não há qualquer aprofundamento no porquê de existir um carro assim. E tudo bem.

Uma das cenas finais de “Herbie Rides Again”, na qual Herbie convoca outros Fuscas para impedir a demolição da casa de sua dona

Mas a história deve ter surgido de algum lugar, não? E, bem, ela surgiu. De acordo com uma edição de 1970 da revista Small World, publicação voltada aos donos de VW que circulou entre as décadas de 50 e 80 nos Estados Unidos, quem teve a ideia de um Fusca consciente e cheio de personalidade foi um escritor chamado Gordon Buford. Nos anos 60 Buford publicou um livro chamado Car, Boy, Girl (“Carro, Garoto, Garota” em uma tradução livre) que, de fato, envolvia um VW com consciência própria. No artigo da revista, Buford conta que inspirou-se em sua infância na fazenda, onde os pais tratavam seus carros de forma parecida com o que faziam com cavalos, dando a eles nomes e lhes atribuindo “personalidades” distintas.

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O fundador da Disney e criador de todos os personagens que marcaram a infância de muita gente morreu em 1966, dois anos antes do lançamento de “Se meu Fusca falasse”. O filme aliás, quase teve outros nomes: além de Te Love Bug, foram considerados The Magic Volksy, The Runaway Wagen, Beetlebomb, Wonderbeetle, Bugboom e Thunderbug. O que no fim das contas nem faz diferença para nós no Brasil, porque provavelmente o filme seria chamado “Se meu Fusca falasse” de todo jeito.

Pode parecer difícil de acreditar quando se sabe que o Fusca e a Kombi foram símbolos do movimento hippie dos EUA nos anos 60, mas a verdade é que os VW com motor arrefecido a ar não eram carros absurdamente populares nos Estados Unidos nas décadas de 1960 e 1970. O que leva alguns a crerem que foi a VW quem pagou para que a Disney colocasse o Fusca como protagonista de um de seus filmes. Na verdade foi o contrário: a Disney cobriu todos os emblemas da Volks que pudessem aparecer na tela para evitar batalhas judiciais por copyright no primeiro filme.

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E foi um sucesso absurdo. “Se Meu Fusca falasse” custou US$ 5 milhões para ser produzido e rendeu US$ 58 milhões na bilheteria. Então, quando a sequência foi lançada, em 1974 – “As Novas Aventuras do Fusca” (Herbie Rides Again) – a Volkswagen de fato ajudou a financiar o filme, chegando ao ponto de colocar um Fusca decorado como Herbie em cada um de seus showrooms nos Estados Unidos.

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O sucesso rendeu à franquia de Herbie tem cinco filmes originais, um remake de 1997 e a continuação de 2005. Acredita-se que no mínimo 50 carros foram usados nas filmagens dos primeiros seis filmes, mas não há um registro oficial, e este número pode chegar a 100. O que se sabe é que em “Herbie – o Fusca Enamorado” “A Última Cruzada do Fusca” (Herbie Goes Bananas, 1980), que teve diversas manobras e acidentes, 23 carros modificados como Herbie foram usados para diferentes cenas.

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No primeiro filme, ao menos um carro tinha motor de Porsche 356, enquanto vários outros tinham freios Porsche e motores preparados com deslocamento ampliado para 1,9 litro e dupla carburação Holley. Boa parte dos carros era equipada com um sistema que permitia ao piloto-dublê sentar-se no chão, perto do banco traseiro, dirigindo o carro através de volante, pedais e alavanca de câmbio com articulações. A partir do segundo filme, os produtores instalavam faróis de neblina Carello com câmeras para que o piloto pudesse ver o caminho a frente através de um monitor. Tecnologia!

Ao longo dos anos – mais especificamente, entre o início dos anos 70 e o fim dos anos 2000 – foram encontrados vários carros que foram usados nos filmes, alguns deles sendo vendidos como sucata ou Fuscas velhos comuns. Oficialmente Herbie é um Fusca 1963 com na cor branco Pearlweiss e placa “OFP 857”, preta com letras amarelas, registrada na Califórnia.

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Dito isto, não é raro ver cenas do filme onde aparecem Herbies de outros anos de fabricação – alguns fabricados depois de 1964, com vigia traseiro maior, por exemplo, no segundo filme. Outro exemplo é o Herbie sobrevivente mais antigo de todos – o stunt car de “Se Meu Fusca Falasse”, que foi fabricado em 1957 e usado nas cenas de corrida onde aconteciam toques, raspões e batidas. Como conta o Jalopnik, o carro foi vendido por US$ 85.000 (cerca de R$ 320 mil em conversão direta) em 2016.

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Agora, o status de ícone de Herbie também garante que ele seja um sucesso em leilões de clássicos. Tanto que dos 50 Fuscas mais caros já vendidos em leilão, seis são exemplares do Herbie usados na produção de todos os filmes, incluindo o hero car de “Herbie, meu Fusca Turbinado”, que foi arrematado em um leilão da Mecum Auctions em maio de 2016 por US$ 72.000 (cerca de R$ 273.000). Este, aliás, sem dúvida é o mais potente dos Herbie.

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O carro tem interior aliviado, gaiola de proteção, componentes mais leves na carroceria e um motor boxer preparado de 2,3 litros (2.332 cm³). Com dois carburadores Weber 48 IDF e taxa de compressão de 10,5:1, o flat-four arrefecido a ar entrega 190 cv quando alimentado com combustível de competição (125 RON). O motor é acoplado a uma caixa manual com alavanca de engate rápido Empi, e o conjunto foi capaz de levar o Fusca, que pesa 830 kg, aos 222 km/h no circuito oval de California Speedway em 2004.

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O status de ícone de Herbie faz com que ele seja bem sucedido em leilões. O carro foi arrematado no último dia 14 de abril durante um leilão da Barrett-Jackson em Palm Beach, na Califórnia, em abril de 2018. O valor? US$ 128.700, o que dá cerca de R$ 487.000 em conversão direta. Foi a segunda vez que o carro foi arrematado no evento – a primeira foi na edição de 2015, por US$ 125.000 (R$ 473.000, aproximadamente).

O carro é equipado com um motor boxer 1800 com dupla carburação Solex, e foi usado tanto para imagens externas do carro quanto para tomadas do interior. E foi exatamente este o carro equipado com um um esguicho de óleo – há uma cena em que Herbie “faz xixi” na perna de um policial.

Esta cena, aliás, é uma das minhas favoritas porque sintetiza muito bem a forma como eu enxergo os carros. Muitos comparam seus automóveis a mulheres – quando dizem que uma Alfa Romeo é uma dama italiana fogosa e temperamental, por exemplo – mas eu vejo os carros como algo mais próximo do “melhor amigo do homem”, como um cão; ou como um cavalo. Enfim, devaneios causados pela nostalgia de escrever uma homenagem a Herbie.

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Dia desses, aliás, em uma breve visita à minha cidade natal, vi um “Herbie” estacionado na rua. Não era uma das reproduções mais fiéis e o interior tinha muitos componentes modernos. Então, chegou o dia do Fusca e a oportunidade perfeita para falar sobre Herbie. Talvez seja um sinal para que eu assista aos filmes novamente. E para comprar um Fusca daqui a um tempo.

Ou não. Talvez ele não vá com a minha cara.

 

 

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