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Car Culture

United colors of racing: a história das cores e pinturas de corrida

Sempre que você olhar para uma Ferrari disputando uma competição, ela será vermelha. O mesmo vale para os Mercedes e Audi em relação ao prata, ou aos carros japoneses com o branco — veja os modelos Nismo, por exemplo. Claro, nada disso é regra: os Subaru ficaram mais famosos com a pintura azul e os Porsche de corrida sempre mudaram de acordo com seus patrocinadores. Mas você faz ideia de como isso começou?

 

As cores nacionais

As pinturas de corrida são quase tão antigas quanto os carros e, obviamente, as corridas. Eu disse “quase”, pois elas apareceram no começo o século XX. Mais precisamente na Gordon Bennett Cup, uma corrida anual realizada entre 1900 e 1905 considerada o primeiro Grande Prêmio da história. Numa época em que não haviam equipes e patrocinadores, esta prova internacional exigiu que cada participante corresse com as cores de seu país. Nessa primeira era do automobilismo a França adotou o azul, a Itália o preto, a Bélgica o amarelo, a Alemanha o branco, e os EUA o vermelho, como você vê no vídeo abaixo:

O Reino Unido, por sua vez, não conseguiu usar suas cores nacionais — vermelho, azul e branco — pois elas já estavam em uso. Como o país já usava locomotivas e outras máquinas pintadas em tons de verde, eles optaram por usar esta cor, que se consolidou como cor oficial britânica quando a Gordon Bennett Cup foi sediada na Irlanda e, em respeito ao país, eles adotaram o verde Shamrock (aquele trevo de três folhas dos irlandeses) em seus carros.

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Mas foi somente nas décadas de 1920 e 1930 que as cores nacionais foram definidas para valer. Os alemães da Mercedes-Benz e Auto Union adotaram chapas de alumínio sem pintura em seus carros de corrida, abandonando o tradicional branco, e o sucesso dos Alfa vermelhos tiraria a cor dos EUA, que passaram a pintar seus carros de branco com o chassi azul. Os britânicos, por sua vez, ficaram com a pintura verde, consolidada pelas diversas vitórias dos Bentley na década de 1920.

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O esquema de cores nacionais continuou a ser usado até o fim dos anos 1960, quando alguém teve a ideia de usar a carroceria do carro como espaço publicitário e elas começaram a ser pintadas com as cores dos patrocinadores do piloto ou de sua equipe. Mas antes disso, as pinturas de corrida tiveram uma pequena evolução em relação às cores nacionais: as faixas de corrida.

 

As faixas de corrida

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Depois de algum sucesso nas pistas dos EUA o piloto e construtor americano Briggs Cunningham determinou-se a vencer as 24 Horas de Le Mans com pilotos e carros de seu país. Em 1951, Cunningham levou a Le Mans um par de Cadillacs pintados com as cores nacionais, conforme a tradição da época, mas já esboçava uma forma de diferenciar seus carros dos demais competidores verdes, vermelhos, azuis e prateados. Seus carros tinham as laterais brancas com o teto em azul escuro, variando a tradicional pintura branca com base azul.

No ano seguinte, ele adotou um novo esquema nunca visto ou imaginado até então. Em uma época de imagens em branco e preto, Cunningham decidiu pintar duas faixas azuis paralelas de forma longitudinal sobre a carroceria branca de seus C4R.

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Com essas faixas, eles seriam reconhecidos mais facilmente pelo público das arquibancadas (que até então só tinha os números como referência) e também em fotografias e vídeos. As faixas foram usadas pela equipe até 1963, a última edição de Le Mans disputada pela Cunningham, que deixou a competição sem realizar seu desejo do triunfo americano na Europa.

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Não importa a cor, as faixas distinguem os carros de todos os outros

No ano seguinte Carroll Shelby entrou em cena com sua experiência de campeão e levou consigo seus novos cupês Daytona. Shelby chegou à França determinado a mostrar ao velho Enzo Ferrari com quantos rednecks se faz uma vitória. Para lembrar o mundo das origens americanas os carros ganharam o mesmo esquema de pintura dos Cunningham, porém com as cores invertidas: faixas brancas sobre fundo azul.

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A adoção das faixas de corrida por Shelby representou não apenas a consolidação das “Cunningham Stripes” como ícones de esportividade, mas também as transformou na pintura oficial dos carros americanos em corridas internacionais, consagrada definitivamente com a vitória geral dos Ford GT40 na edição de 1966 de Le Mans e do GT40 MkII em 1967.

Os carros da Shelby American também foram os primeiros a levar para as ruas as faixas de corrida. Carroll Shelby sabia como poucos conquistar a atenção da mídia e do consumidor e decidiu decorar seus carros de rua com o elemento mais caractarístico de seus ícones das pistas. O primeiro deles foi o Mustang Shelby GT350 em 1965. A partir de 1967 as faixas tornaram-se um opcional aplicado nas concessionárias.

