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Viagem Sem Fim: a volta ao mundo de carro que durou 26 anos e 900.000 km

Responda rápido: quantos anos se passaram de 1989? Para a gente que viveu a virada da década, é fácil confundir e apostar em uns 15 ou 16 anos. Nada disso: lá se vão 26 anos. E foi exatamente este o tempo que durou a viagem ao redor do mundo de Gunther Holtorf que, depois de mais de um quarto de século, terminou em Berlim neste ano.

Em 1989 Gunther e sua esposa Christine partiram em um Mercedes-Benz 300GD deixaram Berlim (logo que o Muro caiu), planejando uma viagem de um ano e meio pelo continente africano. Os 18 meses foram esticando e se tornaram anos. Dois, dez, quinze, vinte anos na estrada — e mais de 890.000 km percorridos com um mesmo carro — que, Holtorf garante, jamais sofreu um acidente grave e nunca parou por problemas.

Ele diz que, neste tempo, conheceu o carro tão bem que consegue diagnosticar qualquer defeito e consertá-lo na hora — na verdade, foram criados laços afetivos com o G-Wagen, que por muitas vezes também serviu de moradia ao casal: os bancos traseiros deram lugar a um colchão e aos pertences de Gunther e Christine.

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Nos últimos quatro anos, porém, foram só Gunther e Otto — é este o nome do Mercedes —, pois em 2010 Christine sucumbiu a um câncer contra o qual vinha lutando havia algum tempo. Seu último desejo era que o marido continuasse a correr o mundo, e foi o que ele fez até esta semana, quando finalmente voltou a Berlim depois de quase 30 anos.

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Otto enfrenta uma boiada no Brasil

Brasil, Himalaia, Rússia, Canadá, Austrália… ao longo destes 26 anos, o Classe G de Gunther atravessou 215 países, até mesmo a Coreia do Norte! Pense em um país e provavelmnte Otto esteve lá. Foi o suficiente para que o Mercedes se tornasse o veículo que visitou mais países no mundo. Dos 890.000 km, estima-se que ao menos 250.000 foram rodados fora de estrada — algo impressionante para um carro que, fora a suspensão reforçada, tem todos os componentes mecânicos originais — motor (de três litros a diesel com apenas 88 cv), câmbio e eixos são os mesmos do dia em que o SUV deixou a fábrica.

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O roteiro começou na África, seguiu para as Américas — do Sul para o Norte —, Ásia e de volta para a Europa. Mas nada de pressa — Gunther e Christine decidiram partir sem avisar a mídia, sem contar com apoio financeiro e sem o intuito de conquistar nada, apenas curtir a viagem da melhor forma possível — conhecendo pessoas e lugares e trocando experiências. E, claro, documentando tudo em fotos que acabam nos levando para viajar junto com eles.

Algumas estatísticas da viagem são impressionantes: o Mercedes-Benz já viajou em 41 contêineres, pegou 113 balsas e atravessou 410 fronteiras. Enfrentou temperaturas que variavam entre -27° e mais de 50°C, e dirigiu a 5.200 metros acima do nível do mar no Monte Everest. A distância percorrida equivale a 22 voltas ao redor do mundo — ou uma viagem de ida e volta à Lua e mais duas voltas sobre a linha do Equador.

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É muito difícil demonstrar a grandeza da viagem de Gunther com frases descritivas — as imagens registradas ao longo da viagem falam com muito mais eficiência. Algumas delas estão no vídeo acima, e também na galeria a seguir do fim deste post.

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Infelizmente não há detalhes muito maiores da viagem, pois Gunther e a esposa levavam o espírito aventureiro a sério, permanecendo anônimos e não usando nenhum tipo de diário de viagem, físico ou digital — apenas as fotos. Uma fanpage não-oficial foi criada em 2012, mas isto é tudo. Pensando bem, “infelizmente” não é a palavra. Seria incrível ler o diário de viagem de Gunther e Christine, mas por outro lado eles puderam viver tantos momentos juntos — em tantos lugares diferentes — da maneira mais pura possível, sem se preocupar com trivialidades como um diário para mostrar aos outros.

Otto também vai descansar agora — os últimos quilômetros da viagem foram acompanhados pela própria Mercedes-Benz e o 300GD será colocado em exposição no museu da marca em Stuttgart, certamente como parte das comemorações pelos 35 anos do Classe G. Mas nós sabemos que é Gunther quem deve comemorar de verdade. Sua esposa deve estar orgulhosa, onde quer que esteja.

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[ Fotos: Gunther Holtorf, Mercedes-Benz ]

 

 

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