Você sabe como surgiu a brincadeira do “Fusca Azul”? E a expressão pé-na-tábua?

Dalmo Hernandes 1 abril, 2015 143
Você sabe como surgiu a brincadeira do “Fusca Azul”? E a expressão pé-na-tábua?

O dia 1º de abril é conhecido também como “o dia em que você não pode confiar em absolutamente nada que vê na Internet, e isto inclui os sites automotivos”, incluindo o FlatOut… ou, melhor dizendo, o Pé na Tábua. Sim, seu site de car culture (quer dizer, cultura automotiva) favorito agora tem um nome mais old school (quer dizer, velha-escola), divertido e fácil de pronunciar.

Depois de ouvir dezenas de pessoas dizendo “fletaute”, “flátôut” ou “fléti auti” e sem saber como digitar a URL nos navegadores depois de ouvir um amigo contando sobre o site (quer dizer, sítio). Assim, decidimos mudar nosso nome para Pé na Tábua que, como você deve saber, quer dizer exatamente a mesma coisa que FlatOut. Já dizia o grande Colin McRae, um dos maiores pilotos de rali de todos os tempos:

Na dúvida, pé na tábua!”

Mas de onde veio a expressão “pé na tábua”?

Bem, você não precisa ser um gênio para sacar que tem algo a ver com pisar em alguma coisa… mas em uma tábua? Na verdade, também não há muito mistério nisso. Os primeiros carros, como você bem sabe, eram bem diferentes dos que temos hoje — na virada do século 20, quando o automóvel havia acabado de ser inventado por Karl Benz, eles eram bem mais parecidos com as carruagens que transportavam as pessoas por séculos — tanto que eles costumavam ser chamados de horseless carriages, ou “carruagens sem cavalos”.

Boa parte deles usava muita madeira em sua construção — carroceria, volante, acabamentos internos e assoalho. E foi assim por um bom tempo — é só olhar um Ford Modelo T, o primeiro carro produzido em série, que foi vendido de 1908 a 1927.

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Há madeira por toda a parte — e o assoalho por baixo do carpete também é de madeira. Agora, ainda que o Modelo T não tivesse o acelerador no chão, e sim em uma alavanca à direita do volante (como explicamos neste post com a origem dos comandos modernos dos automóveis), você deve ter pego a ideia básica: muitos carros de antigamente tinham assoalho de madeira.

Não se sabe exatamente quando a expressão “pé na tábua” surgiu na língua portuguesa, mas acredita-se que foi depois de 1916, quando o Cadillac Type 53 introduziu o arranjo universal de comandos, com os pedais do acelerador à direita e do freio à esquerda (história que contamos aqui). Desde então os carros mudaram muito, ficaram cada vez mais potentes, rápidos e eficientes, mas uma coisa não mudou: para correr de verdade, é preciso pisar fundo — sentar a bota e afundar o acelerador até encostar no assoalho. Que era de madeira. Pé na Tábua.

Agora, esta não é a história que íamos contar neste post, e sim a origem do “Fusca Azul”. Não do primeiro Fusca pintado de azul, obviamente, mas daquilo que todo moleque faz quando vê um Fusca azul.

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Foto: dgworks.com.br

A brincadeira é simples: ao ser o primeiro a avistar um Fusca azul nas proximidades, você ganha o direito de dar um soco no braço do seu amigo (pode ser qualquer pessoa que esteja perto no momento, mas recomenda-se fortemente que seja um amigo). Mas por quê?

Novamente, não se sabe a resposta exata para esta pergunta. O que se sabe é que ela provavelmente começou nos EUA, na década de 60 — quando o Beetle ficou bastante popular por lá. Nos EUA o Beetle também é chamado de bug (inseto) ou buggy, e a brincadeira é conhecida como “Punch Buggy” ou “Slug Bug”. E o Fusca (quer dizer, Beetle) não precisa ser azul. Você só precisa gritar “punch buggy” e o nome da cor do Fusca.

Contudo, há quem leve em conta algumas regras. Elas variam de pessoa para pessoa, mas existe até um livro chamado Rules for Playing Slug Bug and Punch Buggy!, escrito por uma americana chamada Janet Polk, que se declara “uma entusiasta do Volkswagen Beetle”. Obviamente não são regras oficiais, e sim sugestões. Por exemplo: durante uma viagem, as partes podem determinar uma pontuação — cada soco dado vale um ponto, e quem fizer mais pontos primeiro vence.

People look at vintage Volkswagen cars during 29th annual "Kaefer" meeting in Hanover

O paraíso para os entusiastas do “Punch Buggy” / Foto: bnn-news.com

Também há quem inclua o New Beetle e a geração atual do Fusca na jogada e determine uma quantidade de socos: quem vir um Fusca antigo pode dar dois socos, enquanto os modelos novos dão direito a apenas um soco. Também costuma-se deixar claro que, se você der um soco sem ter visto um Fusca, deve deixar que seu amigo lhe dê dois socos (ou um soco bem forte) da próxima vez que avistar um Besouro.

“E por que o nosso Fusca é azul, afinal?” Também não existe uma explicação exata, e sim uma história que envolve, novamente, Henry Ford. Você deve conhecer a clássica frase de Ford, que disse uma vez que “o cliente pode ter o carro que quiser, desde que ele seja preto — o que leva muita gente a crer, erroneamente, que todo Ford T era preto. Não era — na verdade, em seus primeiros anos de produção, o Modelo T podia ser cinza, verde, azul ou vermelho.

A partir de 1914, porém, para conter custos e economizar tempo na produção, Ford determinou que todos os carros a partir dali seriam pintados de preto. Conta a lenda que, um dia, o funcionário responsável por produzir a tinta usada nos carros errou na dosagem dos pigmentos e colocou ciano demais, resultando em um lote de carros azul escuro, e não pretos.

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Para Henry Ford aquele foi um erro inadmissível e, além de não colocar os carros à venda, ele deu um belo tapa nas costas do funcionário (na frente de todos os colegas) como punição.

Os carros azuis, então, passaram a fazer parte da frota interna da fábrica. Assim, quando um funcionário via um deles, logo imitava o patrão e dava um tapa nas costas do colega mais desatento. A brincadeira virou tradição e saiu da fábrica, espalhando-se pelo país e, nos anos 50, chegando ao Brasil. Obviamente, porém, que esta versão é uma lenda e não tem sua veracidade comprovada.

Agora, se você realmente quer uma explicação oficial para a origem do “Fusca Azul”, saiba que o mais perto disso que podemos lhe dar é uma campanha feita pela Volkswagen em 2010, explorando carisma do Fusquinha. De acordo com a campanha, que foi feita com uma série de vídeos no YouTube, o criador da brincadeira foi um americano conhecido como Sluggy Patterson.

Ele diz que, em 1960, estava viajando com um amigo, mas ele era falava demais e era muito irritante — a ponto de Patterson não aguentar mais e lhe desferir um belo soco na cara.

Para justificar a agressão ao amigo indignado, ele inventou uma história, dizendo que era um jogo novo no qual sempre que alguém avistasse um Fusca, podia dar um soco no rosto de quem estivesse ao lado. Contudo, com o tempo o soco passou a ser dado no braço — segundo Patterson, para ficar tornar as coisas “mais civilizadas”.

O fato é que não se sabe quem inventou o “Punch Buggy”, muito menos o “Fusca Azul”. Incontestável, porém, é o fato de que só um carro carismático como o Fusca poderia dar origem a uma brincadeira tão conhecida.