A revista semanal dos entusiastas | jorn. resp. MTB 0088750/SP
FlatOut!
Image default
Pensatas

Uma pequena reflexão sobre a importância dos detalhes no design de um carro

Uma única foto foi o que bastou para me inspirar a escrever este post. Um detalhe que eu nunca havia notado no primeiro Chevrolet Corvette, fabricado entre 1953 e 1955: a placa traseira, abrigada sob uma cobertura transparente. Este carro, em especial, é o último Corvette 1953 fabricado, o carro #300, que será leiloado pela Mecum Auctions em janeiro do ano que vem.

Ainda não é assinante do FlatOut? Considere fazê-lo: além de nos ajudar a manter o site e o nosso canal funcionando, você terá acesso a uma série de matérias exclusivas para assinantes – como conteúdos técnicoshistórias de carros e pilotosavaliações e muito mais!

 

FLATOUTER

Membro especial, com todos os benefícios: acesso livre a todo o conteúdo do FlatOut, participação no grupo secreto no Facebook (fique próximo de nossa equipe!), descontos em nossa loja, oficinas e lojas parceiras!

A partir de

R$20,00 / mês

ASSINANTE

Plano feito na medida para quem quer acessar livremente todo o conteúdo do FlatOut, incluindo vídeos exclusivos para assinantes e FlatOuters.*

De R$14,90

por R$9,90 / mês

*Não há convite para participar do grupo secreto do FlatOut nem há descontos em nossa loja ou em parceiros.

As linhas do designer Harley Earl eram nitidamente inspiradas pelos esportivos europeus que os soldados norte-americanos trouxeram na bagagem depois da Segunda Guerra Mundial, quase como prêmios por sua atuação vitoriosa no front. A ideia da General Motors, de certa forma, era oferecer uma alternativa doméstica a estes carros usando componentes baratos, disponíveis nas prateleiras da fábrica. O uso da fibra de vidro na carroceria ajudaria a reduzir peso (mesmo com o chassi de metal) e facilitaria a reprodução de formas complexas em larga escala – e acabou se tornando uma das marcas do Corvette.

O primeiro Corvette é um com exemplo da arte de “fazer muito com pouco” – mesmo que o motor V8, seu maior trunfo na época, só tenha aparecido anos mais tarde, em 1955, quando a Chevrolet promoveu nele sua primeira reestilização.

E, coincidentemente, o detalhe a que me refiro deixou de ser utilizado justamente depois do facelift – que trouxe faróis redondos em posição mais vertical e uma nova traseira, com a placa instalada de uma maneira mais tradicional, descoberta e encaixada no para-choque. O Corvette se tornou um carro melhor, mais veloz e mais empolgante com o novo motor, e o design renovado fez mais sucesso.

Em 1962, nova mudança na traseira, que adotou o formato de cunha que viria a ser replicado no primeiro Sting Ray, de 1963 (este, outro elemento icônico que poderá ser abordado em outra ocasião).

Só que a perda da placa protegida por uma cobertura transparente removeu um pouco da personalidade do carro. Sempre vou lembrar do Corvette 1953-1955 por causa da placa.

Estes elementos de estilo realmente diferenciados e pouco usuais têm valor imenso – como detalhista, me apego bastante a eles. E o Corvette C1 da primeira fase é só um exemplo. Não me refiro a elementos que se tornaram marcas de determinadas fabricantes e famílias de modelos, como o Hofmeister Kink da BMW ou a coluna C robusta de todo Golf fabricado desde 1974 até hoje. Estes são bacanas, claro, mas não são exatamente o tema deste post.

Ainda sobre placas e coberturas transparentes, impossível não mencionar o Citroën SM, cupê de luxo a marca do duplo chevron lançou em 1970. Obra do extremamente criativo Robert Opron, o SM tinha uma silhueta familiar, que lembrava uma gota quando visto de cima, exatamente como o DS lançado 11 anos antes. Mas ele tinha uma proposta mais esportiva e exclusiva, o que ficava claro pela opção por um motor V6 no lugar do quatro-cilindros em linha.