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As faixas de Cunningham também inspirou outras equipes de corrida a adotá-las, adaptando as faixas cada uma ao seu modo. A Cooper passou a usar faixas mais estreitas e nas extremidades laterais do bico do seu T45 de Fórmula 1 em 1958; e a Lotus esticou uma faixa a partir da tradicional boca amarela de seu Type 25, também de Fórmula 1, em 1962.

As faixas logo foram copiadas por praticamente todas as fábricas que faziam um carro esportivo de apelo popular ao redor do planeta. Surgiram variações como faixas duplas mais estreitas, únicas e largas, ou deslocadas para os lados do carro. Chevrolet, Dodge, Plymouth, Pontiac e até os europeus como Renault e Opel aderiram à moda e tinham a carroceria de seus esportivos cortada por faixas de corrida.

A popularização, contudo, acabou banalizando as faixas, e em meados da década de 70 as fabricas já haviam percebido que decorar os modelos de desempenho comum com as faixas de corrida era um bom negócio, e com o perjorativo apelido de “go faster stripes” elas foram aos poucos abandonadas pela rejeição do público e a chegada dos novos tempos pós-crise do petróleo.

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O apelo das faixas de corrida só voltaria em 1996, com uma ajuda do esportivo americano mais marcante de sua geração, o Dodge Viper GTS. O sucesso do GTS — que também foi a Le Mans, porém sem as faixas — deu iníco a um revival que permanece até hoje, aplicadas em versões modernas dos muscle cars, e até em esportivos europeus, como o MINI Cooper e o Renault Clio Gordini.

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No mercado nacional as faixas de corrida estamparam a carroceria dos clássicos Chevrolet Opala SS, Dodge Charger R/T e Ford Maverick GT. Elas caíram em desuso também no fim da década de 1970 e só voltariam à cena para embalar os esportivos de imagem como o Uno Sporting, e até carros comuns voltados ao público jovem, como o Chevrolet Onix.

 

Propaganda sobre rodas

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Ao contrário do que se pensa (e do que o Top Gear falou certa vez) as pinturas de patrocinadores não começou com a Lotus em 1968. Os americanos já usavam carros pintados com as cores e logotipos de patrocinadores desde a primeira metade da década, e em 1967, por exemplo, o “turbine car” de Parnelli Jones já usava a pintura vermelha dos lubrificantes STP, assim como seu logotipo e até uma inscrição “Oil Treatment”.

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Na Fórmula 1, o primeiro carro a usar cores de um patrocinador foi o Brabham do piloto independente John Love. Seu carro era pintado com as cores dos cigarros Gunston, e estreou no GP da África do Sul de 1968.

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Em seguida foi a vez da Lotus de Colin Chapman, que não apenas cedeu a carroceria de seus carros, como também “alugou” o nome da equipe, que passou a se chamar comercialmente Gold Leaf Team Lotus.

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Naquele mesmo 1968, o Ford GT40 conquistava sua terceira vitória em Le Mans com as cores da Gulf Oil, que patrocinava a equipe de John Wyer. Desde então, as cores do automobilismo nunca mais foram as mesmas.

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Claro, houve algumas exceções ao longo dos anos. A Ferrari, por exemplo, não abre mão de seu Rosso Corsa como cor predominante, abrindo exceções para pequenos espaços de seus carros como as asas ou duto de admissão do motor, que geramente são pretos ou brancos, dependendo do patrocinador. A Lotus em seus derradeiros anos na F1 nos anos 1990 chegou a usar uma pintura que combinava o tradicional british racing green com as cores de patrocinadores.

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Os japoneses da Honda e da Toyota também mantém o predomínio do branco tradicional do país, geralmente combinado com azul e/ou vermelho em seus carros. Já os Subaru, por sua vez, ficaram tão famosos com a pintura azul dos cigarros 555 no WRC, que a fabricante adotou o tom como cor oficial de seus modelos esportivos mesmo após o fim do patrocínio.

 

As cores corporativas

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No mundo globalizado, onde marcas e pilotos de diversas nacionalidades se misturam, as cores nacionais já não fazem muito sentido. Por isso, quando não são substituídas pelas cores dos patrocinadores, quem estampa a carroceria são as cores oficiais de seus fabricantes.

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É por isso que os carros da McLaren sempre são apresentados em laranja, e os BMW de corrida usam a cor branca como base e detalhes em azul claro, azul escuro e vermelho, as cores de sua divisão M. A Ferrari também opta pelo vermelho, embora diga-se que a cor oficial da Scuderia é o amarelo de seu emblema.

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Outro caso são os Audi e Mercedes, sempre com sua pintura prateada como os tradicionais Silver Arrows dos anos 1930 — embora a Mercedes ocasionalmente combine o prata com o preto e a Audi use o branco ou o cinza claro.

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