Uno 1.5R, 1.6R e Turbo: a receita da preparação de fábrica

Dalmo Hernandes 17 maio, 2017 0
Uno 1.5R, 1.6R e Turbo: a receita da preparação de fábrica

Muitas vezes a gente só lembra daquele cantor ou ator depois de sua morte. Acontece. Mas sabia que o mesmo pode acontecer com os carros? O Fiat Uno sempre foi visto pela maioria como um popular em sua definição mais pura: básico e antiquado, porém barato e competente em sua proposta.

O Uno é uma prova de que os italianos sabem fazer carros pequenos. A carroceria projetada por Giorgeto Giugiaro, ao adotar linhas predominantemente retas e uma traseira quase vertical, aproveitava ao máximo o espaço interno para ocupantes e bagagem, ao mesmo tempo em que mantinha as dimensões externas contidas e práticas. Além disso, o baixo peso somado ao baixo deslocamento do motor ajudavam a manter mais baixo o consumo de combustível.

No entanto, certos entusiastas enxergam no Uno um automóvel entusiasta. O fato de a versão brasileira ter suspensão independente na traseira (por feixes de molas semi-elípticas, em vez da barra de torção usada no modelo italiano), pesar pouco e ser bem acertado dinamicamente torna até mesmo as versões mais básicas e mansas divertidas ao volante – especialmente para quem conhece o prazer de dirigir rápido um carro lento. No entanto, a Fiat decidiu dar uma forcinha, criando versões esportivas que, apesar de ainda não serem extremamente potentes, eram honestas e aproveitavam ao máximo a boa plataforma do Uno.

Por esta razão, é com o Uno e suas variantes apimentadas que damos início a mais uma série no FlatOut, na qual vamos analisar a receita de esportivos nacionais clássicos a fim de entender o que os tornava tão interessantes – além, é claro, de toda a nostalgia envolvida. Vamos lá?

 

Fiat Uno SX

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Pouca gente lembra deste aqui. Para a maioria das pessoas, “SX” é um dos muitos sobrenomes que o Uno Mille teve na segunda metade da década de 1990, quando a chegada de rivais mais modernos, como o Volkswagen Gol de segunda geração e o Chevrolet Corsa, acabou por torná-lo obsoleto. No entanto, logo em 1984, já como modelo 1985, o Uno ganhou sua primeira versão esportiva.

O Uno SX é bastante raro e até desconhecido por muitos entusiastas. Ele tinha molduras pretas nos para-lamas, calotas de desenho exclusivo nas rodas de 13 polegadas e faróis auxilares (e não de neblina, como muita gente pensa), embutidos nos para-choques. O motor era o famoso Fiasa (Fiat Automóveis S.A.) de 1,3 litro (1.297 cm³) que, graças ao carburador de corpo duplo, entregava 71,6 cv (álcool) ou 70 cv (gasolina) a 5.600 rpm, com torque de 10,6 mkgf a 3.000 rpm. O Uno CS 1.3, com carburador de corpo simples, tinha 59 cv com álcool ou 58 cv com gasolina. O câmbio era sempre de cinco marchas (havia versões do Uno com quatro marchas). Os pneus eram de medidas 165/70 R13, iguais aos dos outros Uno.

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Era o bastante para, de acordo com um teste realizado pela revista Quatro Rodas em outubro de 1984, chegar aos 100 km/h em 15,3 segundos – uma vantagem irrisória se comparada aos 15,9 segundos do Uno CS 1.3 contemporâneo. A velocidade máxima era de 156 km/h, segundo o mesmo teste. O Uno SX ainda era, como o nome dizia, uma experiência (Sport Experimental). As coisas não tardaram a melhorar.

 

Fiat Uno 1.5 R, 1.6 R e 1.6 R MPi

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O lançamento do Fiat Uno 1.5 R, em 1986, marcou o nascimento de uma família icônica. O 1.5 R tinha um motor de 1,5 litro (1,498 cm³) fabricado na Argentina, o famoso Sevel (que é bastante popular entre os preparadores hermanos, que conseguem levá-lo até as 10.000 rpm) e sua decoração estética era menos discreta, começando pelos exclusivos tons de amarelo, decorados com faixas nas laterais, tampa do porta-malas em preto fosco e spoiler traseiro.