O Citroën SM tem uma porção de elementos distintos que o tornam inconfundível, mas meu favorito certamente é o conjunto dianteiro original, que trazia três faróis de cada lado e, no meio deles, a placa. O conjunto todo ficava atrás de uma redoma de vidro, o que dava à frente do SM um jeito de vitrine de joalheria, como se a placa e os faróis fossem preciosidades que precisavam ficar protegidas, mas deveriam ser vistas. Isto acabava contribuindo para o ar de sofisticação do cupê.

E é por esta razão que a localização do Citroën SM para o mercado norte-americano foi especialmente infeliz – as vendas começaram em 1972, quando o conjunto de seis faróis do SM era ilegal nos EUA, que exigiam faróis redondos do tipo sealed beam com um diâmetro específico, que não era cumprido pelo desenho original. Eles também não podiam ficar atrás da lente de vidro – apenas a placa permaneceu igual ao que se via na Europa, mas o efeito estético não era o mesmo.

O próprio SM, aliás, tinha outro exemplo ótimo: o respiro no capô, que trazia o emblema do duplo chevron em sua tela:

A questão é que estes dois elementos de design em especial mostram que, às vezes, é necessário ser… desnecessário. A Chevrolet poderia ter colocado uma placa “normal” no primeiro Corvette sem prejuízo à sua estética geral. E a Citroën poderia ter criado uma dianteira mais convencional e simples, que permitiria ao SM ser vendido nos EUA e em qualquer outro país sem modificações. O ponto é que as fabricantes optaram por “complicar” as coisas em benefício do estilo, e isto merece ser exaltado.

Um exemplo mais acessível e familiar aos brasileiros – que também cumpre os critérios estabelecidos de forma implícita acima (ou seja, exclusividade, falta de necessidade e pouco reconhecimento) são os retrovisores do Chevrolet Vectra B. O sedã da Chevrolet, lançado em fevereiro de 1996, é saudado até hoje por seus fãs como um dos melhores produtos da GM no Brasil. Não apenas pelo bom acabamento e pela mecânica consagrada, mas também pelo design – os mais fervorosos dizem até que ele poderias ser relançado nos dias de hoje sem fazer feio. É uma noção meio exagerada, mas de fato o Vectra era um carro muito bonito. Seu perfil aerodinâmico envelheceu bem, de fato, mas um detalhe que nem sempre é notado são seus retrovisores.

Na primeira vez que vi um Vectra B eu não tinha nem dez anos de idade, mas me recordo perfeitamente de reparar nos retrovisores que “nasciam” do capô e pareciam fundir-se sem emendas à carroceria.

V?

Este detalhe não apareceu em nenhuma outra geração do Vectra, o que só reforça sua importância para a identidade do carro. Ele podia ter retrovisores comuns, bem destacados, iguais aos de outros GM da época. Mas não tinha – eles eram únicos.

Existem exemplos mais óbvios e lembrados, como os arcobotantes do mais recente Ford GT, que têm função aerodinâmica e estética ao emular colunas “C”, evitando que o carro pareça incompleto…

… e exemplos ainda mais obscuros que não são visíveis logo de cara, como o emblema dos Volvo modernos: a setinha aponta para a trava do capô, evitando que o motorista passe alguns segundos irritantes procurando por ela.

Mas você sabe qual é a beleza disto tudo? Você pode concordar ou discordar de mim – a percepção de algo como belo, ou mesmo como arte, é subjetiva. Este post não é uma lista, e nem um guia: é apenas uma reflexão sobre algo que eu acho importante e interessante no design automotivo. Os detalhes bonitos e bem pensados, ainda que desnecessários e fáceis de passar despercebidos em carros que já são icônicos por várias outras razões. Como aquela música “lado B” meio esquecida naquele seu álbum clássico favorito, ou uma cena obscura em um filme cult. Um carro precisa de detalhes.

 

Matérias relacionadas

Multas por desrespeito a ciclistas aumentam quase 200% em SP

Leonardo Contesini

UNISIA JECS SKYLINE – uma pequena reflexão sobre carros, games de corrida e nostalgia

Dalmo Hernandes

Couro automotivo: dos sintéticos camuflados ao saudoso Connolly Leather

Juliano Barata