Venturi Atlantique: o belo (e fracassado) esportivo francês de fibra de vidro com motor de DeLorean

Dalmo Hernandes 13 janeiro, 2018 0
Venturi Atlantique: o belo (e fracassado) esportivo francês de fibra de vidro com motor de DeLorean

Há problema em gostar de um carro só porque ele é bonito? No meu caso, foi assim com o Venturi Atlantique. Quando vi o Atlantique em Gran Turismo 2, eu achei o carro simplesmente estonteante – mesmo com os gráficos mais rudimentares do primeiro PlayStation, meu eu de 12 anos de idade achou aquele um dos automóveis mais bonitos do mundo. Mesmo que eu jamais tivesse ouvido falar da marca.

Demorou um tempo para que eu aprendesse um pouco mais sobre a origem daquele cupê com faróis escamoteáveis, proporções harmônicas e uma mescla de elementos dos anos 80 e 90 na carroceria. Há quem diga (o nosso editor Leo Contesini, no caso) que ele lembra uma mistura do Lotus Esprit com a Ferrari 456, e ele tem certa razão. Só que, apesar das aparências, o Atlantique não era britânico e nem italiano: era francês.

A Venturi é uma companhia relativamente recente: foi fundada em 1984 por uma dupla de engenheiros franceses, Claude Poiraud e Gérard Godfroy. E, de fato, eles queriam rivalizar com o Lotus Esprit, que nos anos 80 já podia ser considerado um ícone entre os esportivos europeus. E, por mais que fossem desconhecidos, não tivessem dinheiro e nem infraestrutura para tal, conseguiram produzir carros por 16 anos ininterruptos, de 1984 a 2000.

maxresdefault

O primeiro nome da companhia de Poiraud e Godfroy era MVS – sigla para Manufacture de Voitures de Sport, que significa “Fabricação de Carros Esportivos”, literalmente. E o primeiro de seus carros esportivos foi o MVS Ventury – assim mesmo, com “y” – um cupê de fibra de vidro com motor de Golf GTI, apresentado no Salão de Paris de 1984, trazendo boa parte das linhas que seriam usadas na versão de produção.

O que mudou foi o motor: a MVS experimentou com o motor de 200 cv do Peugeot 505 Turbo e, depois, com o V6 Peugeot Renault Volvo, de 2,8 litros e 260 cv, conhecido como PRV. É exatamente o mesmo motor que foi usado pelo DeLorean DMC-12, o esportivo de aço escovado idealizado por John DeLorean nos anos 80 que se tornou ícone do cinema. A diferença é que o DeLorean, produzido em 1981 e 1983, tinha o motor na traseira, portas asa-de-gaivota e foi um fracasso por conta de seu fraco desempenho com apenas 130 cv.

O MVS Ventury, porém, tinha o dobro da potência, e começou a ser fabricado em 1987 com o nome de Venturi Coupe 260 – em algum momento, Poiraud e Godfroy decidiram que “Venturi” era um nome muito mais sonoro que “MVS” para batizar sua companhia. No total, 52 carros foram feitos naquele ano na fábrica da companhia na cidade de Couëron, região de Pays de la Loire, na França.

venturi_coupe_260_lm_7 autowp.ru_venturi_260_lm_1

O primeiro Venturi Atlantique usava lanternas de VW Scirocco de primeira geração

O carro usava uma estrutura tubular de aço com suspensão McPherson na dianteira e por braços triangulares sobrepostos na traseira. A carroceria de fibra de carbono tinha um design simples, com capô longo, traseira fastback, faróis escamoteáveis e entradas de ar a coluna “C” e nos para-lamas traseiros. Por dentro, era a cara dos esportivos “artesanais” dos anos 80, com formas predominantemente retilíneas, profusão de mostradores no painel e couro cobrindo cada superfície plástica. Era um carro compacto, com apenas 4,09 m de comprimento, e 2,40 m de entre-eixos (como o Fusca), feito para duas pessoas apenas.