O motor era igual ao do Fiat Premio (o sedã do Uno) de 1,5 litro a álcool, porém a adoção de um comando mais agressivo garantia que a potência fosse de 85 cv 6.000 rpm, com torque de 12,9 mkgf a 3.500 rpm. Era o bastante para que, com o câmbio de cinco marchas e relações exclusivas (mais curta na quarta e quinta marcha, e final mais longa), acelerasse até os 100 km/h em 12,4 segundos, com máxima de 163 km/h – dados de fábrica.

Os pneus eram Pirelli P6, de medidas 165/70, e os freios dianteiros usavam discos ventilados iguais aos dos modelos Elba e Premio CSL, com 240 mm de diâmetro (normalmente, eram 227 mm), enquanto os freios traseiros eram a tambor. Os amortecedores dianteiros eram iguais aos dos outros Uno, mas os traseiros eram exclusivos, com mais carga. As molas também eram exclusivas, mais rígidas que as usadas nas versões comportadas do modelo.

Fiat Uno 1.6R

Em 1990, o Uno 1.5 R ganhou um motor maior e se tornou o 1.6 R, mantendo a receita mecânica e visual do antecessor. O motor, obviamente, deslocava agora 1,6 litro (1.580 cm³, na verdade, com curso ampliado de 63,9 para 67,4 mm, mantendo o diâmetro de 86,4 mm). Com taxa de compressão reduzida no modelo a álcool (de 12:1 do 1.5 para 11,5:1 no 1.6), ele entregava 88 cv com o combustível vegetal e 84 cv a gasolina, sempre às 5.700 rpm, enquanto o torque era de 13,2 mkgf. Era o suficiente para que o carro de 868 kg chegasse aos 100 km/h em 10,9 segundos, com máxima de 177 km/h. As relações de marcha eram as mesmas do 1.5R

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Em 1993, como modelo 1994, o Uno 1.6 R trocou o carburador por uma injeção eletrônica e se tornou o 1.6 R MPi. É exatamente o que você acha que significa: injeção eletrônica multiponto. Com a novidade, o motor passou a entregar 92 cv a 5.750 rpm e 13,7 mkgf de torque a 3.000 rpm. No mais, além das mudanças no visual, que incluíram a troca das faixas laterais e adoção da chamada “frente baixa”, introduzida em 1990 para a linha 1991, o carro conservava os freios e a suspensão dos R anteriores.

 

Fiat Uno Turbo

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O mais mítico de todos os Uno foi um pioneiro no Brasil, e um projeto extremamente ousado para a época. A Fiat se inspirou no Uno Turbo i.e. italiano e emprestou dele o motor de 1,4 litro com arquitetura semelhante à do Sevel, porém com deslocamento de 1.372 cm³ e um turbocompressor Garrett T2 operando a 0,8 bar para desenvolver 118 cv a 5.750 rpm e 17,5 mkgf de torque a 3.300. Pode não parecer muito hoje, mas na época era um salto e tanto — ainda mais colocados em perspectiva: eram mais de 86 cv por litro.

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O Uno Turbo tinha um câmbio exclusivo, trazido da Itália como o motor, coma segunda marcha e o diferencial mais curtas, mas a terceira marcha era mais longa. Os freios dianteiros usavam discos de 257 mm emprestados do Fiat Tempra (assim como as rodas de 14 polegadas calçadas com pneus de medidas 185/60). A suspensão por sua vez era a mesma dos modelos 1.5R e 1.6R, com molas exclusivas mais rígidas e amortecedores traseiros com mais carga.

O visual, bem característico, também era corajoso: para-choques exclusivos, bastante pronunciados, pintados na cor da carroceria – que podia ser Vermelho Alpine, Amarelo Exploit (que parecia um verde-limão metálico) ou Preto. Havia, também, alguns exemplares na cor Amarelo Modena que, dizem, usava a mesma pigmentação da Ferrari. Foram feitos cinco carros nesta cor, e todos pertenceram a executivos da Fiat. Destes, tem-se notícia de apenas três, todos com placas de registro “GKU”.