A receita básica foi sendo modificada nas versões subsequentes. Em 1988, uma versão com motor naturalmente aspirada, o APC 160, foi introduzida como modelo de entrada. Já em 1991, o APC 260 ganhou uma versão mais leve ao abandonar certos itens de conforto como ar-condicionado e sistema de som, e adotando materiais mais leves em sua construção. Era o Venturi Atlantique 260, que também tinha formas mais arredondadas, porém seguindo a mesma identidade visual que o APC 260. O motor também era o mesmo, mas com o peso reduzido para cerca de 1.100 kg, era capaz de ir de zero a 100 km/h em 5,2 segundos e atingir a velocidade máxima de 269 km/h. Para efeito de comparação, o primeiro modelo ia de zero a 100 km/h em pouco menos de sete segundos.

venturi_atlantique_300_1

Mais do que isto, o comportamento dinâmico do Venturi Atlantique era exemplar: a suspensão era muito bem acertada, o peso do carro era bem distribuído entre os eixos e o capricho dos franceses no acabamento da carroceria e do interior fizeram Jeremy Clarkson compará-lo com um jatinho particular em um episódio do antigo Top Gear, exibido em 1992.

Há quem diga que a Venturi construía carros por paixão, pois apesar do número crescente de exemplares fabricados por ano, a companhia jamais conseguia converter a produção em lucro. E foi por isto que, em 1994, os dois fundadores da companhia a venderam ao escocês Hubert O’Neill, que aperfeiçoou ainda mais o projeto.

 autowp.ru_venturi_atlantique_300_1

Agora, as lanternas eram iguais às do Ford Sierra

Sob seu comando, uma nova versão do cupê da Venturi, chamada Atlantique 300, foi desenvolvida. O motor PRV teve o deslocamento ampliado para três litros e ganhou cabeçotes com comando duplo para chegar aos 210 cv sem indução forçada, ou 281 cv com dois turbos. Este último era capaz de ir de zero a 100 km/h em 4,9 segundos. Comparado com o Lotus Esprit pela revista britânica Performance Car, o Atlantique deu um show: “o Atlantique é um carro mai fácil de dirigir, suas dimensões tornam mais fácil estacioná-lo, o rodar é confortável, ele faz menos barulho ao rodar e tem trocas de marchas muito mais precisas. É melhor construído, também”.

Ainda que não fosse mais uma companhia 100% francesa, a Venturi seguiu nas mãos de O’Neill por mais seis anos. Também em 1994 a Venturi apresentou o Atlantique 400 GT, com uma grande asa traseira e faróis parcialmente à mostra quando fechados. Suas formas lembravam bastante a Ferrari F40, lançada sete anos antes.

Venturi-400-GT-1994-Photo-02 400GT

O 400 GT era um carro maior e mais agressivo, com entre-eixos mais longo, rodas de 18 polegadas e uma versão biturbo do motor V6 3.0 do sedã Renault Safrane, capaz de entregar 408 cv. Pesando 1.150 kg, o Venturi Atlantique 400 GT chegava aos 100 km/h em 4,7 segundos, com máxima de 291 km/h. Para parar tanta força, o carro foi o primeiro carro “produzido em série” a usar discos de freio de carbono-cerâmica – que são muito mais resistentes ao fading por superaquecimento.

 

Com apenas 700 unidades fabricadas ao longo de 16 anos, o Venturi Atlantique (assim como suas variações) não foi o que se considera um sucesso de público, embora predicados não o faltassem. Por outro lado, suas versões de competição foram razoavelmente bem sucedidas.

 

O Venturi 500 LM, versão de competição criada para as 24 Horas de Le Mans, foi uma delas.Criado primariamente pera competir na categoria GT das 24 Horas de Le Mans, o Venturi 500 LM tinha faróis expostos, peso aliviado e uma versão de 500 cv do motor V6 PRV. Com bom desempenho em 1993 e 1995, o Venturi 500 LM também ganhou sua própria categoria monomarca, o Venturi Gentlemen Driver’s Trophy, que em seu auge chegou a ter 75 pilotos no grid. Em 1996 veio o 600 LM, que como o nome sugeria, tinha a potência aumentada para 600 cv. Um monstro.

A Venturi, infelizmente, não tornou-se muito conhecida pelo grande público. No entanto, para seus fãs, a Venturi não deixa nada devendo à mais lembrada Alpine.